Vozes da Brasilândia aborda novas narrativas no enfrentamento da violência de gênero, raça e idade na periferia

O combate às violências de gênero, raça e idade na periferia foi o tema abordado na quinta oficina do projeto Vozes da Brasilândia. O encontro aconteceu na sede da Associação Cantareira (Rua Jorge Pires Ramalho, 71 Vila Isabel), em 11 de julho.

Desenvolvido pela Associação Cantareira, com o apoio do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania do Governo Federal, o Vozes da Brasilândia busca fortalecer uma rede de guardiãs da memória no território, especialmente mulheres negras. Ao todo, são 20 participantes, que foram selecionadas considerando entre os pré-requisitos seu histórico de atuação em diversas entidades pelo território.

Luiza Akimoto (@luizakimoto), artista, pesquisadora e diretora de criação do coletivo Cria Coragem foi a palestrante convidada. Ela propôs uma reflexão sobre o papel da comunicação na construção de narrativas capazes de enfrentar a violência sem que, com isso, se reforce novos estigmas. Pessoas negras, mulheres e moradores da periferia são frequentemente provocados a falar sobre suas experiências causadas por algum tipo de violência, o que pode reproduzir estereótipos.

Segundo ela, a partir do trabalho realizado no coletivo Cria Coragem, voltado à defesa de crianças e adolescentes e ao combate do abuso e violência sexual, criou-se a necessidade em questionar como esses temas são abordados e como a repetição dos relatos das vítimas dessas violências e o uso de suas imagens podem fazer com que elas revivam novamente essa dor.

Fotos: Fernando Sena

REPRESENTAÇÃO

Ao longo do encontro, Luiza também reforçou a importância da representação na construção da memória coletiva. Quando a periferia aparece apenas associada à violência, à pobreza e à vulnerabilidade social, cria-se uma imaginação restrita e errônea sobre seus moradores e do próprio território. Por outro lado, ao mostrar as coisas boas que acontecem, como festas, famílias, manifestações culturais, iniciativas comunitárias, por exemplo, amplia-se o entendimento sobre a diversidade e potência.

A palestrante apresentou às guardiãs da memória uma parte do acervo desenvolvido pelo coletivo, que reúne fotos produzidas por artistas periféricos. Esse material procura mostrar novas referências visuais em que histórias, culturas e experiências são valorizadas.

As guardiãs foram convidadas a escolher uma ou mais imagens, se apresentar e explicar o motivo da escolha de determinada imagem, momento em que várias lembranças pessoais foram compartilhadas.

Outro ponto importante e necessário a partir do encontro foi pensar em formas de conversar sobre violências sem que, com isso, se insira novamente as pessoas no lugar de trauma, a fim de buscar novas formas de escuta e construção de narrativas que não olhem apenas para as dores, mas que evidencie a trajetória de resistência e transformação.

Denunciar violências continua sendo algo necessário, mas criar narrativas e comportamentos que valorizem a dignidade, a memória, a cultura e a potencialidade do território contribui para novas formas de representação.

PARTILHA DE SABERES

Luiza Akimoto comentou que o ponto de maior virada no encontro foi a oportunidade de compartilhar o trabalho que desenvolve no território com mulheres que a inspiraram com outras iniciativas pela Brasilândia.

“Olhando como ativista aqui do território, sinto a importância do retorno do trabalho que a gente faz. Então, quando eu faço essa oficina e sinto com essas mestras da minha vida, essas pessoas que já me ensinaram e já passaram pela minha vida, e isso é muito importante porque eu consigo contar para elas que tudo que eu sou hoje, a minha pesquisa, a minha arte, tem responsabilidade e culpa no trabalho que elas fizeram aqui no território”.

Ainda sobre o valor desta partilha de saberes, comentou Sandra Regina Alineu Férics, uma das participantes: “Eu não sou detentora da história da Brasilândia, ela não partiu de mim, é parte do coletivo. Então quando você escuta o outro, eu acho que fica mais rico. Então é isso que eu vou levar desse encontro: a partilha, a escuta, isso foi o mais importante hoje”.

PRÓXIMA OFICINA
A sexta oficina do projeto será realizada no sábado, 25 de julho, a partir das 14h, na sede da Associação Cantareira, com o tema “Inventário Participativo através de Fichas de Entrevistas”, com a jornalista Elisangela Silva.