‘Comunidade em Foco’ destaca a incidência e os desafios da economia solidária na periferia
Muitos coletivos da periferia, como de artesãos, de hortas urbanas, catadores de materiais recicláveis e grupos culturais, trabalham juntos, dividem tarefas e tentam manter uma renda sem depender de um único patrão. Ainda assim, nem sempre sabem que esse modo de organização tem um nome: economia solidária.
Morador da Brasilândia e trabalhador do setor audiovisual, Italo Yuri atua como agente territorial do Programa de Formação Paul Singer de Agentes em Economia Popular e Solidária. Ele falou sobre essa iniciativa na edição de 5 de agosto do programa “Comunidade em Foco”, da rádio comunitária Cantareira FM, apresentado por Juçara Terezinha. A entrevista também abordou a dificuldade de acessar editais e a falta de políticas municipais para o setor.
O agente que vai até os grupos
Italo tem uma trajetória ligada à cultura. Já trabalhou no Centro Cultural da Juventude, no CEU Taipas e em outros espaços. Formado em rádio e TV, atua como câmera, editor e produtor audiovisual.
No Programa Paul Singer, ele acompanha empreendimentos de economia popular e solidária em São Paulo. Faz o mapeamento dos grupos, orienta inscrições em editais e ajuda os trabalhadores a lidar com o Cadastro Nacional de Empreendimentos Econômicos Solidários, o Cadsol.
“O agente territorial é basicamente uma pessoa que está na ponta, junto com os empreendimentos de economia solidária”, explicou. A experiência com comunicação também passou a fazer parte do trabalho. Italo diz que muitos projetos são conhecidos apenas por quem mora perto de onde acontecem.
“Tem muita coisa boa acontecendo, mas que não é divulgada. O território fica com isso ali no local, um ou outro conhece, mas fica meio escondido”, afirmou Juçara.
Um dos grupos que Italo acompanha é o Espaço Cultural do Jardim Damasceno, conduzido pela senhora Noemia Mendonça. O coletivo mantém uma horta urbana e produz artesanato. Nas visitas a diferentes locais, os dois conversam sobre como divulgar melhor o trabalho e encontrar editais que possam ajudar o espaço.
O programa Paul Singer também está reunindo informações sobre os empreendimentos: o que produzem, como se organizam e se estão formalizados. Ítalo entrou na segunda para a terceira fase do programa, que combina mapeamento e formação de agentes.

O difícil é convencer que o coletivo pode dar certo
Juçara perguntou como o trabalho coletivo se sustenta em uma cidade onde muita gente é levada a procurar uma solução individual para sobreviver. Ítalo citou a uberização e as apostas on-line como exemplos dessa lógica.
“Em São Paulo é cada um por si. Aqui se criam essas soluções mágicas”, disse Italo. Para ele, esse ambiente dificulta a apresentação de propostas baseadas na cooperação.
A resistência aparece até na família. “Quando eu tento explicar para a minha família o meu trabalho, a galera fala: ‘Economia solidária? Isso não tem como dar certo’”, relatou.
Italo enfatizou que a economia solidária não é uma experiência apenas teórica. Ele lembrou de trabalhadores que assumiram empresas falidas para manter os próprios empregos e a renda: “A economia solidária funciona. Ela é factível; isso já é constatado há vários anos, em vários países, em vários lugares e contextos”.
A prática pode aparecer em diferentes formatos: um grupo de mulheres que divide um espaço para vender artesanato, uma associação de trabalhadores, uma horta urbana ou uma parceria entre profissionais que se juntam para produzir.
Entre 2023 e 2025, Italo fez uma pós-graduação sobre economia solidária e criptomoedas. Durante a pesquisa, conheceu o Criptocerrão, coletivo do Aglomerado da Serra (MG). O grupo criou uma criptomoeda para vender obras de arte e remunerar artistas do próprio território.
“Até nessa selvageria das criptomoedas existe possibilidade para uma iniciativa solidária”, avaliou.
Juçara Terezinha lembrou que também a rádio comunitária Cantareira FM é conduzida de modo colaborativo: “Se cada um de nós que trabalha aqui fosse cobrar o que coloca como colaborador, a gente não teria como manter um projeto como esse no ar”, afirmou.
Capacitação precisa acompanhar os programas de renda
Juçara contou que a Rádio Cantareira já tentou aproximar grupos de economia solidária de ações de capacitação. Na avaliação dela, os programas de transferência de renda deveriam vir acompanhados de oportunidades de formação.
“O poder público deveria manter esses programas de maneira permanente: não só oferecer o Bolsa Família, o Vale-Gás ou outros benefícios, mas também dar a oportunidade de capacitação para que a pessoa possa se tornar empreendedora e conquistar espaço no mercado de trabalho”, defendeu a apresentadora.
A observação levou Italo a falar sobre o papel do poder público: “Para todo o trabalho de convencimento e mapeamento funcionar como política pública, tem uma peça na nossa sociedade que é fundamental: o poder público”.
Segundo ele, a economia solidária ainda tem pouca presença na política municipal de São Paulo, que, em seu entender, costuma priorizar o empreendedorismo individual e a capacitação técnica. Para mudar esse quadro, seria preciso envolver vereadores, subprefeituras e prefeitura.
Italo também disse que a proposta não deveria ser vista como exclusiva de um campo político. “É uma coisa liberal você ter seu empreendimento e viver do seu trabalho”, argumentou.

A burocracia deixa grupos de fora
O acesso aos editais foi outro ponto da conversa. Juçara observou que muitos coletivos não têm histórico de comprovação nem uma equipe para cuidar da documentação exigida: “Hoje em dia é tudo por comprovação. Você não consegue acessar um edital se não comprovar o que está fazendo ou o que já fez”.
A apresentadora ainda reforçou que as exigências são pesadas para grupos pequenos. “Você emprega a mesma legislação que emprega para uma prefeitura ou uma secretaria em uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos. Só que lá o poder público tem uma equipe técnica cuidando disso; na organização da sociedade civil, é o próprio coletivo que segura as pontas”, comparou.
Parte do trabalho do agente é ajudar os grupos a entender os procedimentos e se preparar para as inscrições com a educação popular. Italo reconheceu que a burocracia também tem relação com transparência, mas ressaltou que os coletivos precisam de orientação para não desistir antes de conseguir apresentar seus projetos.
Como sobreviver quando o edital acaba?
Italo conhece esse problema também como trabalhador da cultura. No audiovisual, conforme contou, o período entre dezembro e o início do Carnaval costuma ser mais fraco em termos de renda. Quando os editais terminam, os profissionais precisam encontrar outras formas de trabalhar.
“Se você depende de edital, não é uma autogestão. É importante ter uma sustentabilidade quando você não está com edital”, afirmou.
Ele defendeu mais união entre os coletivos culturais. Em vez de cada grupo disputar sozinho os recursos, a ideia seria formar redes, participar de audiências públicas e ajudar a construir os próprios editais.
Italo citou o Fomenta Periferia como resultado de uma mobilização dos grupos e falou sobre a importância de se aproximar das organizações profissionais. Ele, por exemplo, é associado à Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN).
“Não é só de onde você vai tirar dinheiro, mas onde você tem que ter dignidade também”, resumiu.
Onde procurar ajuda?
Empreendimentos interessados em saber mais sobre o Programa de Formação Paul Singer de Agentes em Economia Popular e Solidária podem falar com Ítalo pelo WhatsApp (11) 96278-9553, ou LinkedIn e Facebook, procurando pelo nome “Italo Yuri”. Ele também atende no Teia Taipas (Rua Diógenes Dourado, 101 – Cohab de Taipas), às terças e quintas-feiras.
A orientação pode envolver editais, feiras, cadastro e formas de organização. O grupo não precisa chegar já identificado como empreendimento de economia solidária: essa também é uma parte do trabalho do agente.

Cineclube leva filmes e debate aos bairros
Na segunda parte do programa, Juçara conduziu juntamente com Beto Souza, do programa Revista da Semana, um bate papo sobre audiovisual.
Italo também é trabalhador do audiovisual e coordenador do Cineclube SPCine. O projeto promove, em média, 45 sessões gratuitas por mês em espaços públicos de São Paulo.
As exibições são seguidas de conversa com o público. Ítalo coordena uma equipe de 22 agentes e articuladores territoriais, que organizam as sessões e os debates.
Juçara chamou atenção para um problema de divulgação e acesso. Muitas pessoas pagam para assistir a filmes em shopping centers sem saber que podem encontrar sessões gratuitas em casas de cultura e outros equipamentos próximos de casa.
“Não é porque o filme passa no CEU ou na casa de cultura que ele é inferior ao que passa no shopping”, observou Juçara.
Para Italo, o cineclube é mais do que uma sessão gratuita. “É direito à cultura, é direito à cidade, é cidadania também. É a gente dialogar, conviver, sair um pouco de casa, não viver só pautado no consumo”, afirmou.
ASSISTA A ÍNTEGRA DO COMUNIDADE EM FOCO DE 5 DE AGOSTO
