‘Amizade Aberta’ destaca o Projeto Fábrica dos Sonhos

Transformar os sonhos das crianças em habilidades reais para a vida é o propósito do Projeto Fábrica dos Sonhos, idealizado por Nathália Melo, a partir das brincadeiras das filhas Nina, já adolescente, e Ariela, 3 anos. 

“Um dia minha filha mais velha chegou em mim e falou: ‘Mãe, eu quero ser youtuber’, ela queria trabalhar com animação; e a mais nova falou, ‘eu quero ser uma fada bailarina sereia’, e comecei a pensar em como ajudá-las”, detalhou Nathália, em entrevista na edição de 11 de junho do programa ‘Amizade Aberta’, apresentado por Anderson Braz na rádio comunitária Cantareira FM.

“Quando elas me disseram isso, eu pensei ‘que lindo’, e não queria deixar aquilo passar. Muitas vezes, os filhos falam pra gente algo que eles querem ser – ‘Eu quero ser uma princesa, eu quero ser um super herói’ – e a gente fala, ‘que lindo, tá bom’, mas aquilo fica de lado. Eu fiquei pensando em como transformar aqueles sonhos em habilidades. Então, meu marido e eu fomos em busca de coisas para a Ariela se tornar fada. Ela começou a fazer natação, porque as sereias nadam; começou no balé, porque as bailarinas têm disciplina; e como a fada cuida da vida e da natureza, ela cuida do nosso pet aqui em casa, colocando água e ração pra ele”, explicou a mãe. 

O TRABALHO COM AS HABILIDADES

No caso da Ariela, Nathália conta que tem buscado desenvolver na filha virtudes como coragem, responsabilidade, empatia e consciência corporal. 

“Nós entendemos que as habilidades foram assimiladas a partir desse sonho dela. O meu esposo, Danilo, é educador ambiental e faz parceria comigo no projeto. E as meninas estão inclusas. Então, o mais gostoso é que tanto os familiares quanto os amigos estão acompanhando pelas redes sociais esta iniciativa. Nós trazemos os bastidores, os muitos erros e acertos, as correções necessárias e as conversas a respeito de alguma situação que precisa de melhor desenvolvimento, de maior consciência delas. E quem nos segue, a maioria são amigos nossos, vêm falando que é um projeto maravilhoso, que vai dar muito certo, que faz muito sentido. Com esse projeto, é possível desenvolver muitas habilidades das crianças”, enfatizou Nathália.

Formada em pedagogia e com vivências profissionais em escolas públicas e privadas, Nathália disse perceber que muitas vezes os pais só olham para as habilidades dos filhos em uma perspectiva futura e não observam o potencial que já se apresenta no presente: “Os pais não observam o agora. Tudo para a criança é projetado para o futuro, como se ela fosse ser considerada alguém apenas quando for produzir. E ela é um indivíduo agora. Tem todo um potencial, uma capacidade a ser construída”.

METODOLOGIA

E é para ajudar neste processo de lapidação das habilidades das crianças que é realizado o trabalho de Nathália Melo. 

“No Projeto Fábrica dos Sonhos, eu estou no meio, como a mediadora, como alguém que vai ajudar a fazer do sonho algo concreto. Eu favoreço esse caminho para as famílias, para construírem hoje esse indivíduo e ouvirem dele. Por exemplo: às vezes, a criança fala ‘eu gosto muito de mexer no cabelo, gosto muito de me pentear, de passar batom’. A partir dessa informação, você começa a traduzir habilidades, fazer a decodificação desse sonho, colocar ferramentas à disposição dela hoje e não deixar apenas para uma representação futura. É muito importante a pessoa se desenvolver como indivíduo a partir das próprias habilidades e capacidades”, explicou.

“Eu ajudo os pais a transformarem os sonhos dos filhos em habilidades reais. Depois, fazemos como que um decodificador de sonhos, momento em que eu ensino como identificar esses sonhos infantis, como traduzir a fantasia em habilidade, como criar atividades reais, trazer para o mundo real aquilo que o seu filho gosta. Também no projeto, em grupos, eu compartilho as muitas questões de educação. Então, ali a gente fala muito para olhar a criança enquanto indivíduo e deixá-la explorar aquilo que ela quer. Nós auxiliamos a criança a identificar, por exemplo, brinquedos por categoria. Então, uma menina não vai brincar só com brinquedos como bonecas, panelinhas e ferro de passar. Ela pode explorar o mundo a partir de brinquedos com os quais ela se identifica. A minha filha mais nova, por exemplo, gosta de caminhão: eu a estimulo a brincar com caminhão, a explorar as engrenagens; e no futuro, quem sabe, ela pode, com essa habilidade, se tornar uma engenheira”, disse.

Segundo Nathália, a partir de 1 ano de idade, a criança já pode participar do projeto: “A criança com 1 ano de idade já está na fase oral, então tudo ela experimenta com a boca. A partir disso, os pais já podem perceber cores, texturas e materialidades que ela prefere. Às vezes, os pais se preocupam muito com brinquedos, com o tipo certo de material para compartilhar com aquela criança, mas ela quer coisas simples. Então, se você colocar no chão um tapetinho bem bonitinho, separar alguns materiais com os quais ela não venha a se bater, se machucar, deixe-a experimentar a textura da madeira, do metal, do plástico”, explicou.

“Cada criança vai responder de um jeito ao projeto, mas o brincar é a linguagem da criança. Na primeira infância, de 0 a 6 anos, principalmente, há essa fase mais ativa do brincar. Conforme a criança vai crescendo, ela transita entre jogos e outras coisas mais intelectuais, mas que se voltam ao mundo da fantasia e, de novo, para esse lugar do brincar. As crianças participam muito mais facilmente e é mais fácil também ter essa correspondência do que os pais vão propor dentro desse projeto a partir dos 3 anos de idade. E o que minhas duas filhas mais gostam é de nós estarmos presentes, auxiliando neste desenvolvimento”, prosseguiu Nathália. 

O USO DE TELAS

Questionada pelos ouvintes do programa sobre o uso de telas por crianças e adolescentes, Nathália afirmou considerar razoável a quantidade de duas horas por dia. “A gente não pode alienar a criança do meio social que ela vive. Ela vai chegar à escola e outras crianças estarão compartilhando o que ouviram e viram nas telas. Por isso, no projeto, falamos sobre os desenhos que elas gostam, dos jogos que gostam”.

“A primeira preocupação, papais, mamães, é que vocês estejam atentos ao que o seu filho vê. É muito importante observar se a linguagem e o contexto do que está aparecendo nas telas têm coerência, se é saudável e quais valores estimula”, prosseguiu.

Uma boa estratégia, segundo ela, é identificar o que das telas interessa aos filhos e fazer experiências concretas a partir disso: “Qual é o jogo que o seu filho mais gosta? Qual é o artista que a sua filha mais acompanha? A partir disso, crie um circuito no quintal de casa ou um quiz com perguntas e respostas; encha um balão de água, junte os coleguinhas ali, monte os times, quem vai acertando vai ganhando ponto e vai jogando ali o balão de água. Dá para fazer isso com séries, com jogos favoritos, filmes favoritos de seus filhos, enfim, dá para explorar uma infinidade de coisas, trazendo para o mundo real”.

A ESCOLA E A FAMÍLIA LIMITAM OS SONHOS?

Nathália criticou o fato de que na maioria das escolas há apenas foco no desenvolvimento intelectual das crianças, não levando em consideração o conhecimento prévio que tenham. 

“Outro momento de ruptura para não deixar que as crianças sonhem se dá a partir do momento que não se divulga à criança o que é o conceito de criança. É preciso entender o universo infantil. E há muitos livros sobre isso, um que eu adoro se chama ‘As Cem Linguagens da Criança’, que ajuda a mergulhar neste universo. Quando a gente entende o conceito infantil, começa a desconstruir um pouquinho desse lugar do pai e da mãe, e assim se passa a ter mais perspicácia, mais consciência para educar a partir de quem aquela criança é”.

Outro limitador para os sonhos das crianças é a imposição que alguns pais fazem sobre as atividades que elas têm de realizar. 

“Muitas vezes, a relação pai-mãe e criança é de imposição, e isso não ocorre porque os pais são ruins. Pelo contrário, é um erro por amor. Todo pai, toda mãe, ama, quer o melhor para o seu filho, quer um futuro promissor para ele e, muitas vezes, existe aquele embate: por exemplo, o pai quer fazer o filho ir para uma aula de luta, mas o filho não quer lutar. O filho pode querer ballet, pode querer leveza. Então, pais, olhem as atividades por categorias e não por adequação de gênero, porque quando você olha para o gênero, você proíbe, seja por preconceito, seja por medo de ouvir piadinhas de familiares ou de amigos. Os pais devem sempre desejar o bem-estar dos filhos, mas não devem abrir mão de ouvi-los”, insistiu Nathália.

Por fim, a entrevistada lançou uma reflexão para todos os adultos: “Qual era o seu sonho quando você tinha entre 5 e 10 anos? E aí, você conseguiu realizar este sonho? Se conseguiu, o que este sonho ensinou para você? E os seus pais lhe apoiaram neste sonho?”. 

Para saber mais sobre o Projeto Fábrica dos Sonhos, acesse o Instagram @anatalyamelu, e após o aceite de Nathália será possível entender a proposta: “Neste canal, eu apresento as minhas filhas, Nina e Ariela, apresento meu esposo, e as pessoas vão poder, primeiro, conhecer quem nós somos, ver se se identificam com os nossos valores, com a nossa família e aí, depois, podemos conversar sobre como participar do Projeto Fábrica”. Segundo a idealizadora, futuramente será criada uma plataforma concentrando todas as aulas e vivências. 

OUÇA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DE 11 DE JUNHO