‘Revista da Semana’ ao som do reggae instrumental da banda Harmonia Ancestral

O som da escaleta – também conhecida como sanfona de sopro – dá lugar ao vocal em meio aos acordes do violão e à batida da bateria. Os músicos tocam uma, duas, três canções e na plateia sempre há quem se pergunte: “A que horas o vocalista vai aparecer?”.

E o vocalista não aparece. Ele nunca aparece. Faltou ao show? Não! No reggae instrumental é assim, os instrumentos dão o tom e envolvem quem os ouve, levando quase que a uma desconexão da rotina do dia a dia.

Há oito anos, a banda Harmonia Ancestral difunde o reggae instrumental em diferentes partes da Grande São Paulo. O primeiro show foi em um lava-rápido na cidade de Mauá (SP), sob olhares surpresos da plateia. “A galera tem a cultura de ir mais em shows com vocal, do que em show só de pessoas tocando. O reggae instrumental é como se fosse uma miniorquestra. Os instrumentos fazem o show. Na maioria das vezes, as pessoas que ainda não conhecem pensam que a gente está fazendo a introdução de um show e que algum vocal vai entrar. E com a nossa arte, a gente meio que está quebrando uma barreira”, afirmou João Paz, um dos integrantes da Harmonia Ancestral.

João, Júnior Ciziniauskas e Magno Santos falaram sobre a banda na edição de 13 de junho do programa ‘Revista da Semana’, apresentado por Beto Souza na rádio comunitária Cantareira FM. Também integram o Harmonia Ancestral o baterista Guilherme Farmerdrummer e o guitarrista Braulio Avante.

“No universo do reggae, o pessoal que vai ver shows meio que automaticamente já se pergunta, ‘cadê o vocalista?’ Mas o público de música instrumental dentro do reggae é diferenciado do público geral. Hoje, como temos divulgado bem nosso trabalho, a maioria do público já vai direcionado, sabendo o que vai acontecer”, comentou Magno.

CONQUISTAS E SUPERAÇÕES

Os primeiros shows do Harmonia Ancestral foram do projeto “Tributo Augustus Pablo”, em homenagem ao grande difusor da escaleta como instrumento musical. De uma das músicas do artista, chamada Ancient Harmonies, veio a inspiração para o nome da banda.

Tempos depois, o guitarrista Braulio Avante teve um projeto contemplado em uma política de fomento cultural, demarcando a virada de chave para a produção autoral.

“Tínhamos um mês para apresentar as músicas. Digamos que foi graças ao edital que surgiu o Harmonia Ancestral, pois tínhamos que fazer coisas autorais. Fizemos sete músicas e, desde então, nosso projeto é autoral”, detalhou Júnior.

“O fomento foi a chave de virada de instrumentais de cover para as nossas produções autorais”, enfatizou Magno. “A maioria dos contemplados com fomentos é artista independente. Desse modo, este recurso retorna à sociedade de forma produtiva. A gente acaba fazendo girar este dinheiro. E quando se investe na cultura, a pessoa certamente não fará muitas outras coisas que poderiam ser negativas para ela e para a sociedade”, complementou.

João lembrou que embora a Harmonia Ancestral não tenha se apresentado em muitos locais até hoje, em todos a banda foi bem recebida e convidada a voltar.

“O que a gente faz é meio que quebrar barreiras, embora ainda a gente não tenha muito mercado. Hoje, é mais fácil um cara chegar e pôr o show com voz e violão, do que eu chegar com meu instrumento. Não vão querer pagar para que eu fique só tocando. É sempre mais fácil um vocalista arrumar algum trampo do que um tecladista, por exemplo. Mas a gente mantém essa resistência para levar essa cultura para o público”, comentou João, destacando que são os integrantes da banda que fazem todo o trabalho de divulgação e financiam os clipes, disponíveis em plataformas como Spotify, Deezer, Apple Music e YouTube Music.

“Na Europa, já se tem essa cultura do instrumental, e eu sempre me pergunto: ‘Por que não aqui?’ E essa falta de acesso pra gente acaba influenciando em tudo, pois, por exemplo, hoje não se vê mais rodas de pessoas tocando violão, escaleta, tambores; a gente vê roda de pessoas com o celular na mão. Você não vê a molecada com acesso à cultura, com acesso aos instrumentos musicais”, lamentou João.

“Podemos dizer que ‘estamos com o facão na mão abrindo o mato’ para a música instrumental reggae aqui no Brasil”, enfatizou Magno. “Estamos começando a fazer a coisa acontecer. Mundialmente, algumas outras bandas já fazem este trabalho e têm uma carreira bem sólida, mas no Brasil estamos entre aqueles da linha de frente, e por mais complicado que possa ser, é a coisa que a gente gosta de fazer. Quando o público nos recebe, vê, sente e se permite conhecer, a coisa flui”, detalhou.

EM MEIO À NATUREZA E NOS ESTÚDIOS

Ao longo do programa, três videoclipes da banda foram apresentados, sendo o primeiro o da música Nayah Ancestral, gravado em meio à natureza e remetendo à paz e à conexão que o ser humano deve manter com o meio ambiente.

“No clipe, a gente consegue trazer essa conexão com essa coisa mais natural e mais calma. Quando você está em meio à natureza, o tempo passa diferente. Com essa música, a gente traz o ouvinte para este universo de paz”, comentou Magno, destacando que na natureza a pessoa pode ter uma ligação com ela mesma, em um ambiente com menos pressão, algo que vai na contramão da atual cultura de que é preciso ostentar sempre para mostrar que se está bem.

Outra música que rolou foi Escadaria. Júnior explicou que o nome da canção veio do que eles sentiram na composição deste instrumental, que remete à longa escada para se chegar até o estúdio do Magno, no alto de uma casa, onde há toda uma ambientação natural.

E a música de despedida foi Estratégia Dub, gravada em estúdio, mostrando a profunda harmonia dos instrumentos musicais. “A música surge como um presente divino. A gente só transfere para o povo aquilo que Jah colocou pra gente”, enfatizou João.

APOIO AO ARTISTA INDEPENDENTE

Na parte final da entrevista, João agradeceu o apoio da rádio comunitária Cantareira FM em entrevistar a banda e de inserir as canções no acervo de músicas instrumentais que irão tocar na programação.

Ele incentivou que outras bandas independentes se informem sobre os editais de fomento e persistam nas inscrições de projetos, apesar de todo o processo burocrático: “Não é fácil, mas se a gente conseguiu, todo mundo pode também”.

Conheça mais sobre a banda Harmonia Ancestral pelo Instagram: @harmoniaancestral

VEJA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DO PROGRAMA DE 13 DE JUNHO