‘As pessoas precisam entender que as religiões de matriz africana não são cultuadoras do demônio’

Resgatar a luta do povo de terreiro nas periferias da cidade de São Paulo, especialmente dos sacerdotes e sacerdotisas das religiões de matriz africana, e sublinhar a defesa da liberdade religiosa e da identidade afro-brasileira foi o propósito do Prêmio Odara 2026, entregue em 30 de julho, em cerimônia no Centro Cultural da Juventude (CCJ), na Vila Nova Cachoeirinha.

Dias antes, em 15 de julho, o programa “Comunidade em Foco”, da rádio comunitária Cantareira FM, entrevistou dois dos articuladores da premiação: o Babá Bruno Nascimento e a Iyá Keith conversaram com Juçara Terezinha e Jabes Campos.

Bruno é jornalista, historiador, pesquisador, professor, ativista e militante do movimento negro. Também atua no enfrentamento do racismo religioso. Sacerdote de religiões de matriz africana, ele também é apresentador do Odara Cast, que se dedica ao diálogo sobre a ancestralidade, cultura, religiosidade e questões sociais.

Keith é sacerdotisa do candomblé de tradição ketu e fundadora do Ilé Àṣẹ Omo Oju Ọba, na zona Norte. Ela atua na preservação dos fundamentos ancestrais e para o fortalecimento dos povos do terreiro, além de ser turismóloga e conselheira de saúde, ativista e defensora dos direitos humanos. Desenvolve ações do combate ao racismo religioso, de promoção da cidadania e de fortalecimento das comunidades tradicionais de matriz africana.

A verdadeira história e a luta contra a intolerância

Babá Bruno recordou que ao longo da escravidão e nos anos sequentes houve uma contação de história distorcida sobre as religiões de matriz africana, “consequentemente, houve uma demonização dessas religiões e isso acarreta no número elevado ainda hoje de racismo religioso. Quando falamos em branquitude, não é para excluir o branco das religiões de matriz africana, mas sim de excluir o pensamento branco, o pensamento da branquitude racista. Por isso, é necessário contar essa história como de fato ela é. Nós somos descendentes de reis e rainhas de África. Eu, enquanto historiador, tenho esta luta de resgatar a memória da nossa ancestralidade e mostrar, de fato, como é levada adiante essa cultura, essa religião. Quando a gente se omite ou se recusa a falar da nossa história, damos espaço a religiões protestantes interpretarem da forma que querem a nossa religião”.

Keith comentou que a filha dela já sofreu casos de intolerância religiosa. “Minha filha tem 13 anos, já foi espancada na escola por ser menina, filha de mulher preta e de terreiro. Foi espancada por professar a sua fé”, lamentou.

Na avaliação da sacerdotisa, para superar esta realidade o primeiro passo é lidar com as crianças, informando-as sobre a tolerância religiosa e ensinando-as a serem resistentes, que têm direito e que precisam debater sobre o assunto, sem que sofram qualquer tipo de constrangimento em relação ao culto.

“Também nas famílias é preciso que haja uma conversa muito aberta sobre isso. Eu posso não concordar com aquilo que você pratica, mas eu tenho o dever de respeitar a sua fé. As pessoas podem não concordar com a nossa prática religiosa, mas elas têm de nos respeitar. Temos uma luta diária para enfatizar o racismo que temos sofrido”, comentou Keith.

Lamentavelmente, naquele dia, na ida até a rádio ela passou por mais um episódio constrangedor: “Hoje mesmo, para chegar aqui, tive quatro chamadas de Uber canceladas. O que me trouxe aqui é um rapaz que era do culto de matriz africana”, recordou, destacando que além de racismo religioso o episódio representou um racismo ambiental, pois as pessoas não quiseram trazê-la até a Brasilândia ao vê-la trajada com as vestes da religião que professa.  

“O povo de terreiro está muito concentrado em locais periféricos. Então, o racismo ambiental também precisa ser discutido, pois também na periferia falta saneamento básico, cultura, educação de qualidade, coleta de lixo, segurança pública. Portanto, o racismo ambiental afeta o povo de terreiro. Temos então três polos de discussão: o racismo, o racismo religioso e o racismo ambiental”, enfatizou Keith.

Diante do relato, Jabes se indignou: “É um absurdo! A Uber não pode admitir isso e deve orientar os seus motoristas para que não cultivem este ódio, este racismo!”

“Por vivermos em um país laico, deve-se respeitar a religiosidade alheia”, enfatizou Keith. “Todos nós temos, por força da Constituição, o direito de professar a nossa fé, seja ela qual for, mas para isso é preciso haver respeito com o ser humano, com a religiosidade do outro. Não dá para ficarmos em uma guerra. O povo de terreiro não gosta de guerra, não gosta de briga. Nós só queremos a paz. Só queremos professar a nossa fé: termos as nossas casas, os nossos templos sossegados, sem nenhum tipo de apedrejamento, de invasão, ou qualquer tipo de constrangimento”.

Símbolos da religiosidade

Com o propósito de difundir um maior entendimento sobre as religiões de matriz africana, a fim de que se reduzam os episódios de intolerância, Juçara Terezinha pediu que os entrevistados detalhassem as insígnias da fé que professam.

Babá Bruno falou sobre o eketê, gorro africano destinado a sacerdotes; a roupa branca, feita de um tecido específico africano; e os ilekes, diferentes elementos sagrados da religiosidade que são carregados apoiados no pescoço.

“O candomblé é uma religião brasileira, que nasceu dos povos escravizados, e que com base naquilo que tinham e encontravam, continuaram propagando sua fé. Muita coisa teve de ser adaptada para que o culto pudesse continuar. E uma destas coisas é o próprio sincretismo. Durante a escravidão, foi adotado o sincretismo para adorar os orixás: Ogum, por exemplo, foi incorporado na imagem São Jorge”, detalhou Bruno. “O culto Yorubá tradicional continua a ser praticado em África. Eu faço parte do candomblé e também do culto tradicional Yorubá”, comentou.

Já sobre as vestimentas das mulheres, Keith explicou que elas costumam cobria a cabeça com panos, por considerá-la uma parte primordial do corpo: “Nós usamos panos de cabeça bem elaborados, bem gomados, bem passados, pois isso nos destaca e valoriza a beleza da mulher de terreiro”.

A sacerdotisa detalhou, ainda, que cada fio que uma mulher carrega sobre o pescoço indica qual a idade que ela tem dentro do culto e essa diferenciação etária é demarcada pelas roupas. Também usam o ojá, “o pano da costa, nós cobrimos o nosso útero dentro da ancestralidade”.

Após as explicações, Jabes Campos recordou que a população africana que veio ao Brasil foi usada como mercadoria e depois obteve uma suposta liberdade, mas sem terra ou outras condições de subsistência econômica. “Deixaram os povos sem nada e essa continuação é uma tentativa de apagamento de uma história, apagamento de um povo e isso foi enraizando em diversas religiões que não têm o verdadeiro conhecimento sobre essa religiosidade”, lamentou. Ele observou, porém, que quando se começa a explicar às pessoas toda a história, simbologia e resistência da religião, passa a haver mais entendimento e respeito.

Cuidados com a saúde

Como conselheira de saúde no Parque Peruche, na zona Norte da cidade, Keith afirmou que tem buscado fazer um trabalho atento às demandas do povo preto e dos terreiros: “Nós entendemos que o povo negro precisa de um pouco mais de atenção na saúde por ter doenças específicas, como, por exemplo, a anemia falciforme. O povo de terreiro tem de entender que o cuidado com a saúde deve estar aliado com a questão espiritual. A pessoa diante de uma enfermidade precisa de acompanhamento médico e eu tenho o dever de conscientizá-la sobre as campanhas dentro da área da saúde e dos direitos que têm”.

Keith lembrou, ainda, que o povo de terreiro precisa cuidar da saúde mental, participar de bate-papos a respeito. Ela alertou, por exemplo, para o aumento de casos de depressão, uma doença silenciosa, e que precisa do devido tratamento e de um acompanhamento para que a pessoa se abra para falar do problema.

“Nós como sacerdotes, sacerdotisas, também podemos ter depressão, crise de ansiedade e problemas mentais”, alertou Keith. “Não podemos falar que somente indo ao terreiro a pessoa vai curar uma depressão. Ela também precisa de acompanhamento médico, precisará de uma medicação específica”, insistiu.

Propósitos do Prêmio Odara 2026

E foi justamente para dar visibilidade aos sacerdotes e sacerdotisas das religiões de matriz africana nas periferias que o Prêmio Odara foi pensado em 2026.

“Em todas as outras edições, a premiação foi direcionada para o centro da cidade, mas desta vez resolvemos trazer para a periferia, pois o povo da periferia também precisa deste entendimento. Isto se chama consciência de classe e de raça, pois é na periferia que está a maior parte da população negra”, observou Babá Bruno.

“Eu costumo dizer que o candomblé é para todos, mas nem todos nasceram para o candomblé. Há pessoas que vem até nossas casas e fazem o que eu chamo de ‘turismo religioso’ – já que hoje está na moda ser de candomblé – mas essas pessoas não estão dispostas a seguir todos os dogmas do candomblé. E daí, saem fechando a porta com tudo ou apedrejando aquilo que as acolheu um dia”, lamentou.

Babá Bruno lembrou que o Prêmio Odara busca resgatar a luta do povo de terreiro, ressaltando este resgate na periferia, o que envolve olhar para os muitos sacerdotes e sacerdotisas que estão cansados em não ser reconhecidos pelo que fazem em prol das pessoas, e que têm demandas como as outras estudam, trabalham e sustentam sua família. “A ideia do Prêmio este ano foi reconhecer a trajetória destes sacerdotes e sacerdotisas, dando destaque não para quem já está nos holofotes, mas para aqueles que estão em suas comunidades e que fazem um trabalho social incrível”, disse, mencionando os casos de terreiros que tem cozinhas solidárias, por exemplo, levando alimentação digna a outras pessoas.

“O Prêmio Odara 2026 vem para ser resistência. E a intenção de fazê-lo aqui na periferia foi estratégica, pois é aqui que acontece o trabalho de base. É aqui que as pessoas precisam entender que as religiões de matriz africana não são cultuadoras do demônio, até porque nós nem conhecemos ele”, comentou Babá Bruno.

Ao todo, mais de 80 pessoas foram selecionadas para a fase final do Prêmio Odara 2026, após inscrições amplamente divulgadas. Eles tiveram seus currículos de trabalho social analisados e se considerou também o fato de o terreiro estar localizado em uma área periférica.

No evento de premiação, em 30 de julho, houve falas de sacerdotes e sacerdotisas memórias do movimento negro e sobre a importância das religiões de matriz africana e ênfase para o combate ao racismo religioso. Também aconteceram apresentações musicais com atabaques e outras performances artísticas e uma roda de festa no encerramento.

“Trazer o Prêmio Odara para o CCJ é para mostrar que estamos vivos, resistimos e estamos para incomodar. Todo mundo tem de entender que nós somos de terreiro e que nossa fé tem de ser respeitada”, concluiu Babá Bruno.

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