Associação Cantareira inicia o projeto Vozes da Brasilândia

O acesso à memória e a preservação do patrimônio cultural imaterial são alguns dos temas norteadores do Projeto Vozes da Brasilândia, desenvolvido pela Associação Cantareira, com o apoio do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania do Governo Federal, com vistas a fortalecer uma rede de guardiãs da memória no território, especialmente mulheres negras.

Os encontros serão na sede da Associação Cantareira, localizada na Rua Jorge Pires Ramalho, 71, na Vila Isabel, aos sábados, das 15h às 18h, quinzenalmente.

Em suas três décadas de história, a instituição elaborou e participou diversos projetos nas áreas de educação popular e ambiental, comunicação, cultura e direitos humanos. Entre os projetos estão a Rádio Comunitária Cantareira FM, que completou 30 anos em 2025, e o Projeto de Educação Popular de Alfabetização de Jovens e Adultos (MOVA-SP), do qual participam cerca de 250 educandos por ano, com 80% das educandas negras.

A partir dessa trajetória da Associação Cantareira no território, o Projeto Vozes da Brasilândia surge com o propósito de trabalhar com mulheres que são lideranças comunitárias e/ou integrantes de coletivos pela Brasilândia, oferecendo conteúdo formativo para capacitá-las como Guardiãs Multiplicadoras da memória e, assim, formar uma rede que resguarde essa rica e importante história e a dissemine às novas gerações.

A HISTÓRIA CONTADA POR QUEM A CONSTRUIU

Para Juçara Terezinha Zottis, gestora de projetos da Associação Cantareira, a iniciativa garante que a história da Brasilândia seja contada por quem a construiu com as próprias mãos, e não só por quem a olha de fora.

Trata-se de uma ação coletiva na qual se afirma que a periferia é centro de produção de conhecimento; e, ao mesmo tempo, representa a interseção entre a preservação histórica e o empoderamento feminino em um território marcado por vulnerabilidades, mas também por uma potência criativa e comunitária gigantesca.

“O projeto inverte essa lógica ao colocar as mulheres – muitas vezes as lideranças informais dos bairros – como protagonistas e narradoras de suas próprias histórias. Ele evita o ‘apagamento cultural’ ao registrar memórias de ocupações, lutas por asfalto, água e creches. Também valida a existência e a resistência da população negra e periférica. É um ato político”, ressalta Juçara Terezinha.

“Disputar a narrativa sobre o que é a Brasilândia é uma forma de combater o estigma e mostrar a riqueza intelectual e artística da periferia. Isso gera um sentimento de pertencimento. Quando o morador conhece a história da sua rua e das pessoas que a construíram, ele passa a cuidar mais do espaço público e a reivindicar melhorias com mais propriedade”, avalia a gestora de projetos da Associação Cantareira.

DINÂMICA DAS ATIVIDADES

Ao todo, 20 mulheres foram selecionadas para participar do projeto, considerando entre os pré-requisitos seu histórico de atuação em diversas entidades pelo território. Desse modo, buscou-se assegurar que as selecionadas têm conhecimento sobre o cotidiano da Brasilândia e as necessidades do território.

Serão oito encontros temáticos, o primeiro previsto para o sábado, 23 de maio. Por meio deles, o principal objetivo é fortalecer a memória local e a preservação do patrimônio cultural imaterial, partindo das vivências e olhares dessas lideranças, que passarão por formação e, posteriormente, multiplicarão esses conhecimentos em seus bairros e grupos.

Conforme descreve o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, entende-se por patrimônio cultural imaterial as “práticas e domínios da vida social que se manifestam em saberes, ofícios e modos de fazer; celebrações; formas de expressão cênicas, plásticas, musicais ou lúdicas; e nos lugares (como mercados, feiras e santuários que abrigam práticas culturais coletivas)”.

Cada oficina do Projeto Vozes da Brasilândia trabalhará um tema específico, desenvolvido pela equipe pedagógica e conduzido por um especialista da área.

TEMAS DAS OFICINAS

Valorização da memória na construção de redes de apoio – destaque para a importância do patrimônio cultural e imaterial como ferramenta de fortalecimento de redes de apoio no território.

Inventários participativos por meio de fichas de categoria – apresentação do processo de preenchimento das fichas de observação durante o trabalho de campo, com base em conversas e observações pelo território.

Patrimônio cultural dos povos originários e povos tradicionais da região Brasilândia – relembrará a chegada dos povos originários na região e como identificar sua presença atualmente.

Patrimônio das memórias negras da periferia – reconhecimento da Brasilândia como território histórico de memórias negras e afrodescendentes.

Patrimônio cultural e cidadania: combate às violências de gênero, raça e idade – reflexão sobre as formas de silenciamento enfrentadas pelos moradores da Brasilândia, em especial pelas mulheres negras.

Inventários participativos através de objetos: preservação de acervo – aprendizado sobre conservação e preservação de objetos que podem formar acervos comunitários.

Histórias da Brasilândia: o patrimônio cultural e as lutas por melhorias nos territórios periféricos – valorização das mulheres e importância do patrimônio local.

Inventários participativos por meio de fichas de entrevistas – orientações sobre como realizar entrevistas e a sua importância no processo de preservação da memória no território.