No ‘Revista da Semana’, Joice Teixeira dialoga sobre ações para a valorização da cultura negra
O ano era 1984 e o fato se deu em uma escola pública de São Paulo: “Aos 10 anos de idade, tentaram me enforcar na escola, dizendo que negro tinha de morrer. Fiquei duas semanas sem ir para a escola, mas quando voltei era outra pessoa. Depois daquele dia que ‘eu morri’, voltei como uma Fênix, com outra postura. O garoto que me agrediu foi expulso da escola. Hoje, entendo que ele também era uma vítima do sistema. E aqui temos a grande questão: o racismo está cristalizado dentro do nosso sistema”.
Com voz forte, porém serena, Joice Teixeira recordou ao comunicador Beto Souza, na edição de 16 de maio do programa ‘Revista da Semana’, da rádio comunitária Cantareira FM, este episódio de racismo que poderia tê-la intimidado, mas que serviu de combustível para os ‘bulimentos’ de lutar pela dignidade do povo preto.
“Aos 12 anos, escrevi um texto sobre os meus ‘bulimentos’ a respeito do Brasil, a respeito do que é ser um corpo negro neste território e propus à professora de arte e língua portuguesa lá da escola pública se eu poderia apresentar o texto. Os olhos dos professores brilharam!”.
Dias depois, enquanto os estudantes chegavam para mais um dia de aula, Joice estava no pátio lendo seu texto ao som de um piano, tocado por outra colega de classe: “Todo mundo que estava entrando na escola parou pra assistir. E quando eu vi toda a galera da escola ali parada, ouvindo o que eu estava falando, pensei: ‘Isso aqui é poder! Eu quero fazer isso pelo resto da minha vida’. E nunca mais parei de fazer as artes da cena, como eu chamo”.

UMA TRAJETÓRIA DE ESTUDOS E CRIAÇÕES
Joice Teixeira nasceu na Vila Prudente, na zona Leste de São Paulo. Depois, sua família foi viver em Heliópolis, na periferia da zona Sul. Apenas após ter se casado, ela mudou-se para o bairro do Bixiga.
Desde a adolescência, participou de cursos e oficinas sobre teatro. Após uma formação em magistério, ingressou na faculdade de artes cênicas aos 20 anos de idade. Também é pós-graduada na área.
Em 2019, Joice criou o N’Kinpa – Núcleo de Culturas Negras e Periféricas e no mesmo ano também deu início ao podcast Diáspora, que já acumula mais de 150 programas produzidos.
“Eu estava como educadora em uma ação que tinha parceria das secretarias municipais de cultura e de educação, atendendo crianças de 6 a 13 anos. Eu queria muito divulgar um evento que iriamos fazer no Beco dos Aflitos, e comecei a procurar rádios para divulgá-lo e foi ai que surgiu o convite do Emerson Ramos, um homem negro, que na época era locutor na rádio Brasil Atual, para eu fazer um podcast, e assim começou o Diáspora – a cor da nossa cultura, encontros e redes”, recordou.
Durante a entrevista na rádio Cantareira, Joice rememorou a história do Beco dos Aflitos, no bairro da Liberdade: “No Beco dos Aflitos se localiza a Capela dos Aflitos. Com a gentrificação do bairro, uma empresa queria comprar este espaço, mas quando começou a fazer escavações, mas acharam as ossadas de 300 corpos negros, pois ali existia um cemitério. O movimento negro, então, começou a travar uma luta para ter a posse do espaço como patrimônio histórico, no fim conseguimos e agora está se vivendo esta transformação para ser um espaço cultural e histórico do povo negro”.

DIÁSPORA: O LADO DA HISTÓRIA INVISIBILIZADO
Segundo Joice, ao pensar no podcast Diáspora, a proposta foi de criar algo para “contar nossas histórias a partir da perspectiva negra, inclusive com informações históricas, pois o nosso principal objetivo era a efetiva implementação das leis federais 10.639/03 [da obrigação do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas públicas e privadas da educação básica] e 11.645/08 [que torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas nas escolas públicas e particulares do ensino fundamental e médio]”.
“Essa luta continua até hoje, pois nas escolas não se aplica nem 1/3 destas leis e agora estamos sofrendo um ataque, pois há um projeto de lei no Congresso com vistas a se tirar ou se flexibilizar estas duas leis nos dão muito respaldo para trabalharmos, por exemplo, as culturas da afro-diáspora nas escolas, pois como vivemos uma racismo estrutural muito forte, tudo que se leva para dentro da escola com a agência negra, africana, preta e originária vira, pejorativamente, ‘macumba’. E a lei nos respalda muito para dizermos, ‘não, nós estamos aqui aplicando as leis e ensinando cultura’”, enfatizou.
“O que a sociedade precisa entender que se é permitido falar de Homem-Aranha, de Thor, de Zeus, de cinderelas, por que não se pode falar também das cosmovisões – que é o modo de ver e ser no mundo – de outros povos que não sejam somente os dos europeus modo-centrado-cristãos? E a resposta é: não podemos falar porque há racismo, por vivemos em um país extremamente racista, em que se pratica aquele racismo antinegro, ou seja, tudo que lembra a origem negra precisa ser exterminado”, lamentou.

“Quando uma pessoa negra se denomina como pessoa preta, ela está trazendo a ontologia de sua origem africana, e isso é político também. Mas tudo que é nosso é cooptado de uma maneira que reverbera contra a gente. Tivemos, por exemplo, que criar uma ressignificação para a palavra negro, que estava em um lugar que não era bacana. Com todos os movimentos, a gente se reafirma hoje neste lugar, tanto do negro quanto do preto. E temos de ter atenção: esta mesma palavra que nos trás a negritude, que é atitude do movimento negro de ser negro, é cooptada pela branquitude, para nos colocar em um lugar de subalternidade”.
“Quando a gente criou o Diáspora, a ideia é que fosse também um material pedagógico que pudesse auxiliar o educador e a educadora na sala de aula, trazendo pílulas de conteúdo para despertar a curiosidade, para a pessoa ir buscar mais informações e ampliar conhecimentos. Criamos estes programas com a ideia de serem materiais de apoio na sala de aula. No período da pandemia, muitas escolas entraram em contato com a gente para dizer que estavam enviando os programas para os alunos estudarem”.
Considerando todo este contexto, “diáspora”, que significa sair de um lugar e chegar a outro, no caso do povo preto, que veio ao Brasil vítima de uma lógica escravagista, até melhor seria ser chamado pelo termo ‘maafa’.
“O termo maafa condiz muito mais com a nossa história do que a palavra diáspora, pois não se trata de um povo que saiu por livre e espontânea vontade de seu território para chegar a outro lugar. Nós fomos arrancados da nossa terra e trazidos para cá. Então, maafa, que é um termo cunhado pela Marimba Ani [uma intelectual afro-americana], significa, para falarmos de uma forma didática aqui, o ‘holocausto negro’, o descarrilhamento, pois o movimento vinha em uma direção, mas fomos sequestrados e trazidos pra cá”, detalhou.

RACISMO: TANTO SÚTIL QUANTO HOSTIL
Joice Teixeira lembrou ainda que no fim do século XIX e início do século XX, as autoridades do país buscaram miscigenar a população brasileira, especialmente com o incentivo para a vinda de imigrantes europeus.
“Neste projeto de nação, não cabia trazer uma memória escravocrata, por isso se tentava o apagamento, a invisibilidade do povo negro. E neste lugar de projeto de nação, se quer passar a ideia de que todo mundo se relaciona bem, e as coisas que eram da agência negra, como a capoeira, tornaram-se cultura popular. Mas a quem interessa chamá-las de cultura popular? De cultura brasileira?”, indagou.
Ao longo dos mais de 150 episódios do podcast Diáspora são abordados estes e outros temas relacionados à vida e às condições dos negros no país. Joice disse que entre os programas que mais gostou de produzir estão as histórias sobre os terreiros de candomblé, também aqueles que falam sobre aspectos da cultura afro-brasileira como o carimbó e o jongo; além dos programas feitos durante a pandemia, quando a população preta e periférica não foi tratada em igualdade de condições aos demais brasileiros.
“Em Heliópolis, por exemplo, não chegou tablet para as crianças na escola. Eu via famílias com um celular para fazer atividades de escola para cinco crianças. Foi um momento histórico muito pesado para o povo negro e periférico. Também queríamos entender como ia ser a nossa movimentação a partir daquilo, pois não estava tendo quarentena pra gente. O povo preto não teve quarentena não. Como íamos lidar com vulnerabilidade alimentar? Então, foram programas necessários e, também, marcos históricos daquele momento”, detalhou.
Joice Teixeira destacou, ainda, que uma das grandes lutas do povo preto do Brasil na atualidade é reafirmar seus espaços nos ambientes da intelectualidade.
“O racismo tira da gente o lugar da intelectualidade. Querem deixar pra gente apenas o lugar do corpo, como para fazer arte e jogar futebol. Mas nós somos pessoas intelectuais. Aliás, para fazer um drible precisa de muita intelectualidade, para fazer aquele ‘passinho foda’ de dança, precisa de intelectualidade, pra fazer o verso do hip-hop também. Nós somos, sim, fazedores de ciência, de saberes”.
Na conclusão da entrevista, Joice estimulou que as pessoas pretas se abram ao diálogo, ainda que tenham diferentes pontos de vista e espiritualidades: “O pensamento euro-central-cristão nos separa muito e não estamos conseguindo nos juntar. Muitas vezes, nossos irmãos pentecostais não conversam com os outros irmãos que são do candomblé e de outras matrizes espirituais, mas temos de conversar sobre tudo”.
O podcast Diáspora vai ao ar na rádio comunitária Cantareira FM toda segunda-feira, às 15h, com reprise às quartas-feiras às 23h. Todos os episódios estão disponíveis no site do N’Kinpa: https://www.nkinpa.com.
ASSISTA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DE 16 DE MAIO
