Oficinas sobre ‘Povos originários’ e ‘Histórias da Brasilândia’ encerram o ciclo formativo das Guardiãs da Memória

Com temáticas sobre os povos originários e histórias da Brasilândia, foram realizadas nos dias 8 e 22 de agosto, na sede da Associação Cantareira, na Vila Isabel, no distrito da Brasilândia, as duas últimas oficinas do Projeto Vozes da Brasilândia.

Desenvolvido pela Associação Cantareira, com o apoio do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania do Governo Federal, o Vozes da Brasilândia busca fortalecer uma rede de guardiãs da memória no território, especialmente mulheres negras. Ao todo, foram 20 participantes, selecionadas considerando, entre os pré-requisitos, seu histórico de atuação em diversas entidades do território.

Povos originários: contribuições, saberes e resistência

A sétima oficina abordou a ancestralidade, a cultura, os conhecimentos dos povos indígenas e a sua contribuição à sociedade como um todo.

Ao longo do encontro, a ancestralidade foi apresentada como elo central no entendimento das identidades pessoais e da comunidade.

Conduzida pelos palestrantes convidados, professores Dra. Silvana de Jesus e Ms. Antônio Salvador Coelho, a oficina trouxe elementos da cultura Guarani, destacando sua relação com a natureza, a espiritualidade, o canto e a palavra.

Professores Silvania e Antônio Salvador (Fotos da Oficina 7: Fernando Senna)

Por meio de cantos e com a utilização do Maracá, uma espécie de chocalho indígena, usado nas cerimônias religiosas e guerreiras, as participantes foram convidadas a reconhecer aqueles que vieram antes delas e refletir sobre a importância de preservar e transmitir essas histórias às próximas gerações.

A trajetória histórica dos Guaranis e sua presença no território paulista, especialmente na região do Jaraguá, bem como os processos de migração, expulsão, perda do território e as dificuldades enfrentadas pelas comunidades indígenas diante do crescimento das cidades e da especulação imobiliária também foram lembrados.

Diante da redução dos territórios, os povos indígenas precisam encontrar formas de preservar a sua cultura, seus modos de vida e seus conhecimentos, resistindo e fortalecendo as conexões entre as diferentes comunidades. Outra perspectiva mencionada foi a necessidade de ampliar o olhar sobre a história indígena, reconhecendo os povos originários como produtores de conhecimento, em áreas como antropologia, arqueologia, educação e pesquisa.

A relação deles com a terra e a floresta também foi citada, com destaque para os conhecimentos acumulados ao longo dos anos sobre o manejo da natureza, as sementes, os alimentos e a transformação das paisagens, contrapondo esse conhecimento a uma visão que desconsidera a contribuição indígena na construção histórica dos territórios.

O professor Antônio Salvador Coelho contou que conviveu de perto com o povo Guarani e compartilhou as suas percepções ao longo do encontro, ressaltando o papel do coletivo, um costume tão enraizado na cultura indígena.

“As comunidades humanas já são guardiãs da memória e fazer isso coletivamente é um ensinamento do povo Guarani, porque eles fizeram isso comunitariamente. O fato de ter um grupo aqui refletindo sobre sua missão de ser guardiãs da memória é fundamental no território”, avaliou.

Uma das participantes do encontro, Nicilene Brandão, da tribo Koiupanká, habitante do município de Inhapi, no estado de Alagoas, comentou a importância de que se difunda cada vez mais o saber de que “o Brasil ainda tem muitas tribos, que lutam pela melhoria dos direitos dos povos originários”.

Os registros de quem ajudou a construir as memórias da Brasilândia

Sonia Bischain fala a participantes da oficina 8 (fotos: Guilherme Barbosa)

A oitava e última oficina do ciclo formativo contou com a presença da palestrante Sonia Bischain (@soniareginabischain), escritora, designer e fotógrafa. Ela, que conduziu o tema “Histórias da Brasilândia: as lutas por melhorias nos territórios periféricos”, há anos se dedica ao registro de histórias na região, especialmente àquelas relacionadas às lutas sociais e à organização comunitária.

Sonia mostrou às guardiãs registros e lembranças de sua família e da própria Brasilândia, por meio de fotografias e trechos de documentários com depoimentos de moradores que ajudaram a reconstruir a história do bairro. Segundo ela, esse processo se assemelha à montagem de um mosaico, em que cada relato representa uma parte da história coletiva.

A partir de imagens, foram recordados momentos da formação da Brasilândia, distrito atualmente com cerca de 300 mil habitantes, como as dificuldades enfrentadas pela população ao longo dos anos com a falta de infraestrutura e de serviços como água, luz, asfalto, escolas, transportes, situações que mobilizaram os moradores em movimentos comunitários na busca por melhorias.

E as mulheres tiveram papel importante neste processo de organização. A ausência de creches, por exemplo, levou moradores a se mobilizarem para a criação desses equipamentos, e a própria comunidade passou a cuidar dos pequenos em espaços cedidos por igrejas. Aliás, as Comunidades Eclesiais de Base (Cebs) serviram como pontos de encontro para articulações sociais, culturais e políticas.

Ao longo da oficina, foi destacado que a história de um território não é construída apenas nos documentos oficiais: ela está presente nas lembranças, fotografias, histórias familiares e experiências vividas de seus moradores. Sonia lembrou que seu pai chegou à Brasilândia em 1949, e se tornou parte dessa memória ao participar da vida esportiva e comunitária do bairro.

A escritora disse que começou a escrever na juventude, mas só publicou seu primeiro livro aos 52 anos. Esse é um dos desafios enfrentados por escritores e escritoras da periferia para publicar suas obras. Segundo ela, o custo da publicação e as barreiras no mercado editorial dificultam o acesso de moradores da periferia à produção e circulação de livros.

Entretanto, mesmo em meio a esse cenário desafiador, surgiram oportunidades com os saraus e coletivos culturais, que ganharam destaque como espaços de fortalecimento da literatura produzida nas periferias. Dessa forma, escritores e escritoras periféricos podem apresentar seus trabalhos e fazer essas obras circularem.

Agentes da memória

Como atividade prática, a palestrante propôs ao grupo um exercício em que cada liderança teve a oportunidade de escrever palavras e frases relacionadas à Brasilândia, bem como criar histórias a partir de fotografias.

“Uma coisa importante é saber que cada uma é capaz de escrever, cada uma tem memórias do território, acreditar em si. Ensinaram-nos a não acreditar em nós, a dizer que a gente não tem valor, que a gente não sabe escrever, que não tem curso superior, mas não: todo mundo tem uma história e pode contar essa história e era essa confiança que eu gostaria de dar a elas, para escreverem com tranquilidade. Acreditando no que estão fazendo, prestando atenção, ouvindo a história do outro”, disse Sonia Bischain.

Maria de Fatima Santana Silva, uma das participantes do projeto, falou da experiência em fazer parte do Vozes da Brasilândia.

“Achei maravilhoso, porque mesmo antes do projeto, me incomodava a forma como a Brasilândia era retratada, apenas mostrando a questão da violência. As pessoas não olham o valor que o território tem. A própria comunidade se desgasta com isso. Costumo dizer que as pessoas que não valorizam a própria casa não são dignas dela. Essa oficina trouxe muitas coisas que a gente não conhecia”.

Preservar esse conjunto de narrativas para o futuro, incentivar os moradores a reconhecerem suas próprias experiências como parte de uma história maior e que cada memória contribui para completar a rica diversidade da Brasilândia, território com muita cultura e organização da população por direitos e melhorias: estas foram certamente as grandes contribuições destas oficinas.

Guardiãs da Memória, articuladores do projeto e participantes do Curso Latino-Americano de Formação Pastoral

E para deixar este encerramento ainda mais especial, além das Guardiãs da Memória, um grupo de participantes do Curso Latino-Americano de Formação Pastoral que estava em visita à sede da Associação Cantareira pode ver tudo isso de perto e também falar das memórias das localidades em que vivem.

A próxima etapa do Projeto Vozes da Brasilândia contemplará os Encontros de Memória pelo território.

Produção textual: Elisângela Silva/ Edição: Daniel Araújo