‘Sintonia Cultural’ entrevista o músico e compositor Carlos Mahlungo
Com seu caderno de poesias e seu violão, Carlos Mahlungo ‘gastou prosa’ e talento musical na edição de 22 de agosto do programa ‘Sintonia Cultural’, apresentado por Anilson Brito e Adão Alves na rádio Cantareira FM.
Mineiro, Carlos Mahlungo chegou em São Paulo em 1973, ainda indeciso sobre os rumos que seguiria. Não demorou muito a se decidir pela música, sempre fazendo referência ao seu contemplar pelas belezas naturais de Minas Gerais.
Ao longo do programa, Mahlungo declamou alguns de seus poemas, um deles chamado de “Tempos de Incerteza”, que escreveu inspirado no que vivenciou trabalhando como arte-educador na década de 1990 na Febem, atual Fundação Casa.
“Meninos de hoje, qual flor nas janelas, que se abrem sem perfume, nem graça, nem cor. Nem falam de amor. Meninos de agora, mal chegam e vão embora. Meninos de hoje, que sonham acordados, que passam calados sem terem o que dizer”, lê-se em algum dos versos.
Mahlungo recordou que quando começou a dialogar com os meninos internados na Febem sempre os questionava do porquê faziam canções de hip-hop e não poesias: “Um dia, um garoto de 12 anos me respondeu que o hip-hop falava da vida deles e que se ele não falasse de sua própria realidade ninguém falaria por ele. Foi aí que eu percebi que eles também tinham muita vida. Com 11, 12 anos de idade, uma criança de periferia já viveu muito, sabe de muita coisa, passou por muita dificuldade”.
O entrevistado também recordou como viu o crescimento da região metropolitana de São Paulo, por vezes com a opressão do poder público, como ocorreu no caso da formação da Favela de Heliópolis, na zona Sul. Mahlungo lembrou que a época, muitos dos trabalhadores das fábricas do ABC desejavam morar perto do local de trabalho, mas a prefeitura de São Caetano do Sul os impedia de entrar com os carros de mudança naquela cidade e as famílias acabavam se instalando no local mais próximo, o Heliópolis. “Por isso que São Caetano do Sul não tem favela. Quem não conhece esta história, acha tudo isso uma maravilha”.

CONTEMPLAÇÃO DA NATUREZA E CRITICIDADE
No vasto repertório de Carlos Mahlungo, há o olhar de quem contempla admirado a natureza, como na canção “Borboletar”.
“Aquarela camufla entre flores, néctar, embriagar-se do perfume, pólen. Alçar longos voos, liberdade. Transitar entre montanhas, liberdade […] Borboletar, borboletar, eu vou voar”.
Ele contou que a letra desta canção estava no livro de um amigo e ele começou a dedilhar a possível melodia no violão, e conseguiu fazê-la com apenas quatro acordes.
“Como foi feito assim, me explicaram que nesta música caberiam mais coisas, haveria espaço para o teclado. Quando fomos gravar em um evento em Diadema, inseriram um acordeon e uma base de guitarra, e assim a harmonia foi enriquecida”, explicou o artista.
Em “Conto da chuva”, Mahlungo fala sobre o dia que a morte chegar – “Que meu corpo seja digno da terra que vai me acolher um dia, que seja breve e tranquilo este um dia”.
Refletindo sobre a canção, ele opinou que é errado que as pessoas desejem mal umas às outras, pois é mais inteligente não se conviver com quem não se suporta ou buscar o diálogo a partir do que não sejam aspectos polêmicos.
“As pessoas não precisam concordar em todo, como em política, mas podem se entender em outros assuntos como em música. As pessoas podem variar a conversa, e ir diminuindo a antipatia por causa de um tema específico”, recomendou.
Mahlungo disse, ainda, que o verdadeiro diálogo envolve que as pessoas reajam àquilo que o outro falar: “Você concorda comigo? Você discorda de mim?”, afirmou, dizendo que muitas vezes se incomoda em dialogar com quem sempre tem argumento pra tudo para discordar do outro.

Ela também tocou e cantou a música “Decadência”, que assim como muitas outras de sua autoria começa com assovios e se mantém com poucos acordes:
“A rosa azul, o lírio branco, o amor pouco, a solidão tanta. A comida nada, a fome desgraçada. O sorriso instante, a tristeza bastante […] Eu te falei de tudo, só não falei de mim, falo da casa velha, do quintal, do jardim […] só não te falei do meu amor”.
Do seu violão, Carlos Mahlungo também dedilha sucessos de grandes nomes da MPB, como Djavan, Milton Nascimento e Tom Jobim, entre outros que o inspiraram no começo da carreira, seja para compor, seja para fazer melodias a letras de música com as quais tinha contato.
Ao final, o experiente cantor e compositor deu uma dica a quem pensa fazer da música a razão de viver: “O tempo que o violão puder ficar com você, fique grudado nele’.
ASSISTA A ÍNTEGRA DO SINTONIA CULTURAL DE 22 DE AGOSTO
