No ‘Amizade Aberta’, especialista alerta para os sinais do esgotamento do corpo feminino

Por muitos anos, Elaine Keite foi professora de dança do ventre e tinha uma vida agitada, hiperconectada a muitas realidades e sempre com a agenda cheia. O diagnóstico de câncer de sua mãe acrescentou ainda mais atribuições à rotina.

“Nós tínhamos uma relação muito boa, de amizade, uma verdadeira relação de mãe e filha. Após a partida dela, o processo de luto me colocou em um mergulho profundo de investigação sobre mim mesma”, recordou Elaine.

“Fui olhar para as minhas sombras e me dei conta do esgotamento em que estava, não só pelo processo que eu tinha tido cuidando da minha mãe. Eu estava com esgotamento de alma, a ponto de perceber que tinha chegado em um nível que eu não tinha sonhos, não tinha objetivos, eu estava no mesmo lugar: levantava-se cedo, ia trabalhar para pagar conta e voltava para casa. Quando ela morreu, eu tomei um baque, porque não sabia exatamente onde eu tinha perdido os meus sonhos, onde eu tinha perdido a fé, não só no divino, mas também na justiça social, nas leis. E era um nível de esgotamento que eu pensava que não ia conseguir fazer nada”, comentou.

Elaine foi a entrevistada da edição de 28 de maio do programa Amizade Aberta, apresentado por Anderson Braz na rádio comunitária Cantareira FM, durante o qual falou sobre o esgotamento do corpo feminino, um tema em que se aprofundou a partir de sua experiência pessoal e sobre o qual hoje fornecesse mentorias para que mulheres reconheçam seus sinais e resgatem o bem-estar.

A VIRADA DE CHAVE APÓS O CAOS

Elaine lembrou que após o falecimento da mãe, em 2023, percebeu que precisava olhar para si com mais profundidade: “Em 21 de março de 2024, eu gravei uma live no Instagram, e tive essa sacada, ‘vou olhar para mim’. E pensei ‘tenho momentos importantes para mim e o meu aniversário é um deles. Vou começar a cuidar agora no mês de abril. Daí, do dia 22 para o dia 23, eu tive um sonho com a minha mãe, um sonho longo, e acordei em uma crise de ansiedade como nunca tinha tido. Eu sentia como que meu corpo tivesse virado uma folha de papel em cima da cama. Eu não conseguia respirar. Chorei, tive diarreia, não conseguia comer, não parei de chorar por horas”.

Diante daquela situação, Elaine rapidamente pensou em pessoas que poderiam ajudá-la: um psiquiatra que havia colaborado no tratamento da mãe, mas que estava sem agenda para atendimento; um amigo que estudava sobre sonhos, na perspectiva de que a pessoa sai do próprio corpo – “depois do sonho eu sentia que minha alma estava desencaixada no meu corpo, ficou um negócio muito esquisito” -; e uma amiga, que é psicóloga junguiana [que atende com base nos estudos de Carl Jung], que a atendeu por quase três horas. Além disso, conversou com outra pessoa “no campo mais espiritual”.

“Depois disso, as coisas meio que foram se encaixando, fui usando outras ferramentas que já conhecia, outros cuidados, até chegar o dia da consulta. Eu fiquei bem, mas não queria passar por aquilo de novo. Depois da consulta com o psiquiatra, passei a tomar medicação. Eu fiquei em tratamento por um ano e meio. No final de 2025, recebi alta, e foi muito importante ele ter acertado a minha medicação”.

Elaine contou que a partir da medicação, percebeu que poderia reorganizar a vida, deixando de lado o ciclo anterior marcado pela ansiedade, cansaços e excessos. “Aproveitei aquele momento no qual minha cabeça e meu corpo como um todo tinham se regulado para rever o meu comportamento, porque eu tinha certeza de que se eu continuasse no mesmo ritmo que eu estava – acordando cedo, pegando o celular o dia todo, indo dormir com a cara no celular, vendo informações mais densas – não ia dar certo”.

A partir disso, ela desenvolveu a mentoria “Um olhar para si”, voltada ao acolhimento feminino por meio da consciência corporal e do movimento, na qual trata de temas como exaustão feminina, excesso de funções e a dificuldade de desacelerar. Em seu canal no YouTube e em seu Instagram (@elainekeiteoficial), Elaine discute o esgotamento do corpo feminino, propondo reflexões sobre como o corpo manifesta a sobrecarga física e emocional.

OS HÁBITOS QUE LEVAM AO ESGOTAMENTO

Elaine ressaltou quem em cada pessoa os sinais do esgotamento podem se dar de modo diferente, mas que o processo de agravamento costuma ser o mesmo.

“Essa comunicação que o corpo vai trazendo pra gente muitas vezes começa de forma mais sutil, como que uma intuição, aquela voz que a gente escuta, mas que ignora e pensa ‘estou louca, é coisa da minha cabeça’, mas é uma comunicação do corpo, mas a gente, com muitas funções do dia a dia, não leva muito a sério essa voz. Daí, o corpo vai começando a trazer outras formas de comunicar, até gritar, que é quando a gente vai para um problema de saúde físico e/ou mental, que vai atravessando todas as camadas”, detalhou.

Segundo Elaine, alguns comportamentos acabam ajudando a levar a um quadro de esgotamento: “No meu caso, tinha essa relação de estar muito conectada, muito informada, e isso também me gerava uma urgência, uma necessidade de tentar resolver, de tentar fazer parte do movimento que estava falando de um problema, e isso também era um indício de autoboicote, porque, muitas vezes, eu estava me envolvendo com assuntos que super me interessam, mas que não eram da minha área de atuação. Assim, nesse fluxo da ansiedade, você começa a dar importância demais para algumas coisas, começa a abandonar a sua vida, inclusive os afazeres cotidianos. Eu estava em um nível de ansiedade que eu entrava naquele fluxo e quando parava de fazer meu trabalho, estava esgotada, cansada. Chegava no outro dia, entrava no mesmo ciclo de ansiedade, e com isso descuidava da alimentação e do descanso”.

O ERRO DO ‘DEIXA QUE EU DOU CONTA’

Elaine enfatizou que toda mulher precisa pensar em ter um tempo para si: “A mulher não faz nada por ela. É sempre cuidando de filho, do marido, da casa, de outros problemas, pagando conta. Hoje, eu olho para estas situações e falo: ‘Amiga, o que você está fazendo pra você?’; e ouço, ‘Ah, não tenho tempo’”, comenta, recordando que quando dava aulas de dança do ventre muitas das alunas faltavam ou desistiam em razão de problemas que eram de outros.

“Uma questão que pega muito para a mulherada é a organização do tempo, de conseguir se priorizar em algum nível, de entender que está tudo bem ela fazer alguma coisa por si ou até mesmo parar e descansar sem culpa”, ressaltou.

Segundo Elaine, este cenário é ainda mais gritante para as mães solo: “É cada relato que ouço e que recebo que eu fico indignada. Essas mulheres precisam dar conta de sustentar o filho e a própria vida, sozinhas, trabalham fora, cuidam dos filhos, os educam, os acompanham na escola. É bem aquela imagem da mulher tentando subir profissionalmente só que ela não está só com uma mala na mão subindo uma escada ou um elevador, ela está segurando também as mochilas e malas dos filhos, está com eles no colo e indo em uma escadinha de bambu”.

Neste panorama, enfatizou a especialista, “a mulher se perde de si, perde a própria identidade e vira exclusivamente mãe. Quando converso com essas mulheres, eu até digo ‘meu esgotamento já foi muito difícil sendo uma mulher solteira, sem filhos, já é muito difícil estar sozinha e dar conta de tudo, imagina ainda tendo alguém para ser responsável e não contando com apoio’. É avassalador. Só de a gente escutar já dói muito, imagina viver isso na pele”.

Questionada se de algum modo os homens podem ajudar as mulheres a não caírem em um cenário de esgotamento, Elaine disse que não há como assegurar que eles mudem de atitude, mas que está no controle da mulher “parar de fazer tudo por todos. Por exemplo, há muitas mulheres que falam assim, ‘na minha casa, eu que tenho que fazer todos os cuidados domésticos, se eu não fizer ninguém faz, nem meu filho, nem meu marido’. Todas temos conhecimento das sobrecargas que são jogadas nas costas da mulher, mas é preciso o nosso quer individual de falar, ‘ó, dá uma segurada’”.

“Quando a mulher vive sempre fazendo tudo, ela se coloca na sobrecarga. Eu me lembro de uma mentora que certa vez me disse: ‘Esse lugar do só eu posso, só eu consigo, só eu dou conta também é um lugar de arrogância”, prosseguiu.

Hoje, anos após o falecimento da mãe, Elaine reconhece que poderia também tê-la deixado viver mais para si, o que representaria um ganho para ambas: “Penso, de repente, se eu não empatei a minha mãe em avançar em coisas que eu cobrava. Então, assim, eu falava, ‘eu não vou viajar no final de ano para a praia porque senão minha mãe vai ficar sozinha’. Se, de repente, eu tivesse ido viajar, minha mãe teria ido visitar minhas tias, teria arrumado um namorado, teria ido a algum lugar. Então, às vezes, quando a gente se coloca nesse nível de importância, acaba se sacrificando e até atrapalhando o crescimento do outro”.

NÃO SE ESCONDER DO PROBLEMA

Na parte final da entrevista, Elaine observou que é muito comum que as próprias pessoas dizerem ter ciência daquilo que tem impactado negativamente suas vidas, mas nada fazem para tentar mudar.

“Algumas mulheres vêm fazer mentorias comigo e, nesse processo, é muito curioso que quando chegamos ao centro dos problemas, algumas dizem ‘mas isso daqui eu sei, aquilo assim eu também sei’. Daí eu pergunto ‘tá, se você sabe, como que está isso? Como você está colocando isso em prática? Pois está havendo um efeito contrário deste saber que você diz que tem”, observou.

Elaine Keite também disse perceber que já há muitos homens buscando se conscientizar, se cuidando para não cair em esgotamento, embora ainda seja um movimento tímido, pois “existe uma formação muito rígida de que ele precisa ser o provedor, o homem forte, o famoso ‘homem não chora’. Os homens são criados para ter couraça nas emoções. E quando a gente fala de consciência corporal, percebemos que o nosso corpo vai enrijecendo por conta destas emoções não cuidadas”, alertou.

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