No ‘Revista da Semana’, terapeuta na área de dependência química fala sobre a superação de vícios

Por 20 anos, entre a adolescência e o início da fase adulta, José Carlos foi autor da degradação da própria vida em decorrência do vício em drogas, mas conseguiu se libertar. Hoje, ajuda outras pessoas a vencerem a dependência química e do álcool, o que só é possível com o apoio da família, conforme ele contou em entrevista na edição de 25 de abril do programa “Revista da Semana”, apresentado por Beto Souza na rádio comunitária Cantareira FM.

TUDO COMEÇOU POR CURIOSIDADE

José Carlos recordou que seu primeiro contato com as drogas se deu por curiosidade, ainda na infância: ao verem jovens e adultos entrando em um terreno baldio sozinhos e depois saindo todos juntos e dando risada, ele e um amigo decidiram descobrir o que ali se fazia.

“Houve um dia que eles se drogaram, esconderam a droga no mato e saíram. Daí, meu colega e eu pegamos a droga e experimentamos, e tudo começou”. Conforme foi se entrosando com aquele grupo – composto majoritariamente por jovens e rapazes – se distanciou dos outros garotos de sua idade e o vício se intensificou.

“Eu me tornei aquilo que hoje se fala que é o aviãozinho. Os rapazes falavam quanto queriam de droga e eu buscava e entregava pra eles. Em contrapartida, davam a minha parte para usar de droga, que era maconha. Droga sintética eu só fui conhecer depois de alguns anos”.

UMA FORÇA MAIOR QUE A VONTADE DE PARAR

Dos 9 aos 30 anos de idade, o vício em drogas fez parte da vida de José Carlos. Em alguns momentos daquele período, ele até pensou em parar, ao perceber o quanto aquilo fazia mal à sua saúde e finanças. “O medo de parar de consumir a droga é mais forte do que o medo da morte”, enfatizou.

“Eu sempre digo que todos que se viciam têm vontade de parar. Ao se tornar dependente, isso significa que seu corpo se adaptou àquela substância. A pessoa até tem vontade de parar com o vício, mas não encontra forças. E quais são estas forças? O apoio da família, a participação de grupos de apoio e até de uma internação para desintoxicar e garantir que você terá um longo período sem esta substância, para que seu corpo possa se acalmar e você encontrar forças para dizer ‘não, eu não quero mais isso para a minha vida’”.

O vício em drogas também pode desencadear a proximidade ao mundo do crime, quando a pessoa não tem recursos para mantê-lo.

“Eu mesmo entrei no tráfico. Comecei a vender droga para poder manter meu vício. Quando eu tinha 18 anos e trabalhava com um bom salário, eu tive como sustentar o meu vício, cheguei a comprar até meio quilo de maconha. Eu vendia uma parte para recuperar o que gastava”.

A TRILHA DA LIBERTAÇÃO

José Carlos enfatizou que o primeiro passo para a libertação do vício, seja em bebidas alcoólicas, seja em drogas, é que a própria e sua família reconheçam que se trata de uma doença – assim já mapeada no Código Internacional de Doenças (CID) – e não de um desvio de caráter.

“O usuário de drogas não é um criminoso; é uma pessoa doente. Inclusive, a Justiça pode determinar que ele passe por um tratamento, o que pode se dar até de forma compulsória, ou seja, contra a sua própria vontade da pessoa que precisará ser internada para se tratar”.

“A dependência química é uma doença tão violenta que eu diria até pior do que o câncer, pois quem tem câncer quer viver, quer se tratar, está aberto para tomar o medicamento que for necessário e tem o apoio da família. No caso das drogas, a coisa é totalmente diferente, e é fundamental que a família entenda que a pessoa tem aquela doença, que não se trata de alguém que é vagabundo ou mau caráter. A família vai ter de aprender a conviver com isso, tanto que hoje os familiares são vistos como codependentes de quem tenha um vício, são envolvidos emocionalmente com o depende químico”.

“E quando esta pessoa retornar da clínica, a família deve estar pronta para acolhê-la, mas de um modo diferente, não menosprezando esta pessoa, nem a chamando de nóia, de bêbado, de vagabundo, drogado, maconheiro etc”, comentou o terapeuta em dependência química.

Nesse processo de tratamento, portanto, a família terá de entender em quais aspectos precisa mudar, incluindo ter confiança naquela pessoa que está em tratamento: “Uma boa companhia é necessária para que a pessoa não tenha uma recaída, pois isso pode ser fatal”.

Entretanto, ao longo do processo de tratamento também acaba sendo necessário que a pessoa se desligue de amizades, ambientes e situações que a deixem propensa a voltar ao vício.

“Aquelas festinhas no fim de semana, aquele churrasquinho, aquele chamar os vizinhos para tomar uma cerveja ou uma caipirinha, este hábito terá de mudar dentro de casa, pois do contrário não se contribuirá com a recuperação da pessoa”, comentou.

José Carlos destacou, ainda, que em alguns casos, o “mentir” que levou a pessoa a se afundar no vício, pode ser uma “arma” para que não volte a tê-lo: “Quando alguém tem vício em drogas, a primeira coisa que aprende é mentir. E daí eu sempre digo para quem eu atendo: ‘agora, você vai usar toda a mentira, toda esta malandragem que você aprendeu, a seu favor. Quando alguém oferecer droga a você, diga que ainda está em tratamento médico, que está com problema no coração, e que está dando um tempo com isso’”.

MÃO ESTENDIDA A QUEM PRECISA

Há 24 anos, José Carlos atua no Sindicato dos Comerciários de São Paulo, e lá fundou o Comitê de Aconselhamento sobre Álcool e Drogas, no qual atende gratuitamente pessoas que queiram se libertar do vício. Os interessados ou seus familiares podem agendar um horário de atendimento pelo WhatsApp (11) 98905-1931.

“Eu faço este trabalho com o maior prazer. Se a pessoa não tiver condições de ir ao local, a gente pode fazer uma chamada de vídeo ou por telefone. Já ajudei várias pessoas remotamente”, contou.

José Carlos também foi um dos fundadores do Conselho Municipal de Políticas Públicas de Drogas e Álcool de São Paulo (Comuda), do qual foi conselheiro durante 11 anos.

De todo este trabalho de atenção ao próximo, ficaram muitas histórias marcantes, uma delas de um rapaz chamado Rodrigo: quando ele tinha 20 anos de idade, já viciado, sua mãe pediu ajuda a José Carlos sobre o que fazer.

“No começo do processo, eu pedi licença para a mãe dele e tive de falar para o Rodrigo algumas verdades. Tivemos uma conversa ‘de malandro pra malandro’. Falei de como a mãe dele o via e daí ele acabou aceitando a internação. Foi para uma clínica em Bragança Paulista (SP). Seis meses depois, teve alta, mas disse para a mãe dele que não se sentia preparado, fortalecido para sair, que queria ficar mais um tempo. Esta postura dele foi fundamental, pois era sinal de quem quer mudar de vida. Ele ficou por lá por um ano, e quando voltou para casa, a primeira pessoa que procurou foi eu, e quando nos encontramos ele me disse: ‘Zé Carlos, eu não tenho mais coragem de voltar ao meu trabalho e encarar aquelas pessoas, com elas sabendo do que fiz. Então, vou pedir para me mandarem embora. E fui orientando-o para que mudasse as amizades, o ambiente de vida, frequentasse os Narcóticos Anônimos. Hoje, já se passaram 20 anos que ele está em situação de sobriedade. Casou-se e cursou duas faculdades”, recordou.

Na avaliação de José Carlos, atualmente o Sistema Único de Saúde (SUS) conta com uma boa rede de atendimentos para o alcoolista e o tabagista, mas o suporte para quem tem vício em drogas ainda não é o suficiente. Ele também defendeu que haja mais fiscalização sobre as adegas, incluindo a limitação do horário de funcionamento.

Beto Souza, por sua vez, lembrou de outros vícios prejudiciais, como o de álcool, o de energético (em razão da taurina) e o do rebite, que possui anfetamina para se manter acordado, os quais causam danos ao corpo ao longo do tempo.

Tanto o entrevistador quanto o entrevistado lembraram que não se deve uniformizar como “maléficas” as drogas, mas que deve haver a regulamentação sobre seu uso. A cannabis, por exemplo, encontrada na maconha, é princípio ativo de alguns medicamentos para tratamentos neurológicos, mas as famílias ainda precisam recorrer à Justiça em muitos casos para ter permissão de uso com tal finalidade. Além disso, a eventual regularização do comércio de drogas ajudaria a combater o narcotráfico e evitar que mais pessoas fizessem uso descontrolado de drogas, redundando em vícios.

ASSISTA A ÍNTEGRA DO PROGRAMA DE 25 DE ABRIL