‘SUS Nosso de Cada Dia’ trata sobre as condições de saúde do trabalhador

Nem sempre trabalhando em condições ideais e muitas vezes com jornadas muito extensas, os brasileiros têm sentido cada vez mais na própria saúde os impactos das condições trabalhistas e isso incide diretamente na capacidade de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS).

“Como vai a saúde de quem trabalha?” foi o assunto em destaque na edição de 28 de abril do programa mensal ‘SUS Nosso de Cada Dia’, apresentado por Adão Alves e Marcos Rubens na rádio comunitária Cantareira FM.

Para tratar do assunto a convidada foi Euridice Ferreira de Almeida, pedagoga, enfermeira e conselheira nacional de saúde, com atuação específica na coordenadoria que se atenta às condições de saúde dos trabalhadores. Ela integra a Federação de Sindicatos dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil (Fasubra Sindical); e participou do programa diretamente de Recife (PE), em meio a um dos encontros preparatórios para a 18º Conferência Nacional de Saúde, cuja etapa nos municípios começou em março e prosseguirá até 4 de julho.  

A LUTA PELA SAÚDE NO ORÇAMENTO

Inicialmente, Euridice explicou que o financiamento do SUS tem uma parte estruturante, oriunda de recursos de âmbito federal, estadual e municipal; e ainda conta com verbas de emendas parlamentares.

“É um cabo-de-guerra. Este financiamento tem toda uma infraestrutura, uma aparelhagem administrativa para controle e fiscalização, mas sempre carece de um aporte financeiro maior, e uma das saídas vem, justamente, destas emendas parlamentares. Nessa conjuntura, é importante eleger cada vez mais representantes genuínos do povo brasileiro, que de forma leal, legítima e estruturante pensem na saúde pública”, comentou a entrevistada.

Adão Alves reforçou ser fundamental que o cidadão, ao eleger seus representantes, tenha atenção aos parlamentares que, de fato, defendem e agem em favor do SUS.

A ATENÇÃO À SAÚDE DO TRABALHADOR

Euridice comentou que um dos desafios para se pensar as políticas públicas em prol da saúde do trabalhador é a subnotificação dos casos de acidentes e de mortes no ambiente de trabalho.

“O trabalhador precisa atuar em um ambiente perfeito e com todas as condições necessárias e ter dignidade em seu trabalho, a começar por um salário digno, que lhe dê sustentação e dignidade de vida, até para que não sofra impactos em sua saúde mental”, comentou a conselheira de saúde.

Ela destacou, ainda, que quando as normas de saúde no trabalho são respeitadas pelo empregador toda a sociedade é beneficiada, incluindo o consumidor final de um produto ou serviço.

Entretanto, segundo ela, os que debatem esta temática ainda não encontraram uma linguagem adequada para que toda a sociedade entenda a sua importância. “Temos de renovar a linguagem, não falar apenas para nós mesmos, mas sim falar a língua que o povo entenda. Temos de estourar as bolhas”, comentou, observando, porém, que na era da cultura digital, em que são cada vez menores as interações olho a olho, tem sido difícil pensar coletivamente.

O TRABALHADOR EM HOME-OFFICE

Euridice Ferreira também enfatizou que é preciso haver um amplo debate sobre as condições de saúde dos que trabalham em home-office.

“O home-office impacta cada vez mais a nossa saúde mental, pois tirou o trabalhador do convívio social. Não é todo mundo que tem esta estrutura psicológica para essa coisa de trabalhar fechado em casa, pois você não vê nada, não acompanha nada. Na universidade em que eu trabalho, há muitos técnicos que já estão pedindo para voltar ao presencial, pois além dos prejuízos financeiros há este maior adoecimento mental”, disse a entrevistada.

“No home-office, além de você não ter vida social, você se isola da sua família, pois dentro da sua própria casa você vai ter de ter um ambiente para trabalhar. E são 24 horas por dia na tensão. É uma escravidão moderna”, opinou Euridice.

Adão Alves observou que o trabalho presencial ajuda as pessoas a lutarem por seus direitos e a construírem a identidade profissional. “Pra mim, o trabalho home-office é um assalto à dignidade da pessoa”. Ele também comentou que essa situação leva ao adoecimento, em razão da falta do contato humano. Outro problema é que a pessoa trabalha além do tempo de contrato, respondendo mensagens, por exemplo.

Sobre quem trabalha presencialmente, Euridice lembrou que tem sido crescente a preocupação sob as condições ofertadas aos trabalhadores de entrega das plataformas de aplicativo.

“Os entregadores de aplicativo estão entre os mais afetados em saúde. É uma escravidão moderna, pois precisam cumprir um tempo para entrega, um tempo para transporte e se eles não cumprirem, não vão receber. E quando adoecem, resta-lhes o SUS e os programas sociais do governo. E nem estamos falando dos muitos acidentes de trânsito que acontecem, que obrigam a aumentar o orçamento do SUS para urgência e emergência, pois a alta complexidade é o que há de mais caro na saúde. Quem precisa viver com este tipo de serviço não tem segurança, nem proteção e fica ao largo da sociedade”, analisou a conselheira de saúde.

DISCUSSÃO SOCIAL SOBRE A SAÚDE

Por fim, Euridice Ferreira recomendou que o trabalhador que desconfie estar sofrendo com condições abusivas ou insalubres de trabalho procure sua categoria de classe, além de partidos políticos e outros coletivos sociais que se preocupem com suas condições de vida.

“Quando falamos em saúde do trabalhador, temos de fomentar ainda mais a criação dos conselhos locais de saúde, que são estruturas que vão falar diretamente com a comunidade. Nesses conselhos, podemos colher as demandas do que a população precisa. Então, não fique só, vá ao seu PSF [Estratégia de Saúde da Família], entre nas rodas de conversa sobre saúde, vá às suas associações e sindicatos”, recomendou Euridice.

ASSISTA A ÍNTEGRA DO PROGRAMA DE 28 DE ABRIL