Na Cantareira FM, Regina Ramos apresenta suas ‘Sobre Vivências – Poesias, prosas e memórias’

Você já se perguntou se há “idade certa” na vida para começar a “poetizar”? E quais são as grandes inspirações de um poeta? E se a pessoa carregar a poesia em sua mente e coração por longos anos e o acaso fizer com que floresça o poeta ou a poetisa, quando ele ou ela descobre que a poesia “é o remédio, a carta na manga”, que salva e leva a pessoa para novos sonhos.

A história da poetisa Regina Ramos, 64 anos, é um pouco de tudo isso, e foi por ela contada na edição de 31 de janeiro do programa “Sintonia Cultural”, apresentado por Adão Alves na rádio comunitária Cantareira FM.

Regina é autora do livro “Sobre Vivências – poesias, prosas e memórias”, por ela lançado em 7 de agosto de 2025, no qual ela “poetiza” sobre a própria vida.

UMA PAULISTANA-MINEIRA-BAIANA

Os pais de Regina – Eduardo e Ana Rosa – se conheceram na capital paulista. Tiveram 10 filhos, entre os quais Regina, nascida na zona Leste da cidade.

A história dos pais é bem típica dos “enredos que se cruzam” na maior cidade do país: Eduardo, nascido na zona rural do estado da Bahia, ainda jovem deixou sua terra natal e chegou a São Paulo, onde se firmou em um emprego no ramo da construção civil. Ana Rosa nasceu em Minas Gerais, perdeu os genitores ainda na infância, sofreu exploração de trabalho doméstico como criança e adolescente, até que, aos 17 anos, passou a viver como cuidadora de uma idosa no Vale do Paraíba. Quando esta senhora morreu, Ana Rosa veio para a capital paulista, na década de 1950, e começou a trabalhar no restaurante de uma pensão. Lá conheceu Eduardo.

Após alguns anos de casados, Eduardo foi trabalhar em Brasília (DF), uma cidade que na década de 1960 estava em plena construção. Na volta a São Paulo, acidentou-se, ficando impedido de trabalhar.

“Diante disso, minha mãe usou dos dotes culinários que ela tinha e passou a fazer doces e salgados para vender na porta das escolas do nosso bairro. Ela inventou a receita de um bolinho salgado que era um sucesso. A minha primeira lembrança de vida é de, no começo dos anos 1960, com os meus 5, 6 anos de idade, ir pelas ruas de terra na zona Leste com minha mãe, na porta das escolas para vender as coisas. Minha mãe ia com um tabuleiro na cabeça cheio de doces e em uma das mãos tinha uma cesta cheia de salgados que fazia”, detalhou Regina.

Com o tempo, Ana Rosa adoeceu e como Eduardo já estava um pouco melhor de saúde, ele quem passou a vender na porta das escolas os doces e salgados que a esposa produzia, e ia na companhia das filhas, que à época também começaram a estudar. “Até os 17 anos, esta foi a minha vida: vender doces e salgados na porta das escolas e estudar”, detalha a poetisa.

APROXIMANDO-SE DA POESIA

Quando Regina terminou o Ensino Médio, a mãe já estava com a saúde mais debilitada e o pai sofreu um AVC. “Pouco antes de ele sofrer o acidente, consegui meu primeiro emprego com carteira assinada, foi no grupo Pão de Açúcar, ganhando um salário-mínimo, e com esse dinheiro conseguia ajudar a minha família”. Depois, ela foi trabalhar no grupo Philco, produtora de aparelhos de rádio e televisão à época. Após ter um aumento de salário, ela decidiu cursar Letras, em uma faculdade na zona Leste da cidade.

Anos depois que Regina já estava formada em Letras, sua irmã, Maria de Lourdes, recebeu um convite para participar do programa USP+60, mas como não tinha tempo hábil para ir, quem ingressou no programa foi Regina: “Eu fui, conheci muita gente, participei de várias atividades. Fiz uma disciplina chamada Gerações, na qual se estuda nosso processo de envelhecimento. Isso foi em 2023”.

Ao término do primeiro semestre daquele ano, a USP realizou uma amostra de talentos. Regina não queria participar, mas “as vozes” passaram a convencê-la do contrário. Foi, e assim começava um novo capítulo de sua história.

“Eu não queria participar daquela mostra, pois eu achava que não sabia fazer nada, mas me deram a ideia de escrever uma poesia só pra eu poder participar. Escrevi uma pelo celular durante uma festa, em que fiquei em um canto observando o comportamento das pessoas e escrevendo. Eu apresentei essa poesia na USP e as pessoas me aplaudiram de pé. Fiquei em segundo lugar no concurso. Eu sempre brinco que eu entrei na poesia, na literatura, por causa das ‘vozes que eu ouvia’. Eram vozes do Além? Não! Era a voz da minha irmã Lourdes que ficava no ouvido, dizendo ‘Regina, escreve a nossa história’. E um dia escrevi, e a poesia foi aplaudida, e essa poesia foi me abrindo portas, pois as pessoas lá da USP me incentivaram a escrever sobre minha história”, detalhou.

‘QUANDO ESTOU TRISTE, ME ALEGRO COM POESIA’

De amigo a amigo, Regina Ramos chegou a Geane Silva, que conduz um grupo de poetas mulheres 60+, em São Miguel Paulista (@sarau60mais): “A partir daí, comecei a escrever cada vez mais”.

“Hoje em dia, me sinto muito feliz por poder escrever, e continuar escrevendo e aprendendo mais a cada dia, escrevendo sobre temas variados, mas sempre procurando passar uma mensagem falando da minha negritude. É muito bom poder escrever e levar a poesia a lugares em que eu nunca imaginei antes: em bibliotecas, em uma rádio como aqui”, disse Regina, que esteve na Cantareira FM acompanhada de algumas de suas irmãs e sobrinhas.

E claro que a entrevista não poderia terminar sem poesia. A autora declamou, então, um dos poemas que estão no livro “Sobre Vivências – poesias, prosas e memórias”:

Quando estou triste,
me alegro com poesia.
Quando a fome me pega,
é a poesia que alimenta a minha alma.
Quando sinto sede, frio, calafrios,
a poesia me sacia, me aquece e me conforta.
Quando eu fico pra baixo,
é ela que me puxa pra cima,
me faz levitar a seguir o meu caminho.
Quando estou brava, irritada,
querendo devolver as porradas e bordoadas que insistem em me dar,
a poesia me acalma, me tira dessa neura,
me devolve a serenidade, o equilíbrio e me traz de volta o juízo.
Ela me restaura, me bota no eixo e me faz superar,
me faz enxergar que não vale a pena gritar,
brigar, confrontar, nem bater de frente.
Dar murro em ponta de faca só vai me ferir ainda mais
Nos momentos mais críticos,
a poesia me dá um norte, me ensina a respirar,
manter a calma e ser fraternal.
Quando me perco, me desespero,
e não sei ao certo o que fazer,
eu paro, faço uma pausa, inspiro, expiro,
e me pego a poetizar,
pois eu seu que a poesia é o remédio, a carta na manga,
que vai me salvar, me levar e me puxar para cima.
É ela quem vai me purificar,
me direcionar
e me botar, com certeza,
Em um outro patamar

Conheça mais sobre Regina Ramos pelo Instagram (@ramosregina1221)

ASSISTA A ÍNTEGRA DO PROGRAMA DE 31 DE JANEIRO

PARTICIPAÇÃO EXTRA

Nesta edição do ‘Sintonia Cultural’, o ambientalista Ulisses Queixada fez breve participação de modo on-line para informar sobre a inauguração de um núcleo da Umapaz – a Universidade Aberta de Meio Ambiente e de Cultura de Paz – no Parque do Carmo, ocorrido naquele 31 de janeiro.

“Há 20 anos, estamos lutando para a Umapaz ser descentralizada, deixar de ser apenas no Ibirapuera, na zona Sul. E hoje foi inaugurado o núcleo da Umapaz, na zona Leste, no Parque do Carmo, onde tem havido muitos eventos culturais na região. Com a Umapaz, chega uma equipe para instruir e oferecer cursos à nossa comunidade. A partir de hoje, cabe-nos tomar posse daquele espaço. O que vai trazer vida à Umapaz é a presença, é a participação, não só dos movimentos de meio ambiente da região, mas de todo cidadão e cidadã que tenha interesse por educação ambiental”, avaliou Ulisses.

Adão Alves celebrou o fato de ter havido a inauguração ainda que seja em um governo de direita: “Tomar o espaço que nos cabe é a nossa obrigação”, insistiu. Ulisses disse que não se trata de apoiar o governo do momento: “Reconhecer o feito é uma obrigação. E essa conquista é mérito dos movimentos ambientais da zona Leste. A partir destes núcleos descentralizados da Umapaz, que possamos construir, cada vez mais, políticas públicas melhores para a área ambiental”.