Cordelista O Conterrâneo apresenta sua arte no ‘Sintonia Cultural’

Cada página do caderninho de Bernardo, O Conterrâneo, guarda os registros de uma vida de superação e das muitas observações cotidianas deste maranhense que migrou para São Paulo ainda jovem, na década de 1970, e hoje ‘cordeliza’ pelas ruas e saraus da cidade.

Sou migrante nordestino do estado do Maranhão
Nasci nos anos 50,
Nas festas de São João.
Indigno engano,
Quando fiz 20 anos,
Abandonei meu sertão.
Vim morar em São Paulo,
Sem estudo e profissão.
Trabalhei de ajudante,
De faxineiro e peão.
O dinheiro que eu ganhava,
Nada me sobrava,
Era tudo da pensão.
Lutei muito na vida,
Porque sou trabalhador.
São Paulo me explorou muito,
Comi o pão que o diabo amassou.
Uma coisa é certeza:
Eu não tive moleza,
Mas sou um vencedor.

E foi assim, declamando um poema de cordel, que O Conterrâneo se apresentou aos ouvintes da rádio Cantareira FM na edição de 1º de agosto do programa “Sintonia Cultural”, apresentado por Anilson Brito e Adão Alves.

Nos estúdios, ao lado da esposa Ivonete Mendes de Almeida, com quem vive há mais de 30 anos, ele também falou de outros temas de seus poemas, entre os quais as situações de violência, incluindo o feminicídio e a periculosidade do centro da capital paulista, uma realidade que ele conheceu de perto.

O centro do medo,
Onde tudo começou.
Onde nasceu a Cracolândia,
Fui morador.
Os verdadeiros culpados são
Prefeitos e governador.
No centro do medo,
O povo não pode circular,
A gangue do quebra-vidro
Não para de roubar.
Até a polícia tem medo
De perder o celular.
Mas o centro do medo
Foi lugar de diversão,
Cantinas e restaurantes
Na Avenida São João.
O povo andava à vontade
Porque não tinha ladrão.

Pelas ruas e saraus

Ao vivo, O Conterrâneo também tocou seu pandeiro e cantou algumas músicas de Luiz Gonzaga (1912-1989), o Rei do Baião, entre estas “O Xote das Meninas” – do inesquecível refrão “Ela só quer, só pensa em namorar” – e “Ovo de Codorna” – dos geniais versos “Eu quero um ovo de codorna pra comer,
o meu problema ele tem que resolver”.

Apesar da potência vocal, O Conterrâneo não é cantor. Sua veia artística, como enfatizou na entrevista, é ser cordelista, declamando seus poemas em saraus e locais com grande movimentação popular, como na feira do bairro da Liberdade aos sábados e domingos.

Na calçada, apoiado em sua bengala, ele vê uma moça passar. Solta um verso, mais outro, e completa a estrofe. Emenda mais uma estrofe, e com a simpatia peculiar do artista popular, pede uma contribuição: “Sou artista de rua, minha profissão! Deus me deu o dom da arte, pra ganhar meu pão. Se puder me ajudar, coloque na minha mão”.

A quem chore ao ouvir os primeiros versos, afinal “a arte tem este poder de mexer com o sentimento das pessoas”. Há quem o ignore, mas a maioria lhe dá atenção e alguma contribuição, um dinheirinho extra que ajuda nas contas do mês do casal aposentado.

“O dinheiro não é o mais importante. O interessante, o que me faz bem, é aquilo que eu falo para as pessoas”, afirma o cordelista.  

Apoio aos artistas populares

Questionado sobre porque ainda não publicou seus poemas em um livro, O Conterrâneo disse que já pesquisou valores para publicar e o quanto lucraria com as vendas, e percebeu que não seria algo rentável. “Indo para a rua divulgar minhas poesias, eu ganho mais”.

Adão Alves, que também é poeta, falou sobre o gosto pela literatura de cordel, herdada da mãe, que mesmo analfabeta reunia os filhos na sala e replicava as histórias que ouvia: “A nossa herança cultural nós temos de cuidar e cultuar sempre. Vamos cuidar da memória das pessoas. E o seu maior exemplo, O Conterrâneo, para os seus filhos, a sua maior herança para eles, é a sua arte”.

O entrevistado e os apresentadores falaram ainda sobre as dificuldades financeiras enfrentadas pelos artistas em idade ativa e por aqueles mais idosos, que no auge da carreira não souberam poupar ou fazer investimentos, e hoje têm uma velhice com escassos recursos.

Ao final do programa, Adão Alves ressaltou a natureza comunitária da rádio Cantareira e enfatizou que os microfones sempre estão abertos para os artistas populares.

“Agradeço a atenção que me deram na rádio Cantareira. Foi uma tarde linda, maravilhosa!”, assegurou o Conterrâneo.

ASSISTA A ÍNTEGRA DO PROGRAMA DE 1º DE AGOSTO