Cantareira FM dá destaque às ações do movimento Mobiliza Saracura Vai-Vai
A construção da Linha 6-Laranja do Metrô, parcialmente entregue neste ano e que quando estiver completamente concluída irá ligar a Brasilândia à estação São Joaquim, revelaram achados do Sítio Arqueológico do Quilombo do Saracura na futura estação 14 Bis, erguida sob o antigo barracão da tradicional escola de samba Vai-Vai, no bairro do Bixiga.
A luta para que se preserve o sítio arqueológico levou os moradores do bairro a formar em 2022 o movimento Mobiliza Saracura Vai-Vai, que esteve em destaque na edição de 19 de setembro do programa “Revista da Semana”, apresentado por Beto Souza e Rubens Andrade na rádio comunitária Cantareira FM.
De modo on-line, os entrevistadores conversaram com a socióloga Rosimeire de Almeida (Rose), com o advogado Luís Felipe Santos e com o diretor de arte e produtor cultural Tim Ernani, que integram este movimento que se reúne todas as segundas-feiras e divulga ações por meio do Instagram @estacaosaracuravaivai.
Unidos para a preservação da memória

“O Mobiliza Saracura Vai-Vai nasce a partir do encontro de um sítio arqueológico. E as pessoas não estão muito acostumadas com essa ideia de sítio arqueológico. Quando se cava o fundo da terra, o que está nela é de domínio público e o que nela tiver e pertencer à história do povo brasileiro deve ser preservado. Além disso, discutir patrimônio e o que ele significa também é uma novidade, no sentido de que as comunidades normalmente estão muito distanciadas desta discussão e do acompanhamento do patrimônio nacional. Quando soubemos da existência de um sítio arqueológico no território do Bixiga, onde já se sabia que aqui existiu um quilombo urbano, não tinha como não nos envolvermos”, explicou Rose Almeida.
A comunidade local só soube da existência do sítio arqueológico três meses após a sua descoberta e, então, passou a cobrar o poder público e a concessionária responsável pelas obras do metrô para que as escavações ocorressem dentro dos parâmetros previstos para estes casos, a fim de assegurar a preservação da memória que emerge daquele sítio arqueológico do século XIX, e pelo qual será possível evidenciar a contribuição histórica da população negra para a cidade de São Paulo e para o bairro do Bixiga.
Luís Felipe disse que Saracura Vai-Vai permite detalhar uma história que não estava sendo contada. “Houve pessoas negras que compuseram este bairro. Não é apenas um bairro de imigrantes italiano”, enfatizou, destacando que após a descoberta do sítio arqueológico as histórias do povo negro no Bixiga foram ressurgindo.
Tim Ernani disse que o movimento Saracura Vai-Vai tem permitido que ele se reconecte com a própria identidade, ainda que tenha chegado no bairro só em 2010: “Eu achei incrível essa movimentação aqui, pois é a maneira que a gente se organiza nas periferias. É essa coisa do coletivo. E com o Saracura Vai-Vai, tive uma conexão muito forte com os movimentos negros e a negritude do bairro”.
Luís Felipe comentou que uma das lutas do movimento é fazer com que a futura estação 14 Bis-Saracura seja um ponto histórico que preserve a memória do povo negro e da cidade de São Paulo, a partir do que foi achado no sítio arqueológico.
“Queremos que nesta estação todos os achados estejam acessíveis aos usuários para, por exemplo, poderem olhar o piso de uma casa que foi encontrada no sítio arqueológico. Essa é uma luta que estamos travando desde 2022 quando iniciamos o movimento, mas a lógica da empresa concessionária é fazer as estações pré-projetadas, sem distinções entre elas, como um lego”, comentou o advogado.
A materialidade do que já se sabia pela oralidade

Luís Felipe e Rose recordaram que foi uma opção do poder público realizar a construção da estação em um terreno que sabidamente, conforme a tradição oral, era o espaço do Quilombo do Saracura e que, assim, havia de possibilidade de achar a materialidade daquilo que a oralidade sempre dizia.
Rose explicou que pela lei de licenciamento quando se vai escavar um local é preciso fazer uma pesquisa histórica da localidade, “mas no caso do Sítio Arqueológico do Quilombo do Saracura, essa pesquisa prévia foi dispensada. E ela, imediatamente, traria toda a informação que já era conhecida seja a partir da nossa ancestralidade, pela história oral, seja por estudos científicos que já existiam a respeito”.
Questionado sobre por que a história negra do Bixiga ainda não é tão conhecida, Tim Ernani avaliou que isso decorre de uma tradição historiográfica europeia que é facilmente absorvida no Brasil e que leva as pessoas a se esquecerem do que foi a colonização do País: “É mais fácil vender a história europeia com o pretexto de civilização. Aqui, infelizmente, não se estuda história da África na escola. A gente estuda a história europeia e ela está sempre enaltecendo quem martirizou o povo”.
Sobre os achados do sítio arqueológico, Luís Felipe explicou que já foram encontradas cerca de 22 mil peças, entre objetos, partes de edificações e artefatos religiosos, incluindo os de religiões de matriz africana. Ele defendeu que mais estudos sejam incorporados para entender estes achados e como aquela comunidade se formou, “o que permitirá que as pessoas também estudem um pouco mais sobre a construção do Brasil, do qual a população negra faz parte”.
Musealização dos itens

Luís Felipe enfatizou que se deve olhar para o Sítio Arqueológico do Quilombo do Saracura como um patrimônio a ser resguardado, razão pela qual o movimento Mobiliza Saracura Vai-Vai está brigando para que este os objetos encontrados sejam patrimonializados, preferencialmente em um museu.
Rose disse que o movimentou lutou, mas não conseguiu, que se preservasse o sítio arqueológico original em meio a estação 14 Bis. “Se assim ocorresse, quem fosse à estação poderia entrar em contato direto com esta parte da história. Estamos em um momento da humanidade no qual a gente tem de começar a trabalhar por um bem viver que não é só acumular capital nas mãos de alguns, mas sim preservar a história, as memórias, saber das nossas origens para poder estar bem neste mundo. Do contrário, a cada dia que passa estamos cavando mais o nosso poço para o fim”.
Segundo a socióloga, é este ideal que impulsiona o Mobiliza Saracura Vai-Vai: “A gente acredita que preservar a memória, preservar a história, cuidar dos nossos e da lógica comunitária é o que a gente tem de possibilidade para outro mundo possível, um mundo em que a gente não se destrua. O não apagamento da história nos fortalece, a nossa luta nos fortalece, porque hoje nós já somos muito fazendo esta luta em defesa do sítio arqueológico”.
“A nossa perspectiva continua sendo de cuidado, de atenção, para que o que for descoberto continue a ter todo o cuidado e relevância, e que a gente, para além da tematização da estação 14 Bis, consiga este espaço de musealização na comunidade e para a comunidade”, enfatizou Rose.
“Nossa principal briga agora é para que todos os achados eles sejam musealizados, que estejam em um local de preservação e de pesquisa, como um museu que esteja dentro do bairro”, reforçou Luís Felipe.
O atraso da obra do metrô é culpa do sítio arqueológico?

Os participantes do Mobiliza Saracura Vai-Vai também refutaram os argumentos dos que atribuem à luta pelo resguardo do sítio arqueológico aos eventuais atrasos na entrega das estações da Linha 6-Laranja do Metrô.
Rose recordou que a previsão inicial de entrega desta linha era para o ano de 2014, mas que as obras foram paralisadas em razão das empresas construtoras estarem envolvidas em casos de corrupção
Ela sublinhou, ainda, que a escavação de um sítio arqueológico, uma vez descoberto, é uma medida legal a ser cumprida. Outro fator a ser considerado é que aspectos geológicos do terreno onde está sendo construída a estação 14 Bis atrasaram as obras: “Portanto, não é verdade que só a existência do sítio impôs maior tempo para a entrega da estação. Além disso, caberia à própria empresa investir mais dinheiro e mais tecnologia para que essa escavação do sítio arqueológico ocorresse de modo mais rápido para não atrasar o cronograma. Cumprir obrigação legal não é justificativa para atraso de obra”.
Também Luís Felipe foi enfático: “Queremos o metrô, mas sem a apagar a nossa história. Não há antagonismo entre ter o metrô e preservar o sítio arqueológico”. Ele disse que a luta pela preservação sítio arqueológico continua, com o movimento tendo reuniões frequentes com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com a concessionária Acciona e a empresa de arqueologia contratada pelos responsáveis da obra.
ASSISTA A ÍNTEGRA DO PROGRAMA DE 19 DE SETEMBRO
