‘Amizade Aberta’ debate o aumento de adultos diagnosticados com TDAH
Para alguns foi depois dos 30 anos de idade. Para outros, após os 40, 50 ou mais anos. Um dia, esta pessoa olhou para a própria vida e recordou ter sido sempre vista pelos outros como “esquisita”, “agitada demais” ou a “lerda” da turma. De tanto ser rotulada, cresceu achando “eu sou assim mesmo”, mas, quando se perguntou: “por quê?” e viu o quanto o tal “jeitão” lhe era prejudicial, decidiu buscar por ajuda especializada e descobriu ser alguém com TDAH.
O Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é uma condição do neurodesenvolvimento, caracterizada por sintomas que redundam em desatenção, hiperatividade e impulsividade em um nível exacerbado e disfuncional.
Ano a ano, cada vez mais adultos têm sido diagnosticados com esse transtorno relativo ao desenvolvimento do córtex pré-frontal, responsável pelos comandos das funções executivas, entre as quais planejar, coordenar e regular as emoções.
Na edição de 25 de junho do programa “Amizade Aberta”, apresentado por Anderson Braz na rádio Cantareira FM, o TDAH em adultos foi o assunto em destaque, com a participação de três especialistas no atendimento clínico de pessoas com essa condição.

TRAÇOS TÍPICOS
“Quando falamos de transtorno é porque não houve um desenvolvimento natural, típico. Muitos dos adultos de hoje com TDAH não sabiam dessa sua condição quando eram crianças e cresceram ouvindo que eram ‘preguiçosos’ ou ‘agitados demais’. Tiveram defasagem escolar em algo, mas não em tudo, pois, por exemplo, se têm hiperfoco em Matemática, vão bem nisso, mas não nas outras matérias da escola. Para entender: imagine um cérebro acelerado, em que o freio pra ele será sempre mais lento do que essa aceleração. Além dos rótulos que vêm desde a infância, este adulto é alguém com muitas feridas por coisas que ouviu ou por ele mesmo achar que não é capaz, que não é produtivo”, explicou a psicóloga Vivian Matos, que atende adultos com TDAH.
Vivian detalhou que para que se enquadre alguém como TDAH é preciso que a pessoa tenha apresentado os primeiros sintomas até os 12 anos de idade. “Ninguém adquire TDAH, mas já nasce com este transtorno. O ambiente influencia muito, fazendo com que piore os sintomas”.
Segundo a psicóloga, as pessoas com TDAH não têm clareza sobre a relação espaço-tempo, por isso vivem se atrasando para compromissos, por exemplo.
Também participante do programa, Márcia Mariano, neuropsicopedagoga, presidente da Associação Beneficente Albaninho, no Jardim Carumbé, relatou o drama vivido por um de seus pacientes com TDAH. O homem, hoje com 36 anos de idade, procurou por ajuda após não conseguir dirigir automóveis (mesmo já tendo a carteira de habilitação). Também não consegue manter relacionamentos afetivos por muito tempo, nem permanecer no mesmo emprego ou planejar a vida financeira.
PERCEPÇÃO DA PRÓPRIA CONDIÇÃO
Vivian disse ser fundamental que a pessoa, primeiro, perceba que algo não está bem em sua vida e que precisa de ajuda especializada. “Muitas pessoas nessa condição acabam pensado ‘eu sou assim mesmo’, mas quando notam que realmente é um transtorno, começam a procurar ajuda, pois os prejuízos que se acumulam são muitos, como na vida financeira e nos relacionamentos”.
Falando a partir de Carira, no Sergipe, Josivania Lessa, neuropsicopedagoga clínica, comentou que naquela pequena cidade ainda há muita resistência das pessoas adultas em se informar sobre o TDAH e buscar por ajuda especializada, mesmo com sinais evidentes. Algumas, quando recebem o diagnóstico, não o aceitam.
Já Márcia Mariano assegurou que a demanda de adultos buscando por atendimento “tem sido crescente, especialmente das pessoas a partir dos 35 anos”.

CAMINHOS PARA O TRATAMENTO
Márcia explicou que o tratamento de alguém com TDAH se inicia a partir do relatório do neuropsicólogo no qual se indica qual profissional deve atuar para a eficácia do tratamento, como um psicólogo, que irá auxiliar nas emoções, enquanto o neuro irá tratar as funções executivas, estimulando o córtex cerebral: “É preciso o trabalho de uma equipe multiprofissional para conseguir êxito no tratamento, além da entrada de uma medicação específica”.
Vivian disse que o tempo de tratamento varia de pessoa para pessoa: “O tratamento começa com uma psicoeducação, explicando a essa pessoa com TDAH que ela não é preguiçosa, nem descontrolada, tirando, enfim, as crenças sobre o que ela é, e explicando o que é o TDAH. Neste processo, é preciso educar também sua família que sempre a achou preguiçosa ou ficou magoada pela pessoa ter ‘falado na lata’ algo que pensava. Também ensinamos coisas em que possam ter dificuldade, por exemplo, fazer uma agenda para cumprir as atividades diárias; aprender a marcar as contas a pagar do mês”.
Vivian comentou que a terapia cognitiva comportamental tem se mostrado eficaz para auxílio aos adultos com TDAH, fazendo com que controlem a própria impulsividade: “trata-se de ensiná-los, ‘olha, deu vontade de retrucar’, espere 5 minutos antes de responder.”.

FALTA DE POLÍTICAS PÚBLICAS
As três entrevistadas destacaram que faltam políticas públicas específicas para adultos com TDAH. Márcia comentou que na cidade de São Paulo, por exemplo, existem mais 30 projetos de lei com propostas para essa parcela da população, mas até agora não foram apreciados pelos parlamentares. “Enquanto deputados e vereadores não tiverem um familiar neurodivergente, para que vivenciem na pele como é, a situação continuará a mesma”, lamentou.
Márcia disse que é fundamental que o tratamento do TDAH se dê logo nos anos iniciais de vida, pois na fase adulta a eficácia já não será a mesma. Muitas famílias, porém, por falta de recursos, aguardam o tratamento pelo SUS, no qual o tempo de espera ainda é grande. Ela também lamentou que as escolas estejam demorando a dar os devidos encaminhamentos para crianças neurodivergentes.
Vivian, por sua vez, recordou que já está na Câmara dos Deputados, desde junho, um projeto de lei que contempla maior atenção às pessoas com TDAH, mas por enquanto sem previsão de apreciação.
“A todos recomendo: façam a sua avaliação. Se você se identificou com alguns dos sintomas que nós falamos no programa, procure por tratamento e, tendo o diagnóstico, faça terapia, pois a partir disso a sua vida vai mudar tanto: menos sofrimento, menos prejuízo, o casamento vai melhorar, as suas relações interpessoais vão melhorar”, disse Vivian.
Márcia também recomendou ao adulto que faça uma avaliação neuropsicológica para saber quem de fato é, e que não se contente com rótulos de “eu sempre fui estranho”, “eu sempre fui esquisito” etc. Para mais informações, o contato de WhatsApp dela é o (11) 99663-5350.
ASSISTA A ÍNTEGRA DO PROGRAMA DE 25 DE JUNHO
