‘A pele negra é mais resistente ao sol’: verdade ou racismo velado?
O cuidado com a saúde da pele negra foi o tema em destaque na edição de 29 de janeiro do programa “SUS nosso de cada dia”, apresentado por Adão Alves e Marcos Rubens, na rádio comunitária Cantareira FM, em uma reflexão feito na perspectiva farmacológica, mas também filosófica.
“Não é um cuidado somente estético, mas de como a gente se percebe como pessoa, como grupo, como coletivo das nossas características. Então, se tivermos só um olhar estético, ficaremos em algo muito superficial sobre a pele negra”, comentou, no início do programa, Michelle Barão, mulher negra, mãe de dois filhos, farmacêutica formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com mestrado na mesma instituição, doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e atualmente fazendo pós-doutorado da referida universidade na área de Cosmetologia, trabalhando especificamente com pele negra.
“Ao longo da história, a pele negra sempre foi motivo de rejeição, de tudo aquilo que a sociedade produziu de ruim, de estigma”, observou Adelino Oliveira, mestre em Ciências da Religião pela PUC-SP, doutor em Filosofia pela Católica Portuguesa, com pós-doutorado com ênfase em Direitos Humanos pela USP, e atualmente responsável pela coordenação de pesquisa e pós-graduação no campus de Piracicaba (SP) do Instituto Federal de São Paulo (IFSP).

O AVANÇO NAS PESQUISAS SOBRE A PELE NEGRA
Durante o programa, Michelle explicou que no laboratório da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, cujo responsável é o professor André Baby, que há 20 anos faz estudos na área de proteção solar, estudos específicos sobre a ação da radiação ultravioleta emitida pelo sol na pele negra só foram iniciados em 2023, com o ingresso da pesquisadora no laboratório.
“É muito comum que se ache que a ciência é uma coisa imparcial, que os cientistas estão acima do bem e do mal, ou que só fazem a ciência para dizer ‘isso funciona’, ‘isso não funciona’, ‘isso dá certo’, ‘isso não dá certo’, mas quem faz ciência é pessoa e toda pessoa escolhe o que quer estudar ou não. Então vejam: na USP, uma das maiores universidades do país e da América Latina, em um país em que o maior percentual da população se autodeclara negra; em um país que recebe muita radiação solar, essa preocupação com a pele negra é muito recente ainda. E por quê? Porque a maioria dos cientistas não é uma pessoa negra, não sabe como funciona, e tem a ideia de que a pele negra é mais resistente e não precisa tanto de protetor solar, pois a nossa pele não fica vermelha, não coça, mas há coisas que acontecem na pele e que a gente não vê”, destacou Michelle.
Adelino ressaltou que sempre é tempo de colocar a pessoa negra no lugar da dignidade que deve ter: “Quando a gente avança no conhecimento da pele, no conhecimento específico sobre as doenças de uma população e de seus problemas, isso mostra que a sociedade avançou do ponto de vista civilizacional”. De acordo com o professor de Filosofia, a pesquisa que vem sendo conduzida por Michelle pode reverberar para outras reflexões, como sobre a condição de trabalho das pessoas negras expostas por longos períodos ao sol e quais produtos específicos podem ser desenvolvidos para proteger a pele destas pessoas no cotidiano de trabalho, de profissões menos valorizadas e que se desgastam mais. Observou, ainda, a ausência de pesquisas sobre a pele negra, “é como se nós não tivéssemos o direito de também cuidar da pele”.

RACISMO ESTRUTURAL VELADO
Michelle comentou ser indispensável que se garanta o acesso das camadas mais pobres da população ao protetor solar, um item que por ser considerado um cosmético ainda é muito caro no Brasil.
“A maioria da nossa população é negra e com pouco poder aquisitivo. E assim, às vezes entre comprar um protetor solar e algo que é mais essencial, como uma comida papara se alimentar, ela vai escolher pelo que é mais essencial. Há uma grande quantidade de trabalhadores negros que está exposta à radiação solar e isso lhe trará problemas de pele. Temos de ter dados científicos robustos sobre o porquê essa pele deve ser cuidada, para, quem sabe, no futuro, haver políticas de saúde pública para distribuir produtos para cuidado da pele no SUS”, prosseguiu a farmacêutica.
Adelino recordou que a pele negra historicamente foi vilipendiada e que o fato de haver poucas pesquisas referentes à saúde da população negra revela a seletividade da pesquisa científica “e coloca por terra a ideia de uma pseudoneutralidade científica”.
Ainda de acordo com o doutor em Filosofia, pode-se considerar esta falta de pesquisas como um tipo de racismo, “pois não somos atendidos em algo que é tão urgente para nós, o cuidado com a pele”. Ele também recordou que o pacto da branquitude tem assegurado privilégios a um grupo, a população branca, “que conta com todo um desenvolvimento científico, médico e farmacêutico, para cuidar que sua pele tenha saúde e esteja menos sujeita a exposição, enquanto a população negra foi alijada deste tipo de conhecimento. Este é um ponto para pensarmos a complexidade do que é uma sociedade estruturalmente racista”. E enfatizou: “Há todo um discurso de que a pele negra não precisa de qualquer tipo de atenção, aquela fala de que o negro é talhado para um sol ardente, que essa pele aguenta tudo e outras coisas assim”.
Nesse sentido, Adelino ressaltou ser importante que haja fomentos para pesquisas sobre a saúde da população negra, com recursos para pesquisadores negros: “É preciso entender a demanda dessa população”.

METODOLOGIA DE PESQUISA E RESULTADOS
Michelle Barão contou detalhes sobre como é feita a pesquisa com a pele negra no laboratório da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP.
“Os participantes vão até o laboratório e fazemos com uma fita, como se fosse um durex, a retirada do estrato córneo, que é a camada mais superficial da pele. Nesse material é simulada a radiação ultravioleta em um equipamento no laboratório e, depois, se faz um comparativo de resultados obtidos com amostras de um grupo de pessoas brancas e um grupo de pessoas negras”, explicou.
“Para nossa surpresa, as alterações causadas pela radiação na pele negra foram absurdamente mais altas do que nas pessoas brancas. Houve aumento de substâncias produzidas após essa camada de pele ser exposta à radiação ultravioleta: em pessoas brancas, este aumento foi de 268%, já nas pessoas negras, foi de 458%. Essas substâncias provocam uma desorganização da pele, a função barreira fica prejudicada e aí a pele fica mais vulnerável para outras coisas como poluição, microorganismo e outras substâncias”, contou.
Michelle comentou ainda que ao longo do processo de pesquisa foram feitas outras descobertas sobre como a produção dos protetores solares não leva em conta as especificidades das pessoas negras: “Por exemplo: quando a gente vai comprar o protetor solar, tem o FPS, o Fator de Proteção Solar, e sempre se fala que tem de ser de fator alto. Entretanto, o teste nunca é feito na pele de pessoas negras”, disse, explicando que a técnica predominante envolve testar os protetores em peles brancas para ver o quanto protegem da formação de uma vermelhidão na pele após a exposição de raios ultravioletas.
“O protocolo exige que a pele seja branca e se parte do pressuposto que se protegeu a pele branca, provavelmente protegerá outras peles, inclusive a pele negra, mas o que temos visto é que não é bem assim”, contou a especialista, defendendo que os protocolos de testes de protetor solar considerem as diferenças de características de pele e que haja protetores específicos para cada tipo de pele.
Em um segundo momento da pesquisa, foram feitos testes com a pele na qual foi aplicada protetor solar. “Vimos diferenças de respostas entre a pele branca e pele negra. Há filtros que são melhores para pele negra do que para a pele branca, e no comparativo geral a pele negra se mostrou mais suscetível à radiação solar.”.
Diante dos resultados, Michelle disse que vai se consolidando a ideia de que a pele negra se comporta de modo diferente do que a branca diante da radiação solar, sendo mais vulnerável, bem como que os protetores solares que existem no mercado não atenderiam à devida proteção da pele das pessoas negras.
“A ideia, no futuro, é que entendendo como a pele se comporta, possamos pensar em produtos específicos para a pele negra, para que seja bem cuidada e para que as pessoas tenham uma qualidade de vida melhor”, comentou, assegurando que hoje mesmo os protetores que são vendidos como específicos para a pele negra não foram efetivamente testados em pessoas negras.

CUIDADOS FUNDAMENTAIS
Tão importante quanto proteger a pele negra dos raios ultravioletas é mantê-la hidratada, pois conforme explicou Michelle Barão a pele negra é mais seca e precisa de um cuidado maior em relação à hidratação: “Também são importantes produtos que vão diminuir a perda de água da pele, pois se ela fica muito seca, essa função de barreira também fica comprometida”.
Por fim, Michelle relembrou cuidados básicos para os cuidados com a pele:
– Usar protetor solar, passando a cada duas horas diante da exposição ao sol: “O protetor não é uma armadura, pois as substâncias que estão nele vão se degradar por conta da radiação, então você precisa reaplicar protetor neste intervalo de tempo”;
– Evitar os horários de maior pico de radiação, entre 10h e 15h;
– Usar chapéus, bonés e roupas de manga comprida, para o caso de exposição frequente ao som no decorrer dos trabalhos;
– Beber bastante água;
– Usar hidratante frequentemente.
ASSISTA A ÍNTEGRA DO PROGRAMA DE 29 DE JANEIRO
