Comunicadora da Cantareira FM palestra no projeto Vozes da Brasilândia sobre a entrevista jornalística

A sexta oficina do projeto Vozes da Brasilândia, desenvolvido pela Associação Cantareira, com o apoio do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania do Governo Federal, abordou, em 25 de julho, a temática da entrevista jornalística.

O Vozes da Brasilândia busca fortalecer uma rede de guardiãs da memória no território, especialmente mulheres negras. São 20 participantes, selecionadas considerando, entre os pré-requisitos, seu histórico de atuação em diversas entidades do território.

A jornalista Elisângela Silva, comunicadora da rádio comunitária Cantareira FM, foi a palestrante na ocasião e escreve a seguir, em primeira pessoa, a respeito desta experiência.

ENTREVISTA E MEMÓRIA:
APRENDIZADOS NA OFICINA DO PROJETO VOZES DA BRASILÂNDIA

Tive a oportunidade de dialogar com as guardiãs da memória sobre um tema que faz parte da minha trajetória profissional: como preparar e conduzir uma entrevista. O encontro foi no dia 25 de julho, na sede da Associação Cantareira, localizada na Rua Jorge Pires Ramalho, 71, Vila Isabel.

No encontro, conversei com as lideranças sobre os principais aspectos para a construção de uma boa entrevista, desde a pesquisa do tema e do entrevistado até a postura que devemos ter diante da pessoa que está compartilhando uma parte de sua história de vida conosco.

A arte de fazer entrevistas, como conhecemos hoje, surgiu em meados do século 19, nos Estados Unidos, a partir de um contexto de investigação policial. Com o passar do tempo, essa prática social se espalhou pelo mundo e se tornou um dos principais instrumentos para obter informações de interesse público, como nas entrevistas jornalísticas.

Para explicar o conceito de entrevista, apresentei uma definição baseada na visão do professor Luiz Beltrão, jornalista e pesquisador em comunicação. Para ele, a entrevista é a técnica de obter matérias de interesse jornalístico por meio de perguntas e respostas.

Foto: Fernando Sena

A partir daí, um dos pontos de reflexão que propus às guardiãs foi pensar em como o acesso às entrevistas mudou ao longo dos anos, acompanhando as transformações na comunicação e na sociedade.

Antes da internet, os veículos de comunicação de massa, como rádio, televisão, revista e jornal, eram os principais meios pelos quais as pessoas tinham acesso às entrevistas. Com a chegada da internet, essa relação mudou. Surgiram formatos de conteúdo, como podcasts, videocasts, lives, redes sociais e sites de notícias, ampliando o acesso às entrevistas a qualquer momento e lugar. Até mesmo o tradicional telefone, tão utilizado para a realização de entrevistas, deu lugar, em muitos casos, às interações por meio de aplicativos de mensagens pelo celular.

Se a gente pensar que, antes da internet, era necessário assistir a um telejornal ou ouvir um programa de rádio para acompanhar uma entrevista e, caso não fosse possível estar naquele momento, era preciso esperar uma reprise ou ler sobre o assunto no jornal do dia seguinte, percebemos que existia uma barreira de acesso a essa prática social tão importante.

A internet veio para mudar essa lógica, criando formatos de conteúdo e permitindo que as entrevistas sejam lidas, assistidas e ouvidas a qualquer hora e lugar. Também conversamos sobre um assunto muito atual: a Inteligência Artificial (IA). Enquanto se discute mundo afora seu uso e sua influência nos mais diversos segmentos, é importante lembrar que a entrevista também foi afetada por essa tecnologia.

Já é possível encontrar nas redes sociais conteúdos que simulam entrevistas produzidas por IA. Por isso, destaquei a importância de utilizar essa ferramenta de maneira responsável e, principalmente, de desenvolver uma postura crítica diante desses conteúdos. Eles podem trazer desinformação e distorções, reforçar narrativas preconceituosas e até estimular violências. Apresentei às guardiãs alguns exemplos de entrevistas feitas por IA disponíveis em perfis nas redes sociais, para refletirmos sobre esse novo cenário.

Foto: Ana Melo

Entrevista e memória

Quando falamos sobre preservação da memória de um território, como a Brasilândia, a entrevista também é uma importante ferramenta de registro histórico. Com ela, conseguimos reunir dados qualitativos, como percepções, olhares e vivências, que ajudam a compreender como aquele espaço foi construído e como se desenvolveu a vida de seus moradores, com suas lutas, conquistas e desafios.

A partir dessa perspectiva, sugeri um exercício prático: apresentei o perfil fictício de um morador antigo de um bairro que havia mobilizado a vizinhança em busca de melhorias para o local. Cada guardiã teve a missão de pensar em uma pergunta que pudesse iniciar o resgate dessas memórias.

As palavras-chave presentes nas perguntas foram anotadas por mim na lousa, formando uma nuvem de palavras. Foi interessante perceber a diversidade de olhares e possibilidades que surgiram a partir de uma mesma história.

Depois, apresentei um passo a passo de como preparar uma entrevista: começando pela pesquisa do tema, passando pela pesquisa sobre o entrevistado, pela elaboração do roteiro de perguntas e chegando a um dos pontos que considero mais importantes: saber ouvir o outro.

Conversamos sobre os diferentes estilos de entrevista: a estruturada, que segue um roteiro pré-definido de perguntas; a semiestruturada, que parte de um pré-roteiro, mas permite novos questionamentos durante a conversa; e a não estruturada, que não segue um roteiro rígido e se aproxima mais de um bate-papo.

Refletimos sobre a responsabilidade de quem conduz uma entrevista. Se a entrevista é uma prática social importante, precisamos evitar atitudes como: interromper o entrevistado a todo momento (prejudicando seu raciocínio); obrigá-lo a conceder a entrevista; faltar com respeito, intimidá-lo ou colocá-lo em uma situação constrangedora.

Para encerrar a oficina, as guardiãs, em duplas, fizeram uma atividade prática: uma participante assumiu o papel de entrevistada e a outra, de entrevistadora, a partir de perfis de pessoas que atuam em ações pelo território.

Mais do que aprender técnicas de entrevista, acredito que esse exercício foi uma preparação importante para os próximos trabalhos de registro da memória que serão realizados pelo território.

Foi uma experiência muito especial poder compartilhar um pouco da minha experiência com entrevistas e, ao mesmo tempo, aprender com as histórias, os olhares e as vivências dessas mulheres que têm um papel importante na preservação da memória da Brasilândia.