‘O SUS nosso de cada dia’ entrevista os professores Renato Janine Ribeiro e Verônica Yujra

A saúde e a educação atendem às mesmas pessoas, mas nem sempre caminham juntas. Foi a partir dessa constatação que o programa “O SUS nosso de cada dia”, da rádio comunitária Cantareira FM, promoveu, em 21 de julho, um debate sobre políticas públicas, formação profissional e desigualdade na periferia de São Paulo.

Participaram da conversa a dentista Verônica Yujra, professora universitária; e Renato Janine Ribeiro, professor da Universidade de São Paulo (USP) e ex-ministro da Educação.

O programa, apresentado pelos comunicadores Marcos Rubens e Adão Alves, ocorreu dias antes do primeiro Seminário de Saúde das Populações Migrantes, Refugiadas e Apátridas, realizado em 7 de agosto na Faculdade de Saúde Pública, razão pela qual o evento foi muito mencionado na ocasião.

Aproximação e superação

Marcos Rubens abriu a conversa lembrando que saúde e educação já fizeram parte de um mesmo ministério. Criado em 1930, o Ministério da Educação e Saúde foi dividido em 1953.

“É o único ministério criado no Brasil como consequência de uma revolução”, comentou Renato Janine Ribeiro, ao referir-se à criação da pasta inicialmente chamada de Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública, no contexto da Revolução de 1930.

Para Marcos, a separação administrativa não muda o fato de que os dois serviços atendam a uma mesma população: “Não existe um sujeito que é atendido pela educação e um sujeito que é atendido pela saúde. Todos são constitutivos da mesma pessoa”,

Verônica Yujra recordou que acompanhou, ainda como estudante e integrante do movimento estudantil, uma tentativa de aproximação entre os ministérios no início dos anos 2000. A proposta era rever as diretrizes dos cursos da área da saúde e fazer com que a formação universitária respondesse melhor às necessidades do País.

Na avaliação da professora, havia um descompasso evidente entre a formação oferecida e a realidade do sistema público. “As universidades públicas formavam para o serviço privado”, resumiu. Ela citou a odontologia como exemplo: os profissionais eram preparados principalmente para o mercado particular, embora uma parcela expressiva da população dependesse do Sistema Único de Saúde (SUS).

Para quem os profissionais são formados?

Verônica também criticou a presença de discursos contra o SUS e a educação pública, inclusive entre pessoas ligadas à universidade: “Às vezes, professores universitários que tiveram acesso a todas as informações e à literatura fazem um discurso anti-SUS e antieducação pública”, relatou.

Para ela, a defesa dos dois sistemas não deveria ficar restrita a trabalhadores ou especialistas: “Todo cidadão tem de defender a educação pública e defender o SUS, porque são direitos humanos”.

A fala abriu espaço para que Renato Janine Ribeiro comentasse sobre o Mais Médicos, programa que ele acompanhou durante sua passagem pelo Ministério da Educação. A iniciativa, conforme recordou, tinha uma frente mais imediata, com a presença de médicos formados no exterior em regiões com carência de profissionais, e outra voltada ao futuro da formação médica.

Essa segunda frente previa a abertura de cursos em regiões que não contavam com faculdades de Medicina. Renato Janine lembrou que a oferta de leitos hospitalares também precisava ser considerada. “Você não pode ter faculdade de Medicina sem leitos”, afirmou.

Na prática, conforme ressaltaram os debatedores, a discussão sobre saúde envolve também tratar sobre educação: Quais profissionais estão sendo formados? Onde irão trabalhar? Conhecem as necessidades da população atendida?

Ensino público e a residência social

Em outro momento, Renato Janine fez uma distinção entre ensino gratuito e ensino público. Para ele, uma universidade pode não cobrar mensalidade e, ainda assim, formar pessoas para interesses estritamente privados, sem compromisso com a sociedade que a financia.

“Isso produz um efeito muito perverso que eu chamo de privatização do ensino público”, explicou. O professor fez questão de esclarecer que não estava falando em entregar uma universidade pública ao setor privado, mas do uso individual de uma formação construída com recursos públicos.

Ele contou o caso de um vizinho que, depois de ver a filha aprovada em uma universidade pública, usou o dinheiro que seria destinado a mensalidades para comprar um imóvel e obter renda com o aluguel. “É inteiramente dentro da lei. Não é ilegal, mas mostra essa ideia de que, ao não pagar o curso, você está obtendo um bem privado, um bem que você não socializa, que você não reparte”, analisou.

A partir daí, Ribeiro apresentou a proposta de uma “residência social”, inspirada na residência médica. A ideia seria levar recém-formados de diferentes áreas, como Direito e Arquitetura, para conviver com comunidades mais pobres e conhecer de perto os problemas enfrentados por elas.

“Residência social é quando os recém-formados vão conviver com gente mais pobre”, definiu. Ao falar sobre a responsabilidade coletiva na formação de uma pessoa, citou um provérbio moçambicano: “Para criar uma criança, você precisa de uma aldeia”.

O custo de manter políticas públicas

O financiamento do SUS e da educação também entrou na conversa. Renato Janine contestou a afirmação de que o Brasil teria os impostos mais altos do mundo, e citou os casos da França, Alemanha e os países nórdicos, que arrecadam mais e oferecem serviços públicos mais abrangentes.

Ele mencionou ainda a diferença na tributação sobre heranças para defender que o debate sobre financiamento precisa levar em conta a distribuição da riqueza, e não apenas os impostos pagos pela população no consumo e sobre a renda do trabalho.

Marcos Rubens recuperou uma distinção entre “sociedade” e “social”. Segundo ele, a primeira palavra costuma aparecer ligada a quem participa da formulação das leis e das políticas; a segunda, muitas vezes, é usada para falar das camadas populares e das ações assistenciais destinadas a elas.

Renato Janine relacionou o tema ao livro “A Sociedade contra o Social”, de sua autoria. “Se a gente quiser ter um SUS mais forte e uma educação que dê conta dos desafios atuais, precisa de professores mais bem formados, que vão requerer um pagamento melhor”, afirmou.

A desigualdade vista do território

O debate voltou para a Brasilândia, onde a rádio Cantareira está instalada. Marcos citou levantamentos da Rede Nossa São Paulo e afirmou que o distrito aparece há anos entre os últimos colocados nos indicadores de qualidade de vida, tendo sido a pior avaliada neste indicador em 2025.

Outro problema apontado por Marcos Rubens é a falta de cursos superiores na Brasilândia. Os moradores precisam se deslocar para outras regiões da cidade para estudar, o que pesa especialmente para quem depende do transporte público e precisa conciliar estudo, trabalho e cuidados com a família.

Adão Alves acrescentou a questão da moradia. Segundo ele, a ocupação de áreas de morro e de terrenos pouco adequados contribuiu para o adensamento do bairro. “Temos verdadeiros formigueiros humanos”, descreveu.

Ainda de acordo com Adão, a dificuldade não está apenas nas condições das casas. A falta de pertencimento e de uma identidade coletiva também atrapalha a busca por soluções. “A saúde e a educação são bens coletivos. Não dá para pensar nisto como bens individuais”, defendeu.

Verônica observou que, no Brasil, aquilo que é público costuma ser tratado como algo que “não é de ninguém”. Em outros lugares – disse – prevalece a ideia de que o espaço público pertence a todos e deve ser cuidado por todos.

Adão resumiu a reflexão com uma situação simples: “O banco da praça, se estiver quebrado, quem não senta talvez não seja eu, que tenho uma casa. Muitas vezes, quem não vai ter um banco inteiro para sentar é a pessoa em situação de rua”.

Diversidade nas salas de aula

Verônica defendeu que a educação tenha uma política pública tão organizada quanto a existente no SUS. Também relacionou as desigualdades educacionais à falta de conteúdos sobre relações étnico-raciais nos primeiros anos escolares e à necessidade de aproximar a escola das ações desenvolvidas pelo sistema de saúde.

Renato Janine recordou as mudanças no perfil dos estudantes dos institutos federais e o avanço das políticas de cotas. Ele lembrou que o primeiro aluno negro de sua turma de Filosofia na USP ingressou por volta do ano 2000. Desde então, tem havido aumento da presença de estudantes negros, indígenas e latino-americanos em cursos concorridos, inclusive em Medicina.

Verônica relatou a própria experiência como dentista da Estratégia Saúde da Família em bairros como Vila Nova Cachoeirinha e na zona Leste. Parte de seu trabalho, era feito dentro das escolas, por meio do Programa Saúde na Escola.

Nem sempre, segundo a dentista, essa atuação era reconhecida como parte do processo educativo. “Às vezes, eu percebia que o Programa Saúde na Escola era desvalorizado dentro da própria educação”, recordou. Em algumas situações, as atividades eram canceladas para dar lugar a outras tarefas, passando a impressão de que se falar de saúde não fizesse parte da formação dos alunos.

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