Projeto Vozes da Brasilândia aborda a contribuição do patrimônio das memórias negras na periferia

A quarta oficina do projeto Vozes da Brasilândia, realizada em 20 de junho na sede da Associação Cantareira, na Vila Isabel, tratou sobre o tema “Patrimônio das Memórias Negras na Periferia”.

Desenvolvido pela Associação Cantareira, com o apoio do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania do Governo Federal, o Vozes da Brasilândia busca fortalecer uma rede de guardiãs da memória no território, especialmente mulheres negras. As 20 participantes foram selecionadas considerando, entre os pré-requisitos, seu histórico de atuação em diversas entidades pelo território.

O palestrante convidado foi Fernando Ripol (@fernandoripol), músico, compositor e fundador do Samba do Congo. Ele dialogou com as lideranças comunitárias sobre o valor cultural, histórico e social do patrimônio das memórias negras presentes na periferia.

Fotos: Fernando Sena

O CONCEITO DE PATRIMÔNIO

A oficina começou com todos cantando ‘A Força de um Cantar’, composição do próprio Ripol em parceria com Márcio Bonfim. Em seguida, foi proposta uma reflexão sobre o conceito de patrimônio, geralmente associado apenas aos museus. Na realidade, porém, também está presente nas casas, no traçado das ruas, no comércio local e em diversos elementos que preservam a identidade da periferia, mesmo diante das transformações ocorridas ao longo dos anos.

“Falar do patrimônio nas periferias é pensar além dos mármores do Centro. É preciso olhar para o chão de terra batida, a formação social, cultural, arquitetônica que está nas bordas da cidade e de seus protagonistas. Pensar que as memórias estão apenas nos museus é um pensamento elitizado que nos ensinaram por muito tempo”, disse Ripol.

Com o objetivo de fortalecer o entendimento e atuação das guardiãs no território, outros aspectos relacionados às memórias negras também foram abordados. Entre eles, destaca-se o patrimônio vivo, presente na oralidade, nas vivências, na culinária e nas manifestações culturais, evidenciando toda a riqueza produzida nas regiões periféricas.

PAN-PERIFERISMO

Outro tema presente na oficina foi a ancestralidade, apresentada sob uma perspectiva diferente da habitual. Mais do que fazer com que cada pessoa compreenda de onde veio, o que carrega, transmite e defende, Ripol propôs um olhar voltado para o presente e o futuro. Segundo ele, tudo acontece simultaneamente: as ações do presente constroem o amanhã e permitem projetar o futuro.

Diante da multiplicidade de contribuições das memórias negras para a periferia, o palestrante também apresentou o conceito de Pan-Periferismo. De acordo com ele, trata-se de um movimento de fortalecimento e valorização que reconhece a periferia como um organismo social e econômico pulsante, responsável por movimentar o comércio, a indústria e os serviços da cidade.

“A periferia é a responsável por mover a roda econômica e social da cidade. Se pegarmos as outras periferias, não só aqui, mas de outras cidades e países, é a mesma coisa. Ou seja, as periferias interligadas entre si fazendo as coisas acontecerem”, enfatizou.

Ainda de acordo com Ripol, o Pan-Periferismo fortalece o diálogo entre as periferias sobre questões sociais, empreendedorismo, valorização do território e capital intelectual, formando uma ampla rede de conhecimento periférico.

Anatalia Almeida, colaboradora na Pastoral da Mulher e integrante do grupo de mulheres Política e Espiritualidade, comentou sobre ser escolhida para participar do projeto e reforçou a valorização do território por meio do pan-periferismo.

“O projeto é maravilhoso e é uma honra ter sido escolhida como uma das guardiãs da memória na Brasilândia. Moro na região há 51 anos e tenho uma história de participação nas comunidades eclesiais de base. A minha vida profissional também é na Brasilândia, onde sou professora na rede municipal. O pan-periferismo nos mostra como é necessário valorizar a economia e o comércio do lugar onde vivemos e nos reconhecemos. Viver no território onde as pessoas reconhecem você pela sua atuação e pela riqueza que esse trabalho nos trouxe é muito importante”, disse Anatalia.

PRÓXIMA OFICINA
A quinta oficina do projeto será realizada na tarde do sábado, 11 de julho, na sede da Associação Cantareira, com o tema Patrimônio Cultural e Cidadania: combate às violências de gênero, raça e idade, com Luiza Akimoto, musicista, compositora e documentarista.