‘Comunidade em Foco’ destaca as iniciativas de atenção aos idosos do Instituto Gera
Desenvolver ações na perspectiva de assegurar o envelhecimento e a velhice digna, especialmente para as pessoas idosas negras, é o foco do Instituto Gera, que realiza atividades em sua sede na região central da capital paulista, além de cursos e oficinas em outros locais da cidade.
Na edição de 21 de maio do programa “Comunidade em Foco”, da rádio comunitária Cantareira FM, Marcela Teodoro, presidente do Instituto Gera, foi entrevistada por Adão Alves.
“Temos um trabalho intergeracional. Quando a gente pensou no nome de Instituto Gera foi para falar em gerações, tanto é que nossa filosofia é ‘Instituto Gera, aproximando gerações’. E por conta da nossa experiência com a população idosa, os nossos maiores projetos são voltados para a pessoa idosa”, detalhou Marcela.
“O Instituto Gera nasceu de um sonho de a gente trabalhar com as diversas velhices. Trabalhamos com pessoas idosas em situação de rua, pessoas idosas negras, pessoas idosas LGBT+, pessoas idosas com deficiência”, prosseguiu Marcela Teodoro.

LETRAMENTO DIGITAL
Desde 2020, o Instituto tem realizado o projeto “Letramento Digital para Pessoas Idosas”, com pessoas de São Paulo e de outros estados já tendo participado.
“É muito bom, porque desmistifica a questão de que a pessoa idosa não tem condição de aprender ou que não quer aprender a inclusão digital. Isso não é real”, assegurou Marcela, detalhando que a partir de 2023 o curso foi expandido para outras localidades, não apenas na sede do Instituto na região central, já tendo alcançado mais de 600 pessoas.
Marcela explicou que embora na sede da instituição e em outros locais onde o curso é oferecido haja a disponibilidade de computador, a maioria das pessoas faz o curso usando o próprio telefone celular.
“O que a gente mais ouve é o quanto que muda a vida da pessoa idosa quando começa a fazer o curso de letramento digital. Não é só para aprender a mexer no celular. Serve também para que tenha mais segurança ao utilizar o celular, pois hoje tudo é digital: tem de mandar um e-mail, aperta o QR Code”, disse.
AUTONOMIA E CUIDADO COM GOLPES
Adão comentou que o letramento digital é fundamental para ocasiões como fazer o check-in em uma viagem para rodoviárias e aeroportos. Também para o uso das funções de internet banking, seja no celular, seja no notebook.
O comunicador enfatizou que as pessoas devem estar atentas às mensagens que recebem em seus celulares para que não caiam em golpes digitais, como os de falsos links para clicar, supostamente vinculados a bancos, ou de suposta compra indevida com o cartão de crédito. “Desligue na hora, é golpe! Se você clicar em qualquer tela naquele momento vão clonar seu aparelho. Não tecle”.
Marcela comentou que outro golpe muito comum é de ligarem para a pessoa e dizerem que ela tem uma dívida bancária e precisa ligar para determinado número para regularizar a situação, muitas vezes, mesmo sem a pessoa ter conta no tal banco “Não atenda, não clique. São as primeiras regrinhas básicas do curso para as dicas de segurança no letramento digital. A gente, de fato, precisa ter muitas dicas de segurança digital, mas, ao mesmo tempo, não pode ter medo da internet. A gente precisa aprender estar nela com segurança”.
A presidente do Instituto Gera explicou, ainda, que o curso de letramento digital é ofertado para turmas de, no máximo, 20 pessoas, para que haja uma orientação individual e não genérica.
Marcela destacou que a maioria das pessoas que procura o curso deseja ter autonomia no uso do ambiente digital: “Elas nos falam ‘quero ter a minha autonomia, a minha independência digital, não quero mais pedir para alguém me ajudar’”, e que, ao término do curso, dizem ter vontade de aprender ainda mais sobre como lidar com as questões do mundo digital.
Adão destacou que muitas coisas mudaram no horizonte para as pessoas idosas, mas que elas não devem ter medo: “Se você não se inteirar do mundo, o mundo vai passar sem você”, disse, comentando ainda que Associação Cantareira, em seu projeto de alfabetização de jovens e adultos, também está atenta a esta realidade e planeja dar orientações de letramento digital aos educadores para que possam repassá-los aos alunos. “A gente precisa motivar as pessoas a conhecerem o mundo digital”, insistiu.

OUTRAS AÇÕES DO INSTITUTO GERA
Ao longo da entrevista, Marcela Teodoro detalhou que a instituição também tem um curso de alfabetização para pessoas idosas, conduzido de forma voluntária pela professora de letramento digital.
Há, ainda, um núcleo de acolhimento e de orientação psicológica, social e jurídica. Os atendimentos acontecem todas as quartas-feiras à tarde, mediante agendamento.
“A gente não faz acompanhamento dos casos, mas dá orientação e encaminhamento de como fazer para resolver alguma questão. Temos uma psicóloga voluntária, um advogado voluntário e a Débora e eu somos assistentes sociais e atendemos também, junto com algumas estagiárias de Serviço Social somente pessoas idosas”, explicou Marcela.
Outra frente de ação é o trabalho em prol das pessoas idosas que residem nos hotéis sociais no centro de São Paulo e que antes viviam em situação de rua. “Nós temos uma parceria com os centros de acolhida que também atendem pessoas idosas que estavam em situação de rua, há turmas específicas para eles”, detalhou Marcela.
Também em favor das pessoas em situação de rua ocorre a ação Solidariedade Não Tem Idade: “A gente distribui kits de higiene para as pessoas em situação de rua. E ao montarmos este kit, pensamos muito na questão da mulher que menstrua. Por conta disso, colocamos absorventes, temos feito pedido de calcinhas, desodorante, sabonete, tudo pensado para que seja mais adequado para as pessoas em situação de rua, em especial às mulheres”.
O Instituto Gera já realizou, no passado, o projeto Triatos, em parceria com uma companhia de teatro, no qual a proposta era falar do Estatuto da Pessoa Idosa, por meio da apresentação com bonecos de fantoche, seguida de uma roda de conversa sobre a violência sofrida por esta população: “Nosso objetivo era levar informação, conhecimento, troca de experiências e, acima de tudo, um pensar na questão cultural”.
As apresentações aconteceram em diferentes CEUS da cidade: “E o interessante era que após assistirem o espetáculo, as pessoas percebiam que já tinham sofrido uma violência igual, mas que, até então, não tinham identificado que era violência”.
Marcela também lembrou que o Instituto Gera tem desenvolvido documentários: um tratou sobre questões do envelhecimento; outro sobre o afro-envelhecer na Cidade Tiradentes; além de um sobre a importância do envelhecimento ativo e saudável na perspectiva da questão cultural. Em 30 de maio, o Instituto lançou o documentário “Ecos de Sabedoria – vozes que não envelhecem”, que conta a história de quatro mulheres idosas, líderes de movimentos sociais.

O TRABALHO DE ASSISTÊNCIA SOCIAL
Com mais de 20 anos de experiência como assistente social, Marcela comenta que além de questões financeiras, muitas pessoas passam à condição de viver nas ruas após dificuldades de convívio familiar, questões de saúde mental, depressão, alcoolismo e vício em drogas.
Ela falou ainda sobre as peculiaridades de sua profissão: “A assistente social não ajuda. Ela trabalha para viabilizar e garantir os direitos sociais da população que necessita. É claro que há questões urgentes, benefícios emergenciais, que, de fato, a assistente social viabiliza”.
Adão enalteceu os trabalhos dos assistentes sociais: “É um profissional necessário para os dias atuais, mas uma sociedade com políticas de inclusão social vai fazer com que as pessoas dependam menos de serviços pontuais. A gente precisa fazer com que as pessoas tenham casa, escola, acesso à cultura”.
Marcela comentou que o trabalho de assistência social não pode se transformar em assistencialismo: “O nosso objetivo fundamental é que as pessoas tenham condição de viver com dignidade. O nosso objetivo maior é que a pessoa tenha autonomia, tenha independência, que a gente faça com que, de fato, ela conheça seus direitos e deveres. Essa questão da informação com qualidade e verdadeira é fundamental para que o serviço social trabalhe para que a pessoa tenha os seus direitos garantidos”.
Para conhecer em detalhes o trabalho do Instituto Gera, acesse: @gera.instituto
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