Projeto Vozes da Brasilândia discute história, memória e inventários participativos com as Guardiãs da Memória
O Projeto Vozes da Brasilândia começou com dois encontros que abordaram, junto com as Guardiãs da Memória, os temas Memória e História; e Inventários Participativos. As oficinas foram na sede da Associação Cantareira, na Vila Isabel, na zona Noroeste da capital paulista, nos 23 e 30 de maio.
Desenvolvido pela Associação Cantareira, com o apoio do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania do Governo Federal, o Vozes da Brasilândia busca fortalecer uma rede de guardiãs da memória no território, especialmente mulheres negras. Ao todo, são 20 participantes, que foram selecionadas considerando entre os pré-requisitos seu histórico de atuação em diversas entidades pelo território.

Memórias individuais que tecem o coletivo
No primeiro encontro, as guardiãs compartilharam suas memórias individuais a partir de objetos trazidos por elas, como fotos, documentos, entre outros. Foi um momento em que as memórias individuais se transformaram em uma memória coletiva, mostrando como essas histórias estão interligadas umas às outras e ao território. Lembranças de lutas, resistência e coragem de mulheres que ajudaram a construir a história da Brasilândia.
Na sequência, o professor Rodrigo Bonciani, do Instituto Favelas (@institutofavelas), palestrante convidado, anotou na lousa as principais palavras de cada relato, como: “Conhecimento e afeto”, “Semear”, “Renovação”, “Tradição”, “Histórias que se cruzam”, “Chão Sagrado”, “Trabalho”, “Lutas”, entre outras. A partir disso, ocorreu a reflexão sobre Memória e História.
Bonciani enfatizou que aquele encontro por si só já era algo histórico. Ele comentou que na concepção de história viva não existe separação entre passado, presente e futuro, pois são parte do mesmo processo. A memória é uma atualização do passado, o que permite que seja recriada no presente.
“Essas memórias e histórias sempre acontecem em uma equação entre espaço e tempo. Não existe uma história sem espaço, sem um lugar para acontecer e temos que prestar atenção nessa relação”, disse.
O professor destacou que as histórias se atualizam sempre que há a oportunidade de recontá-las. “As histórias mudam a cada vez que as contamos. Não existe um passado morto, esse passado está aqui, e relembrar é uma forma de presentificar o passado”, concluiu Bonciani.

Ser guardiã da memória
Durante esta primeira oficina, as lideranças comunitárias foram convidadas a definir o significado de guardiãs da memória em uma palavra. Surgiram definições como “recordações”, “pertencimento”, “oralidade”, “determinação”, “transmissão”, “direito”, “vozes”, “afeto”, “aprendizado”, “passado” etc.
Entre as lideranças comunitárias presentes na estava Rosângela de Macedo Santos, do projeto Sambaqui, que desde 2008 desenvolve um trabalho voltado à valorização das tradições afro-brasileiras com crianças e mulheres.
“Meu trabalho é voltado aos saberes dos antepassados e sempre tive o interesse em organizar isso. Nesse momento de retomada do Sambaqui, participar do Vozes da Brasilândia contempla um sonho de muitos anos, que é ter conhecimento, uma preparação melhor para fazer entrevistas, guardar melhor essas informações que vamos coletar, e levar esse conhecimento para o meu bairro para que outras pessoas continuem. Só estou aqui porque outras pessoas deixaram essas memórias e sou um elo da corrente de transmissão”, ressaltou Rosângela

Inventários Participativos: identificação e preservação da memória
A segunda oficina, em 30 de maio, conduzida pela arqueóloga Tereza Parente, da A Alasca Arqueologia (@a.lasca.arqueologia), que abordou os Inventários Participativos por meio de fichas de projetos de categorias de entrevistas.
A formação começou com a pergunta: “Como contar a história da Brasilândia ou de qualquer outro território sem levar em consideração a participação de quem mora ou ajudou a construir o espaço?”
Tereza Parente explicou que os inventários participativos ajudam na organização dos registros de memória, a partir de objetos, bens e histórias. Para que funcionem, é fundamental que a comunidade esteja no centro de todo o processo de identificação e registro desse patrimônio cultural, indicando o que realmente deve ser preservado e como deve ser preservado.
Trata-se de registro colaborativo focado em saberes, pessoas e memórias vivas, garantindo que esses bens não sejam destruídos ou perdidos. Além disso, trabalhar com os inventários participativos é usar diferentes recursos para inventariar bens culturais, a partir de rodas de conversas, educação patrimonial, atividades de escuta, entre outras iniciativas.
Dentro dessa perspectiva, as guardiãs da memória são peças fundamentais na elaboração dos inventários, que funcionam como ferramentas de gestão do patrimônio cultural, como pontuou a arqueóloga: “As guardiãs têm uma tarefa muito importante, não apenas registrar as memórias, mas de garantir que novas memórias sejam acessadas e preservadas”.
A oficina também marcou o início de uma atividade com a participação das lideranças comunitárias: um mapa da Brasilândia foi disponibilizado para que cada guardiã colocasse os bens culturais presentes no território, uma forma de praticar a construção de um inventário participativo.

Aprender sobre o tema trouxe novas possibilidades para Joana D’ Arc, coordenadora do projeto Vozes Femininas, trabalho voltado a mulheres com deficiência e suas cuidadoras. “Tinha pouco conhecimento sobre inventários participativos. Estou sempre buscando novos conhecimentos e a aula de hoje abriu um leque de possibilidades. Deu-me ideias que nunca tinham passado pela cabeça. Tenho certeza de que será um trabalho que vai agregar muito na minha vida como ser humano e como moradora do território do Brasilândia”, comentou.
Com mais de 20 anos de atuação na área de arqueologia, Tereza Parente destacou que os inventários participativos são fundamentais para o trabalho das guardiãs da memória.
“Inventários participativos são ferramentas potentes para que as guardiãs da memória criem caminhos para reconhecer os bens patrimoniais da Brasilândia e encontrar caminhos para valorizá-los. Uma ferramenta de gestão e identificação do patrimônio que carrega o protagonismo dos próprios moradores que podem escolher o que será preservado”, declarou.

A terceira oficina do Vozes da Brasilândia acontecerá no sábado, 13 de junho, das 13h às 17h, na sede da Associação Cantareira (Rua Jorge Pires Ramalho, 71, Vila Isabel), com o tema “Inventários Participativos por meio de objetos: Preservação de Acervo”, conduzida por Peterson Mendes, pesquisador no Favelas.br, Lab.hum, Unifesp e Instituto Favelas.

| Foto de abertura: Emily de Souza/ Produção textual: Elisângela Silva/ Edição: Daniel Araújo |
