‘Manas e Manhãs’ destaca a atuação do Coletivo Paulo Freire e livro lançado sobre o educador
Com atividades voltadas à divulgação da pedagogia freiriana e à defesa de uma escola pública, gratuita, laica e comprometida com as classes populares, o Coletivo Paulo Freire desenvolve ações de formação, comunicação e preservação da memória da educação pública em São Paulo.
Em entrevista na edição de 24 de abril do programa Manas e Manhãs, apresentado por Simone Preciozo na Rádio Comunitária Cantareira, Geni Rosa Duarte, formada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo com mestrado e doutorado em história pela PUC São Paulo, e Marilene Garcia, professora de Educação Física pela Faculdade de Educação Física de Santo André, pedagoga e psicopedagoga clínica e institucional pela PUC São Paulo, explicaram como o coletivo se organiza.
EM PROL DA MEMÓRIA E DA FORMAÇÃO
A história do coletivo está relacionada à recuperação das experiências desenvolvidas durante a administração de Paulo Freire na Secretaria Municipal de Educação durante a gestão de Luiza Erundina na Prefeitura de São Paulo entre os anos de 1989 e 1992.
Geni Rosa contou que participou dos primeiros anos de organização do grupo e lembrou um encontro realizado em 2019 para marcar os 30 anos daquela gestão. A atividade reuniu profissionais da educação e pessoas que haviam participado da administração municipal.
Para Geni, o encontro também foi uma forma de fortalecer a resistência pela educação de qualidade – em meio aos recorrentes ataques do governo Jair Bolsonaro – e para a defesa do legado freiriano: “Foi um momento de força que nós tivemos, de encontro e de tomada de força para resistir”.
Depois desse período, o coletivo passou a realizar lives, mesas de debate, rodas de conversa e atividades de formação e estruturou-se melhor.
“Hoje em dia, a gente tem uma estrutura dentro do coletivo com grupos de trabalho e com a divisão regional em diferentes partes da cidade para fortalecer essa luta e essa resistência em defesa da escola pública, gratuita, laica e comprometida com as classes populares”, afirmou Geni.
Marilene Garcia participa dos grupos de Formação e Comunicação. Ela contou que ingressou no coletivo durante um processo de reorganização iniciado no período da pandemia: “Eu estou participando com muita vontade, muita dedicação ao coletivo”.
O trabalho do grupo, segundo Marilene, tem como referência as teorias e os estudos de Paulo Freire, com atenção à importância da escola pública, do professor e de uma educação capaz de desenvolver uma visão crítica sobre a realidade.

‘PAULO FREIRE: UM HOMEM ENCANTADO’
As entrevistadas também falaram sobre o livro “Paulo Freire, um Homem Encantado”, produzido pelo coletivo, como uma das iniciativas destinadas a ampliar o acesso ao pensamento de Paulo Freire, sem substituir as demais frentes de atuação do coletivo.
O livro foi concebido para aproximar Paulo Freire de leitores que não necessariamente procuram uma publicação acadêmica. A obra reúne depoimentos de pessoas que conviveram com o educador, trabalharam com ele ou participaram de experiências ligadas à educação, além de imagens, cores e outros elementos visuais.
“Esse livro foi pensado e foi gestado com o objetivo de trazer Paulo Freire mais perto das pessoas, mas não como um livro acadêmico”, explicou Geni, destacando que a publicação procura apresentar um educador mais próximo e acessível ao público.
“Pensamos em um livro que fosse mais afetivo, que trouxesse um Paulo Freire mais próximo das pessoas. É um livro bonito, colorido, cheio de gravuras, de cores, para que seja realmente um livro de leitura agradável”, acrescentou.
O conteúdo foi organizado a partir de depoimentos reunidos em um e-book produzido durante as comemorações dos 100 anos de Paulo Freire.
Geni explicou que o coletivo selecionou trechos de relatos para compor os capítulos da nova publicação: “São depoimentos que falam sobre o Paulo Freire por pessoas que o conheceram, por pessoas que trabalharam com ele, por pessoas que trabalharam na rede, na educação, que foram colegas das universidades em que ele trabalhou”.
A estrutura do livro permite diferentes formas de leitura. “Como é um livro amplo, ele pode ser lido a partir do fim, a partir do começo, a partir do meio, para que fosse realmente um encontro com Paulo Freire”, afirmou Geni.

O DIÁLOGO COM PROFESSORES E ESTUDANTES
Parte importante da atuação do coletivo ocorre por meio da formação. Marilene relatou que o grupo participou de encontros com estudantes da Universidade Federal do ABC, em atividades relacionadas ao ensino de Paulo Freire nos cursos de Ciências Humanas.
“É uma oportunidade de os alunos participarem e conhecerem de forma teórica, mas depois essas discussões se abrem”, explicou. A proposta é permitir que os estudantes ao conhecerem a trajetória do educador relacionem seus conceitos aos desafios da educação contemporânea.
Marilene também destacou a relação entre professores universitários e profissionais da educação básica durante a gestão de Paulo Freire. Segundo ela, a assessoria não tinha o objetivo de impor métodos, mas de construir propostas a partir do conhecimento dos professores sobre as comunidades em que atuavam.
“Houve uma integração muito grande com professores universitários que deram assessoria, mas não no sentido de dizer para os professores o que eles deveriam fazer, mas de refletir o que é que eles fariam a partir exatamente do conhecimento que eles tinham da comunidade em que eles atuavam”, relatou.
A experiência é apresentada pelas entrevistadas como um exemplo de participação na construção das políticas educacionais na administração Paulo Freire. “Não existia nenhum projeto que fosse imposto de cima para baixo para os professores. Todos eram discutidos e só eram realizados se tivessem a adesão dos professores”, declarou Geni, recordando ainda que as discussões envolviam professores, funcionários, estudantes, famílias e a comunidade do entorno da escola. A participação coletiva, nesse sentido, era parte do próprio processo de decisão.

COMUNICAÇÃO CONTRA INTERPRETAÇÕES SIMPLIFICADAS
A comunicação é outra frente de atuação do Coletivo Paulo Freire. Marilene defendeu a aproximação entre educação e meios comunitários e alternativos como forma de ampliar o debate público e enfrentar informações apresentadas sem contexto.
“Esses espaços comunitários, alternativos, eles são muito importantes, eles são fundamentais nesse momento, porque eles vão divulgando outras formas e outras maneiras de pensar”, afirmou
Segundo Marilene, a divulgação de informações sem reflexão contribui para interpretações equivocadas sobre Paulo Freire. Ela citou como exemplo a associação do educador a ideias que não correspondem à sua obra, como a errônea noção de que ele seria contrário ao ensino de conteúdos.
Marilene defendeu que essas afirmações sejam confrontadas por meio de perguntas e da busca por referências. “Onde que você escutou isso? Onde que você viu isso? Onde que está? Você está trazendo isso, mas relacionado com o quê?”, questionou.
O coletivo também participa de debates que relacionam a educação à conjuntura política e social. Para Marilene, a escola e a formação de professores não devem ser analisadas de maneira isolada, mas como parte de um contexto mais amplo.

UM ACERVO PARA PESQUISA E ACESSO PÚBLICO
Além do livro, o coletivo mantém um site com materiais relacionados à trajetória de Paulo Freire e às experiências desenvolvidas durante a gestão municipal. O espaço reúne o e-book, documentos históricos, registros de lives, rodas de conversa e entrevistas. Para saber mais, acesse: https://www.coletivopaulofreire.org.
“Nesse site, nós temos não só o e-book, mas também disponibilizamos para consulta, inclusive para pesquisa, todo o material que foi produzido durante a gestão Luiza Erundina-Paulo Freire”, explicou Geni.
A manutenção desse acervo faz parte do esforço do coletivo para preservar a memória de projetos educacionais e oferecer materiais de consulta a professores, estudantes e pesquisadores. A organização também utiliza o site para divulgar suas atividades e ampliar o contato com o público.
Ao comentar sobre a importância de manter a atuação do grupo, Geni ressaltou a necessidade de dar visibilidade à voz dos professores. “Eu destaco aí a importância de estarmos fazendo ouvir a nossa voz também, a nossa voz como professores, como resistência com relação à educação”, afirmou.
A última frase do livro, segundo Geni, sintetiza a disposição que orienta o coletivo: “A luta continua”. A obra integra esse trabalho permanente ao reunir memórias e depoimentos sobre Paulo Freire, enquanto as ações de formação, comunicação e mobilização procuram manter seu pensamento presente nas escolas e no debate sobre a educação pública.
ASSISTA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DO MANAS E MANHÃS DE 24 DE ABRIL
