‘Amizade Aberta’ recebe educadoras e educandos do Mova
O estúdio da rádio comunitária Cantareira FM foi “tomado” por uma onda de carinho e histórias de superação em 15 de outubro: no Dia do Professor, o programa “Amizade Aberta”, apresentado por Anderson Braz, entrevistou educadoras e educandos do Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (Mova) da Associação Cantareira, atualmente com 12 salas, espalhadas em bairros no Distrito da Brasilândia, onde 245 estudantes estão sendo alfabetizados.
“A gente luta por uma educação de qualidade e lutamos pelos nossos educandos que são adultos. Eles estão aqui hoje, pois antes perderam um tempo da vida deles para trabalhar fora, para sustentar a família, para criar filho, criar os netos, mas agora o momento é deles, ninguém tira”, afirmou Carmen Araújo, a Carminha, uma das coordenadoras pedagógicas do Mova na Associação Cantareira.
Moradora da Vila Brasilândia, Evanice é uma das atuais educadoras: “Este ano, fui presenteada em poder trabalhar com os educandos do Mova. Eu não tenho palavras para descrever o que eles são para mim. Eles têm vontade, desejo de aprender, e estão correndo atrás do tempo em que não puderam ter esta inclusão”.
Deise também é educadora no Mova há um ano: “Pra mim, é um projeto de alegria, inovador e de luta. Na sala de aula, a gente troca experiências. Ensiná-los é um ato gratificante, pois dou um pouco do meu conhecimento, e nunca saio da sala de aula sem ter aprendido com eles também”.

VIDAS SENDO TRANSFORMADAS
Ao vivo no estúdio, todos os educandos que participaram do programa relataram com o processo de alfabetização pelo qual estão passando vem modificando suas vidas para melhor.
“Agradeço, primeiramente a Deus, por poder estar aprendendo. Em segundo a ela, a Deise, que dá muita força pra gente continuar aprendendo e não vamos parar”, assegurou Marlene, educanda da sala da professora Deise: “Hoje, já consigo ler um pouco e já estou lendo algumas placas na rua. Eu fico feliz. Antes, eu andava triste, não sabia ler, ia para a Igreja e ficando lendo de mentira. Hoje eu leio de verdade”, complementou.
Também Lucineide não poupou elogios à educadora: “A Deise é maravilhosa e ensina a gente muito bem. A gente só tem o que agradecer, nada o que perder. O que a gente tinha a perder já ficou pra trás. Com as aulas da Deise, a mente começou a se abrir. Neste ano que ela está com a gente, eu já aprendi a escrever o meu nome, o nome da minha filha, ler os nomes que estão nos ônibus”.
Gratidão também é o sentimento da educanda Joseane: “A Deise é uma ótima professora. Quando eu cheguei na sala, eu não sabia nada, nada, nada, nada! Hoje eu já estou lendo, e o que ficou para trás, ficou. Sem esta professora, a gente não vive. Ela é nota 10. Se ela um dia desistir, eu desisto de aprender também. É com ela que quero terminar os meus estudos. Ela tem muita paciência, pois eu sei que educar a gente, que já é maduro, é difícil”.
Geralda, da sala da professora Evanice, também elogiou sua educadora: “Ela tem muita paciência. É nota 10 pra ela, ensina muito bem”.
Educandos da sala da professora Yasmin também deixaram suas falas de agradecimento: “A professora ensina tudo direitinho pra gente. Ela não enrola não”, disse Maria da Penha.
“Pra mim tá sendo ótimo poder aprender. Meus irmãos mais velhos sabem ler. Meu pai não me deixava eu aprender, pois dizia que sabendo escrever a gente ia fazer carta pra namorado. Então, quando eu aprendi fazer o nome, ele já disse que estava bom. Ele me botava em uma escola e depois tirava, e assim ia, aí eu decidi não querer aprender mais. Tive três filhos, meus meninos sabem ler e escrever. Hoje eles me dão força para ir pra escola”, contou Antônia, educanda naquela mesma sala.
Dois relatos em especial chamaram a atenção para a força transformadora da educação popular, ambos de educandos da sala da professora Deise. Jurandir, já idoso, conta que não sabia nem ler nem escrever, mas resolveu se abrir a este aprendizado: “Comecei a estudar depois de velho, depois dos 60 anos, e já estou desenrolando alguma coisa, assinando o meu nome. E é uma emoção muito grande, pois a gente, sem estudo, não é ninguém”.
Terezinha, por sua vez, acompanha a filha com síndrome de Down às aulas e percebe nitidamente os avanços da moça: “Ela está começando a aprender ler. Não tinha aprendido ainda, mas agora está conseguindo e está sendo muito bom para a convivência social. Ela sente muita alegria quando está na sala de aula”.
Alegria que a moça, mesmo com dificuldades de fala, conseguiu expressar aos microfones e com gestos, apontando para os colegas de classe: “Ela, ela, ela e ela também são todas minhas amigas”.

DIFICULDADES E SUPERAÇÕES
Deise comentou que no processo de alfabetização dos adultos, o educador precisa ser resiliente e entender cada estudante. “Quando cheguei à sala, busquei entender a dificuldade de cada um, mapeá-las. Foi uma felicidade imensa quando percebi que alguns deles começaram a escrever o próprio nome sozinhos”.
Ela comentou que não se preocupa apenas em apresentar os conteúdos em sala, mas em trabalhar a autoestima, o cuidado de cada estudante. “Não é olhar simples de um professor. É estudar cada um com o olhar de um amigo”, destacou, recordando ter ficado feliz por uma estudante que agora já consegue ler lista que a patroa deixa para ela sobre as compras do mercado. “Isso é gratificante, não tem preço”.
Carminha se disse emocionada ao ouvir estas histórias: “Quando eu decidi voltar a estudar, ainda era a época da ditadura. Você não aprendia. Você desenhava o seu nome, não sabia o que estava lendo. Hoje estamos fazendo diferente! Eu tive uma educanda que se chamava Albertina. Um dia, ela me disse, ‘Carmen, eu consegui ler um bilhete. Desci do ônibus e tinha uma banca de jornal e eu li uma mensagem do jornal. Eu cheguei atrasada no serviço’. Disse, ainda, que o dia que conseguiu ler a receita, ela queimou a comida. Aquele dia foi a maior emoção dela, porque aquela receita, a partir daquele dia, fez parte da vida dela”.
Carminha ressaltou que as educadoras estão no projeto menos pelo valor monetário que recebem e mais pela satisfação de verem os educandos progredirem nos aprendizados. “Se o educador popular não tem sintonia com a sala, ele não consegue continuar; é diferente de um professor que precisa ir para aula, pois ele é concursado”.

COMO PARTICIPAR?
Para todos os adultos que queiram se alfabetizar, ainda há vagas abertas nas turmas do Mova Cantareira, com aulas sendo realizadas na própria sede da Associação Cantareira, na Vila Terezinha, e em igrejas e instituições comunitárias nos bairros da região. Há 12 salas, sendo dez noturnas, uma pela manhã e outra à tarde.
Os interessados podem entrar em contato com a Carminha pelo WhatsApp (11) 96489-2347, mesmo número para os que desejam ser educadores, os quais devem passar por um detalhado processo de formação e acompanhamento.
“Eu sempre falo para os alunos que nunca é tarde para recomeçar. Eu comecei a minha primeira faculdade aos 33 anos, depois fiz outra. Então, nunca é tarde para recomeçar e jamais desista dos seus sonhos, e o mais primordial: saber que somos capazes”, incentivou Evanice.
“Nunca é tarde para aprender e a gente nunca sabe tudo. Na sala, há uma troca de experiência incrível. Tem coisas que eu não sabia e aprendi com eles, e o pouco que sei, eu ensino pra eles. O Mova é uma troca. Estamos ali pra ouvir e não só para trabalhar em sala, fazemos coisas fora de sala também”, disse, por fim, Deise, detalhando que uma dessas atividades é a ida ao forró.
ASSISTA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DE 15 DE OUTUBRO
