‘O SUS nosso de cada dia’ debate a baixa cobertura vegetal na periferia
Cada vez mais, os moradores de São Paulo sentem os impactos das mudanças climáticas, que afetam todo o planeta, e percebem a baixa resistência da cidade aos extremos climáticos, como foi observado, por exemplo, em outubro de 2024, com quedas de árvores, falta de energia elétrica e transtornos no trânsito.
Essa realidade também impacta a periferia, especialmente em razão da baixa cobertura vegetal urbana, conforme foi destacado na edição de 28 de julho do programa ‘O SUS nosso de cada dia’, apresentado por Adão Alves, com as participações, no estúdio da rádio Cantareira FM, de Rui Primo, conselheiro do futuro Parque Municipal do Morro Grande, e, de modo on-line, de José Ulisses Bezerra de França, biólogo e mestre em Cidades Sustentáveis, mais conhecido como Ulisses Queixada.
Do global ao local
Inicialmente, Adão observou que toda esta questão da falta de cobertura vegetal impacta a saúde do mundo, intensificando efeitos das instabilidades climáticas.
Por sua vez, Rui Primo salientou que os problemas ambientais não serão resolvidos com ações isoladas, mas a partir da união entre as nações e também das comunidades locais: “Como mudar o mundo? Eu acho que mudar o mundo requer uma atitude coletiva e uma atitude onde você mora, para se conectar com outras lutas e transformar toda esta situação”.
Rui Primo citou como um exemplo concreto dessa mobilização a luta dos moradores do Distrito da Brasilândia para a instalação do Parque Municipal do Morro Grande, em uma área de Mata Atlântica. A instalação já está formalizada por meio do Decreto Municipal nº 65.329, publicado em 15 de julho deste ano, mas ainda há muito por se fazer até que haja um parque efetivamente à disposição da população.
Ele destacou, ainda, que a comunidade local tem dialogado para que haja um programa de arborização na grande Brasilândia, com vistas a melhorar a cobertura vegetal da região. Tal programa, segundo Rui Primo, se faria por meio do plantio de árvores nativas nas calçadas, “e especialmente, onde for possível, de árvores de porte grande, que são aquelas que criam sombreamento, protegem contra esse calor excessivo que vem por aí com os efeitos da crise climática”.

Quem mais sofre com a crise climática? Os mais pobres
Ulisses Queixada está em fase conclusiva do doutorado, que tem estudado a arborização viária: “O estudo que tenho realizado visa a mensurar o capital natural, que é o que temos nas calçadas, e o quanto gera de serviços ecossistêmicos, que são os serviços que a natureza nos presta gratuitamente, como sombreamento, frutos, áreas de infiltração de água. E para falarmos de serviços ambientais, precisamos falar da qualidade também dessas árvores: se são exóticas, se são nativas, bem como de sua qualidade, pois quando vemos fortes temporais na cidade de São Paulo, há muitas árvores caídas. E isso é um problema que precisamos encarar”, comentou.
O biólogo recordou que os impactos de episódios de extremos climáticos, como os vistos na cidade de São Paulo, em outubro de 2024, mostraram o quanto a capital paulista não é resiliente para tal e que as pessoas mais afetadas são as que vivem nas áreas mais pobres: “Somos nós que precisamos de uma infraestrutura para escoamento de água e de esgoto; que precisamos de vias transitáveis, mas, às vezes, não temos. Infelizmente, todos esses impactos que nós estamos falando recaem, em sua grande parte, nas periferias”, disse, exemplificando com realidades na Brasilândia, em Santo Amaro e em São Mateus: “E são essas áreas que, infelizmente, a Prefeitura menos olha quando pensa em fazer um planejamento urbano”.
Erros no manejo e poda de árvores
O mestre em Ciências Sustentáveis também explicou que a forma como a Prefeitura tem feito a limpeza das áreas verdes prejudica a ciclagem de nutrientes, já que as folhas e galhos que caem ao chão se decompõem e realimentam a grama das árvores e, assim, não deveriam ser limpas.
“Na arborização urbana, infelizmente, até hoje, as áreas verdes, quando são roçadas, a ordem é que se recolha toda a grama e se mande para algum aterro, ou, quando muito, para a compostagem. E aqui temos um primeiro problema: todo esse material orgânico que era para alimentar as plantas é perdido. Com os galhos é ainda pior, porque o galho costuma ser grande, então a ordem é podar e levar embora para o aterro ou para a compostagem”, lamentou.
Ulisses Queixada comentou, ainda, que muitos munícipes, em todas as regiões da cidade, têm reclamado sobre os procedimentos de poda de árvores feitos pela Prefeitura. A legislação sobre o tema aponta que é um responsável técnico que deve fazê-la – como um biólogo, engenheiro florestal, engenheiro agrônomo – e se o serviço for mal feito, a empresa deve ser punida com o fim do contrato com o poder público ou o profissional deve ser punido com a extinção do seu registro.
Ele assegurou que o manejo inadequado de uma árvore chega a ser ainda pior do que não fazer manejo. “Por exemplo, você tem uma árvore X – pensemos em um ipê amarelo, grande, com 4, 5 metros de altura – se a poda for mal feita, se poderá levá-lo à morte, porque, caso se deixe o tronco aberto, poderá entrar ali na árvore um patógeno, pode também entrar água e apodrecer o tronco e, assim, desequilibrar a árvore. A Prefeitura tem feito muito manejo inadequado”. Ulisses estimulou que os munícipes façam fotos e vídeos dessas situações e acionem o Ministério Público, pedindo a punição da empresa e do responsável técnico.

As árvores e as redes de energia elétrica
Adão Alves, por sua vez, observou que outra questão que a cidade tem enfrentado são as árvores gigantes embaixo das linhas elétricas: conforme elas crescem, suas copas acabam se misturando na rede elétrica, ficam como que abertas no meio e com duas hastes laterais para que passe a fiação.
“Nós precisaríamos pensar no plantio de uma qualidade arbórea que não interfira na rede elétrica. E, claro, em um plano mais audacioso, que toda a rede aérea de fios se torne subterrânea”, comentou o apresentador.
Ulisses Queixada também discorreu mais sobre este problema, e cobrou responsabilidades: “Quando uma árvore muito grande está interferindo em uma fiação, o principal conflito tem sido o seguinte: a Prefeitura aciona a Enel, que demora a responder ou nem responde. A Enel, na verdade, não está preocupada com a arborização urbana, tanto que usa o termo ‘limpar a fiação’, ou seja, ela vai e poda do jeito que for possível, em formato de ‘O’, de ‘T’, de ‘U’, enfim, a Enel inventou o alfabeto inteiro de poda, com a única função de limpar a fiação. Então, falta uma fiscalização maior tanto no plantio – para que sejam árvores adequadas – quanto na fiscalização da Enel. A Prefeitura, quando vai podar uma árvore, faz uma foto antes do serviço e outra depois. Já a Enel faz o que ela bem entende”, lamentou.
Contrassensos
Questionado por Adão Alves sobre a estratégia da Prefeitura de espalhar árvores nos canteiros dos viários, em fundos de vale e calçadas. Ulisses Queixada – que já foi administrador de parques na Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente – explicou que a estratégia pode dar certo, se feita com critérios.
“A prática de, ao fazer obras, cortar as árvores de um local e, às vezes, espalhá-las por outros pontos da região, no que se refere à prestação dos serviços ecossistêmicos, se for bem feita e bem acompanhado, pode dar resultados positivos. Um dos problemas, porém, é que, muitas vezes, o poder público não acompanha todo o processo”, avaliou.
Ulisses criticou o fato de que a mesma Prefeitura que está apoiando a instalação do Parque Municipal do Morro Grande queira, por outro lado, instalar um incinerador de lixo em Perus, que vai gastar 240 mil litros de água por dia e gerar, ao menos, 120 mil litros de efluentes, os quais precisarão ir para uma estação de tratamento de esgoto, para que a parte líquida se torne água de reuso e a parte sólida, lama para ser aterrada.
Este contrassenso também tem sido enfrentado pela população de São Mateus, na zona Leste da cidade: por lá, a Prefeitura viabilizou um parque municipal, mas agora quer cortar 65 mil árvores para ampliar um aterro e instalar um incinerador. “Todos estes conflitos passam pela falta de planejamento da gestão municipal”.
Ulisses alertou, ainda, que só ter uma lei que crie um parque não é garantia de que efetivamente vá se tornar realidade um dia. “Somente em São Mateus, posso citar três decretos que tratam da lei de parques, mas nada feito. Esta gestão está tornando São Paulo uma grande cidade de papel, ou seja, tem a lei, mas os parques não saem do papel”.
Mas o sonho de ver o Parque Municipal do Morro Grande em funcionamento continua, não com uma espera passiva, mas ativa. Tanto assim que em 22 de agosto, foi realizada uma trilha ecológica dos coletivos locais com os estudantes da ETEC Jardim Paulistano nos arredores do futuro parque.
“Essa luta de parques, de corredores verdes, de arborização urbana, reciclagem, é uma luta que nós, dos coletivos, fazemos e nos conectamos a outras lutas da cidade”, assegurou Rui Primo.
ABAIXO VEJA A ÍNTEGRA DO PROGRAMA DE 28 DE JULHO
(Em razão de problemas técnicos, a transmissão está audível a partir dos 16 minutos)
