‘Revista da Semana’ destaca o documentário sobre a escola de samba ‘Iracema, Meu Grande Amor’
Como será viver a produção de um carnaval? Quais desafios uma escola de samba enfrenta quando está na periferia da cidade e conta com poucos recursos financeiros? E se a comunidade local não a apoia, como ‘colocar o desfile na avenida’?
Se essas perguntas despertaram a sua atenção, certamente você vai se encantar com o curta-metragem “Iracema, Meu Grande Amor”, lançado em julho pelo coletivo Elaz na Vizão, que conta a história desta escola de samba do Jardim Iracema, na zona Noroeste de São Paulo.
Na edição de 25 de julho do programa “Revista da Semana”, apresentado por Beto Souza, com a participação especial de Anderson Braz, na rádio comunitária Cantareira FM, Anna Clara Pereira, Mariana Umbelino e Nicoly Adão, produtoras do documentário, e Tauany Sabino, integrante da escola, falaram sobre o filme e os desafios de manter uma agremiação na periferia da cidade.
Tauany e Nicoly nasceram no Jardim Iracema e suas famílias mantêm laços com a escola de samba: Tauany é filha do atual presidente; já o avô materno de Nicoly foi um de seus fundadores.
Em 2024, as produtoras do curta-metragem criaram o coletivo Elaz na Vizão, que tempos depois foi contemplado com um fomento do Programa para a valorização de iniciativas culturais do Município de São Paulo (Programa Vai), verba que tornou viável a produção do documentário, pelo qual também se procura resguardar a história da escola de samba e suas relações com o território.

RESGATE E RESGUARDO DA HISTÓRIA
“No curta-metragem, a gente quis registrar um pouco o que é esta construção da escola Iracema, Meu Grande Amor, e da importância dessa escola na Brasilândia”, detalhou Anna Clara.
“De alguma forma, o filme fala da minha família, pois meu avô materno ajudou a fundar a escola e eu cresci ouvindo muitas histórias. Fomos tendo contato com a escola para saber se havia interesse no projeto de fazer o filme como um registro da história de uma instituição que é muito importante para o bairro. O filme não é só uma celebração, mas busca também manter esta memória”, assegurou Nicoly.
Em uma das cenas, Tauany aparece vestida de porta-bandeira debaixo de uma figueira perto da sede da escola. “Foi uma coisa mais do que incrível para mim. Foi o momento de reconectar-se com as histórias da escola, do Iracema. Vocês fizeram surgir dentro de mim uma outra Tauany, jamais havia me sentido tão valorizada”, comentou a integrante da agremiação.
Nicoly observou que na maioria das escolas de samba, as mulheres desempenham funções diretas e indiretas essenciais, mas que nem sempre recebem o devido reconhecimento por isso.
“Quem entra em contato inicialmente com uma escola de samba pode pensar que é um trabalho majoritariamente feito por homens, mas depois que se aprofunda na história, fala com as pessoas, entende que há muitas mulheres envolvidas. Por exemplo: as roupas são confeccionadas por costureiras, outras muitas mulheres atuam na escola, mas não necessariamente na linha de frente, cedendo algum espaço de suas casas, seu tempo, cuidando da casa, dos filhos e do marido enquanto este homem está dirigindo a escola. A minha avó, por exemplo, não participava da escola, pois meu avô não deixava, mas ela ficava em casa cuidando dos filhos para que ele pudesse estar lá. A mãe da Tauany enquanto era casada com o Toninho, atual presidente, também cedeu espaço da casa, o ajudava. Então, há muitas mulheres nestes espaços, mas é um trabalho invisibilizado”, assegurou Nicoly.

OS DESAFIOS PARA ‘COLOCAR A ESCOLA NA AVENIDA’
O documentário “Iracema, Meu Grande Amor” também retrata como a escola construiu seu carnaval em 2026, incluindo momentos de ensaios, a concentração e o desfile realizado em uma avenida na Vila Sônia, na zona Sudoeste da cidade, consideravelmente distante do distrito da Brasilândia.
Anna Clara explicou que uma das diárias de gravação foi na sede da escola, falando das confecções, das roupas, ouvindo as pessoas; outra foi na avenida onde acontecem os desfiles: “A gente filmou este desfile e viu que é uma luta muito grande para colocar a escola na avenida, tanto pensado na mobilização de pessoas para trazer a comunidade pra junto da escola, além da dificuldade da escola para conseguir fomento financeiro, pois quanto mais abaixo estiver no grupo de acesso, menos dinheiro você recebe e fica mais difícil subir de divisão”.
Mariana criticou o fato de os desfiles das escolas de grupos de acesso ocorrerem em um só local, muitas vezes distante dos bairros das agremiações. “Como pode uma escola localizada na Brasilândia ter de fazer todo este trajeto até a Vila Sônia para poder se apresentar? Por que tão distante? Por que não fazer em outros espaços? Por que faltam recursos se a gente também paga impostos?”.
Tauany recordou que por meio de uma parceria, idosas que atuam em projeto no Heliópolis, na zona Sul, participaram do desfile do Iracema. Elas confeccionaram os chapéus com os quais desfilaram: “Elas desfilaram como baianas. São senhoras que nunca antes tinham participado do carnaval”.
Segundo Tauany, a escola tem dificuldade para atrair senhoras idosas da própria comunidade para participar dos desfiles: “E isso nos prejudicou até nas notas do carnaval, pois na ala das baianas é preciso ter uma quantidade exata, se não a gente toma uma penalização nas notas do desfile”.

AS EMOÇÕES DO LANÇAMENTO
O curta-metragem “Iracema, Meu Grande Amor” foi exibido pela primeira vez em julho no CEU da Freguesia do Ó, em uma emocionante sessão assistida por cerca de 70 pessoas.
“Além de alcançar aquilo que as pessoas imaginavam, ainda tivemos um retorno muito positivo como ‘foi incrível’, ‘foi maior do que imaginei’. Conseguimos trazer para o público o que é uma escola de samba, sua dinâmica e tensão, essa questão de que falta fomento, de falta pessoas, e deixando aberto o convite para que participem de alguma escola de samba”, afirmou Mariana.
Nicoly contou ter sido emocionante o fato de o lançamento do filme no espaço cultural próximo ao local onde historicamente ocorriam os ensaios – a Rua dos Morgados: “Exibir o filme neste lugar foi algo muito significativo, e pra mim foi muito simbólico, pois foi quase do lado do Hospital Geral Vila Penteado onde eu nasci. Foi muito especial poder exibir o filme onde tudo se originou e vendo ali pessoas que ainda não sabiam sobre a existência da escola Iracema”.
Em agosto, também houve exibições na Casa Luiza Mahin, na Vila Penteado; e na Praça 7 Jovens, no Jardim Elisa Maria. Outras sessões estão sendo programadas e serão anunciadas no Instagram: @elaznavizao.
Segundo as produtoras, quando for finalizada essa primeira etapa de exibições públicas, o curta-metragem também poderá ser visto no YouTube.
“Claro que as pessoas poderão ver o filme no YouTube, mas convidamos a vê-lo nestes eventos, para poderem encontrar a equipe, conversar com a gente. Este espaço de exibição presencial é muito importante para que haja apoio à produção do cinema independente”, afirmou Nicoly.
Na conclusão da entrevista, Tauany lamentou que a escola de samba Iracema hoje encontre resistências na própria comunidade para fazer ensaios pelas ruas do bairro, já que não conta mais com uma sede, mas a agremiação resiste e acolhe com carinho a todos que queiram participar.
“Queria muito que as pessoas acreditassem mais na gente. Não é fácil fazer carnaval sem verba. Gostaria muito que as pessoas vivessem o carnaval em uma escola de samba, pois assim elas não iriam ficar julgando a gente e nos entenderiam mais. E quem quiser participar do Iracema, as portas da nossa escola estão abertas. Hoje não temos mais a nossa sede, mas a escola não morreu. Quem quiser participar, venha que será bem recebido”, assegurou Tauany.
Mariana, por sua vez, assegurou que o coletivo Elaz na Vizão planeja realizar novas produções: “Vamos aproveitar estes materiais captados e propor novos projetos, novos formatos, distribuir as produções de forma gratuita e irrestrita. Já estamos tentando novas captações, novos projetos, certamente este foi o primeiro de muitos”.
ASSISTA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DE 25 DE JULHO
