‘Revista da Semana’ faz ecoar o talento do Mano KXA

Nascido em Santo André (SP) e criado no Jardim Patente, na região do Heliópolis, na zona Sul da capital paulista, Mano KXA conheceu o mundo do rap aos 14 anos de idade. Ouvindo muito rap nacional, especial Sabotage, mergulhou de vez nesta cultura e passou a escrever suas próprias letras. Hoje, aos 28 anos se idade, ele traz em suas linhas a vivência pura do Hip-Hop e um olhar poético diferenciado sobre o cotidiano.

“Estou aqui hoje, fazendo arte, rap, música, e ´vamo bora!’”, disse Mano KXA ao ser entrevistado na edição de 27 de junho do programa ‘Revista da Semana’, apresentado por Beto Souza na rádio comunitária Cantareira FM.

INSPIRAÇÕES

O rapper, compositor e produtor disse que o gosto pela música ele herdou do pai, mas a veia artística veio do avô, que produzia quadros e esculturas com as madeiras que encontrava na rua, além de fazer desenhos no papel e transformá-los em telas. KXA conta ter uma pegada mais voltada à arte urbana, por meio do grafite.

“O que me fortaleceu muito no hip-hop, foram as oficinas de grafite que aconteciam aqui no Heliópolis, que eram organizadas pelo Avante Coletivo. Quanto chegaram as oficinas de hip-hop, de grafite, de DJ e MCs, conseguimos unir mais pessoas para adentrar nesta cultura e acolher mais frutos”, detalhou.

“Estamos acostumados em ver tantas coisas na rua, e a gente poder transmitir uma mensagem para as pessoas, às vezes até se sentir ouvido, amado, essa questão de você expor suas ideias é muito importante para o artista e também para a conexão com as demais pessoas”, disse o Mano KXA.

O rapper disse que é muito observador das realidades em seu entorno e que expõe essas percepções em suas músicas: “Fazer estas expressões artísticas é também uma forma de libertação, de conexão com outras pessoas. Eu tento fazer a minha música a partir do que vejo no cotidiano. A gente nunca vive sempre no puro ódio nem sempre no puro amor. Tem dias que a gente acorda mais cansados, em outros acorda com plena disposição, e com a arte a gente coloca para a fora aquilo que vive a cada dia e pensa”.

‘AINDA VIVO’ E ‘A CARTA’

Durante o programa, foram ao ar dois clipes feitos de músicas produzidas pelo Mano KXA: “Ainda Vivo” e “A Carta”, que trazem mensagens com forte teor social e existencial.

“Nestas músicas, a gente traz reflexões sobretudo, na verdade. É um pouco sobre política, mas falam da vida em geral, sobre consciência, sobre progredir. Temos de saber falar sobre um pouco de tudo: de amor, de raiva, de amizade. Essas duas músicas falam sobre o ainda ter forças para respirar e levar a arte em diante. É aquele grito de ‘ainda estou aqui’, ‘eu ainda vivo’, como é a voz das rádios comunitárias e os grupos da quebrada”, contou, detalhando que os clipes – feitos em construções abandonadas do Heliópolis – só foram viabilizados graças ao empenho de todos os amigos.

“Um veio com uma câmera, outro com um personagem, outro trazendo as roupas, e dessa união surgiu esta obra cinematográfica”.

“Somos o que somoooos, não o que eles querem! Eu ainda vivo, vivo!”, é o forte refrão de uma destas canções, na qual se lembra ainda do poder libertador da educação – “Se armei de livros, me livrei de armas” – e do quanto isso incomoda a quem está no poder – “O terror do sistema é o pobre letrado, desenvolvendo e no progresso, cobrando o Estado”.

Já a letra de “A Carta” é inspirada em um episódio que envolveu um amigo dele, que enquanto fazia um grafite foi acusado de um delito e preso injustamente. “Essa música retrata o envio de uma carta pra ele, pois a gente sempre via a mãe dele triste. É uma carta de amizade no sentido do ‘Ainda estou aqui, pode contar comigo’”.

“Ei mano, estou passando aqui para te dar um salve. Como é que anda desse lado das grades? Soube do castigo sem notícias. Trombei com sua coroa ontem à tarde. Brilho no olho, sorriso no rosto, uma guerreira de verdade”, canta Mano KXA em um dos trechos da música, que ainda deixa uma mensagem de esperança: “Nada é eterno, se preocupe com o interno, um é menos um, a liberdade vai cantar”.

Questionado por Beto Souza sobre o quanto a cultura hip-hip e o rap ainda hoje é alvo de preconceitos, Mano KXA observou que tem havido avanços: “Sempre teve e sempre vai ter discriminação contra o rap; ainda existe muita, basta comparar a discrepância em relação a outros estilos, como a música sertaneja. Mas dá sim pra dizer que as coisas melhoraram muito. Quem veio lá trás, como Racionais MC´s e Sabotage, todos estes ‘rappers monstros’, trabalharam muito bem para que essa realidade mudasse hoje. Está bem melhor. Hoje em dia, o ‘filho do bacana’ também quer ir na festa de trap, então a gente conseguiu furar um pouco desta bolha, não ela toda, mas estamos no caminho”.

Divulgação

NOVAS PRODUÇÕES

Mano KXA falou ainda de algumas outras obras, como a participação no EP “Avance”, em parceira com o amigo Jhowts e que foi lançado em 2023 pelo Estúdio Viela 7, de Heliópolis, com cinco faixas musicais: “O Avance é este trabalho meio que experimental dentro do trap, do drill, do boombap”.

Suas produções mais recentes são a canção “Nada me afeta” e o álbum “Malakobaco”, com oito faixas especiais, já incluindo o clipe da música Marvel, que faz uma metáfora sobre os super-herois da vida real, envolvendo a cultura geek.

“A música é aquilo que me traz a vida e é no que eu consigo me expressar”, assegurou Mano KXA. Suas produções podem ser vistas no Instagram (@meumanokxa) e no YouTube (@meumanokxa).

Por fim, Beto Souza destacou que a missão das rádios comunitárias é dar valor para os artistas independentes. “Aqui na Cantareira é a casa do artista independente”, disse, assegurando que os interessados em divulgar suas obras podem fazer contato pelas redes sociais da rádio (@cantareirafm) e no WhatsApp (11) 97305-2000. A divulgação é sem custos.

ASSITA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DE 27 DE JUNHO