Projeto Vozes da Brasilândia destaca a conservação e preservação de acervos

A Conservação e Preservação de Acervos foi o tema trabalhado na 3ª oficina do Projeto Vozes da Brasilândia. O encontro formativo com as Guardiãs da Memória aconteceu na sede da Associação Cantareira, na Vila Isabel, em 13 de junho.

Desenvolvido pela Associação Cantareira, com o apoio do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania do Governo Federal, o Vozes da Brasilândia busca fortalecer uma rede de guardiãs da memória no território, especialmente mulheres negras. Ao todo, são 20 participantes, que foram selecionadas considerando entre os pré-requisitos seu histórico de atuação em diversas entidades pelo território.

Desta vez, os trabalhos foram conduzidos por Peterson Mendes Paulino (@petersonpaulino_), pesquisador do Instituto Favelas (@institutofavelas). Ele é graduando em História pela Universidade Federal de São Paulo e coordenador de atividades do Arquivo Comunitário Cantareira.

Peterson Mendes Paulino assessora oficina do Projeto Vozes da Brasilândia

MAIS DO QUE GUARDAR O PASSADO, UMA PONTE PARA O FUTURO

O encontro começou com uma reflexão sobre patrimônio e acervo, com a observação de que uma das mais importantes formas de contar e narrar a história de um território é por meio de documentos e objetos, como fotografias, cartas e outros registros.

Peterson destacou que, ao longo da vida, todas as pessoas acumulam diversos tipos de documentos, como os de identificação pessoal, notas fiscais, fotos, entre outros.

“Nossa vida, como cidadão, é regida por documentos. Nesse processo, a gente acumula documentos, seja por questão burocrática, seja por uma questão afetiva. Aquelas fotos que tiramos da família, fotos que herdamos dos nossos pais, todos esses documentos formam nossos patrimônios pessoais”, disse.

A partir desta reflexão e compreensão, o pesquisador explicou às Guardiãs da Memória o conceito de acervo: “É um conjunto de itens guardados e protegidos que possuem um valor histórico, cultural, científico e afetivo. Mais do que guardar o passado, o acervo serve como uma ponte para o futuro, garantindo que as identidades e memórias de um povo não sejam esquecidas. A partir desses documentos, reconstruímos as nossas memórias”.

Dependências do Acervo Comunitário Cantareira

A MEMÓRIA PERIFÉRICA NO ARQUIVO COMUNITÁRIO CANTAREIRA

Ainda no encontro, foram apresentadas às lideranças comunitárias fotos do processo de construção coletiva do Arquivo Comunitário Cantareira, no qual estão preservados fotografias e exemplares do Jornal Cantareira, veículo de comunicação popular que circulou entre 1997 e 2010, registrando fatos importantes do cotidiano da Brasilândia. A iniciativa é resultado de uma parceria entre a Associação Cantareira e o Instituto Favelas.

A construção de um arquivo comunitário, como o da Cantareira, não leva em conta apenas a preservação adequada de documentos e objetos. Também é preciso considerar fatores como calor, umidade, poluentes, ameaças biológicas (fungos, cupins e roedores), além dos equipamentos adequados para o manuseio desses materiais, como luvas e máscaras.

Pensar em todas essas frentes contribui para manter um espaço adequado para guardar itens que fazem parte da história de um território.

A oficina também permitiu que as lideranças comunitárias vivenciassem, na prática, o processo de separação, higienização, acondicionamento e digitalização das fotos do Jornal Cantareira.

As Guardiãs da Memória aprenderam como limpar corretamente uma foto, com o uso de um algodão; como acondicionar cada foto, usando uma folha de papel sulfite dobrada em forma de envelope; como inserir os códigos de identificação no verso da foto e no envelope, utilizando lápis para facilitar a consulta; além de catalogar e digitalizar esses materiais.

Na sequência, Peterson Mendes conduziu uma visita guiada ao Arquivo Comunitário Cantareira, durante a qual as Guardiãs da Memória puderam observar como estão armazenadas as fotografias, acondicionadas em caixas de polipropileno, e alguns exemplares do Jornal Cantareira que já passaram pela higienização e estão guardados em uma mapoteca.

PROTEGER A MEMÓRIA DOS TERRITÓRIOS PERIFÉRICOS

Entre as lideranças que participaram da formação está Carmen Fátima de Araújo, que atua no Projeto de Educação Popular de Alfabetização de Jovens e Adultos (MOVA-SP) e coordena uma ação voltada às mulheres vítimas de violência.

Carmen comentou sobre a experiência em acompanhar o processo de conservação e preservação de documentos e como aplicar isso no seu dia a dia: “Com o que eu tenho na minha casa, já posso começar a cuidar. A partir do momento em que você aprende a cuidar de uma foto, de um livro, a digitalizar, você pode pensar em melhorar as suas coisas para, depois, ensinar em outros espaços”.

Ao ser perguntado sobre como esse trabalho de preservação de documentos e objetos vai contribuir na memória do território e na atuação das Guardiãs da Memória, Peterson Mendes ressaltou: “A contribuição será diretamente nos objetos, nas fotografias e nos documentos populares que contam a história das nossas periferias. Tais registros salvaguardam a memória de territórios que estão às margens das políticas culturais da cidade. São, em sua maioria, documentos que não se encontram em grandes instituições de guarda documental, como jornais comunitários, fotografias e livros produzidos pela comunidade, constituindo uma documentação que depende da mobilização popular para ser preservada no território”.

Neste sentido, Peterson avaliou que a atividade com as Guardiãs da Memória “possibilitará proteger a memória dos territórios periféricos a partir do cuidado com os documentos produzidos por aquelas que constroem cotidianamente, com muita luta, o território da Brasilândia”.

Fotos: Fernando Sena/ Produção textual: Elisângela Silva/ Edição: Daniel Araújo