No ‘Ambiente por Inteiro’, deputada Mônica Seixas fala sobre gestão hídrica e orçamento público

Ecossocialismo e igualdade racial e de gênero têm sido as principais bandeiras de atuação da deputada estadual Mônica Seixas (PSOL), jornalista e feminista negra, que foi entrevista na edição de 11 de fevereiro do programa ‘Ambiente por Inteiro’, na rádio comunitária Cantareira FM, apresentado por Paulo Jofre, excepcionalmente com a participação do também comunicador Beto Souza.

Natural de Itu (SP), Mônica Seixas foi eleita deputada estadual em 2018 e reeleita em 2022. Na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) tem destacada atenção nas questões relacionadas ao meio ambiente.

“O ativismo ambiental é um dos pontos fortes do meu mandato, especialmente neste momento tão difícil, que exige de todos nós uma ampla reflexão sobre a adaptação e mitigação, pois o estado de São Paulo está sendo atingido em cheio pela emergência climática. Já faz algum tempo que a gente não sabe o que é um dia tranquilo: é chuva forte, é uma promessa de vendaval, é uma onda de calor, é falta de água na torneira, é árvore que cai em cima dos carros. Todos os dias, temos de lidar com coisas que são extraordinárias, os fenômenos extremos climáticos, que não faziam parte do nosso cotidiano e que levam vidas. Por isso, nosso mandato tem sido muito rigoroso em fazer o debate ambiental e impulsionar os direitos da natureza”, destacou a deputada.

BRIGADAS DE INCÊNDIO E EXTREMOS CLIMÁTICOS

Mônica Seixas enalteceu os trabalhos das brigadas de incêndio, com brigadistas voluntários como é o caso da Brigada de Incêndio Caxinguelê, a primeira da Serra da Cantareira, da qual Paulo Jofre faz parte. Ela lembrou que o estado de São Paulo por si só está longe de ter a quantidade de brigadas de incêndio necessárias, especialmente para as épocas de intensa estiagem.

A deputada disse que vem batalhando para o reconhecimento e apoio às brigadas, mas ponderou: “É o estado que precisa dar conta desta questão. Há hoje uma destruição da Defesa Civil, que em algumas cidades paulistas não tem nem carro para se locomover. Também temos de falar do Corpo de Bombeiros, que hoje não atende nos casos em que é preciso combater incêndios florestais”.

Mônica Seixas comentou, ainda, que diante do aumento de extremos climáticos sempre lutou desde o início do seu mandato pela implementação de sistemas de alerta à população, algo que hoje passou a ser feito, mas que ainda requer aprimoramentos.

“Eu fico feliz em ver efetivado a chegada dos alertas no celular, pois assim as pessoas podem ter a oportunidade de fugir das consequências dos fenômenos extremos.  A nossa batalha agora é para o aperfeiçoamento disso, pois chega a mensagem ‘abrigue-se’, mas você não sabe se tem de sair ou ficar onde está, então é preciso que se aperfeiçoe, e dá pra fazer, pois as big techs e as empresas de telefonia têm a exata localização de onde você está e do que está acontecendo, e poderiam ajudar em uma orientação mais precisa”.

A deputada observou que embora seja indispensável se pensar em medidas para revitalizar as cidades, entre as quais o resgate das nascentes dos rios e o replantio de árvores, essas ações surtirão efeito somente após algumas décadas, portanto é preciso também agir para respostas a curto prazo: “Hoje as pessoas podem morrer em um incêndio ambiental ou em uma forte chuva, então, temos de elaborar estratégias sobre como ajudá-las a viver no agora, neste momento de emergência climática”.

O CONTRASSENSO DA GESTÃO HÍDRICA EM SP

A parlamentar também fez observações críticas à maneira como tem se dado a gestão dos recursos hídricos no estado de São Paulo e, de modo especial, à privatização a Sabesp.

Na avaliação de Mônica Seixas, é um contrassenso que as pessoas hoje tenham de pagar por uma garrafinha de água mineral, enquanto as nascentes dos rios e as bicas de água estão encobertas pelo concreto das cidades ou indo parar diretamente no esgoto.

Diante dessa realidade, recentemente a parlamentar protocolou na Alesp o projeto das torneiras públicas, valendo-se dessa previsibilidade no Marco Regulatório do Saneamento Básico, algo, por ora, ignorado pela gestão Tarcísio de Freitas.

“Uma das poucas coisas boas deste Marco Regulatório é esta previsão da oferta de água para saciar a sede das pessoas e dos animais. O governo do estado correu para privatizar a empresa de saneamento, mas a parte de distribuir água em ambiente público não fez menção qualquer. O projeto de lei que protocolamos obriga a oferta de água em grandes comércios, como shoppings, cinemas, teatros, praças, parques, escolas, hospitais e prédios públicos”.

Mônica Seixas ressaltou que a gestão hídrica deve ser pensada de maneira mais integrada para que não se desperdice água em condição de uso.  “Por exemplo, o Rio Piracicaba neste momento está super cheio, já há alerta de inundação em suas proximidades, mas, ao mesmo tempo, parte da cidade de Piracicaba está com desabastecimento de água. E por que isso? Porque a água pluvial da drenagem urbana que entra na boca de lobo e que vai para rede de esgoto não é a mesma água que vai para os reservatórios. Também aqui em São Paulo, a água das bicas estão indo para a boca de lobo e depois para o Tietê e não entram no ciclo da água tratada. Essa água poderia ser usada para limpeza doméstica, para dar aos animais, para higiene básica”, comentou.

A parlamentar recordou que em sua cidade natal, na época da crise hídrica de 2014, praticamente por um ano inteiro houve desabastecimento e a própria população passou a “redescobrir” as nascentes de água.

“Itu é uma cidade que não tem um grande corpo de água capaz de abastecê-la. Somos atravessados pelo Tietê, mas quando o rio passa por lá já está com espuma. Em 2014, ficamos por um ano sem receber água na torneira e daí a cidade mapeou as nascentes. As pessoas, literalmente, quebraram o concreto, quebraram as calçadas à procura de água. A população entrava na boca de lobo para tirar baldes de água para lavar roupas a partir da água das nascentes. Portanto, o respeito às nascentes neste momento de estresse hídrico no estado deveria estar no mapa dos governos, mas não está”.

“A cidade de São Paulo tem muita água, mas há uma lógica de organização perversa que está separando a água que temos debaixo dos nossos pés da torneira, do banho das pessoas. Temos de reorganizar isso”, enfatizou.

A parlamentar explicou que caso o projeto que apresentou na Alesp se torne lei, o poder público também terá de zelar pela qualidade das torneiras que disponibilizarão as águas das nascentes e atestar sua qualidade.

“O problema da gestão da água tem como origem o Estado delegar sua responsabilidade para o mercado. O Estado hoje não precisa se preocupar em ofertar água para as pessoas se isso for dar lucro para a Nestlé: a empresa vai lá, invade os nossos lençóis freáticos, retira a água subterrânea, envaza nas suas garrafas plásticas, cobra um absurdo e quem tem dinheiro paga, mas e quem não tem? Morre de sede? O debate que estamos fazendo é da água como direito humano, e a água como algo essencial para a vida que precisa ter o cuidado do Estado. Por isso, estamos lutando para que a Cetesb [Companhia Ambiental do Estado de São Paulo] mapeie e documente todas as nascentes para sabermos qual nascente tem água boa e qual não tem”, detalhou.

EMPECILHOS: O MERCADO E AS EMENDAS PARLAMENTARES

Mônica Seixas enfatizou que um dos grandes empecilhos para viabilizar medidas de proteção ao meio ambiente são os interesses do mercado.

“Já se deveria estar controlando a produção de plástico, de descartáveis, de agrotóxicos, a produção de comida em território urbano, bem como se diminuindo o consumo e a extração de petróleo. Para nós, que lutamos pelo meio ambiente, isso é óbvio e sabemos o quanto se está atrasado nessas coisas, mas daí vai discutir isso com o mundo dos negócios! Vai dizer para as empresas que elas precisam parar de produzir descartável. O lobby dos grandes negócios é desafiador para nós”, afirmou, lembrando que sempre que há uma medida ambiental mais ampla, as empresas reclamam de que serão afetadas, que fábricas vão fechar e que haverá demissões.

Mônica Seixas destacou, ainda, que a prevalência das emendas parlamentares, seja no Congresso Nacional, seja na própria Alesp, tem gerado dificuldades para que se façam debates amplos sobre a conservação do meio ambiente e os problemas sociais.

“As emendas parlamentares hoje não usam mais a lógica da justiça social e dos interesses do Estado. Elas são abocanhadas e usadas para o interesse individuais do parlamentar. Vão se criando ilhas. Por exemplo, enquanto de modo geral faltam maternidades no estado de São Paulo, você observa cidades que vão erguendo grandes prédios hospitalares, mas acabam não tendo gente nem material para operar. Com cada parlamentar colocando dinheiro em seu curral eleitoral, o recurso público deixa de ir efetivamente para onde precisa. O correto seria os parlamentares também colocarem dinheiro em cidades nas quais não tiveram um voto sequer, pois lá há pessoas que precisam do recurso público”, observou.

Mônica Seixas detalhou, ainda, como esta lógica de poder acaba por pressionar todos os parlamentares.

“Hoje, quando eu chegou em uma cidade, a primeira pergunta que eu recebo seja da imprensa, seja dos políticos locais é: ‘Quanto dinheiro você colocou na minha cidade?’, ou seja, virou a lógica de como as pessoas veem a política. E daí eu tento fazer o debate, ‘olha, eu não precisaria colocar dinheiro na sua cidade se a gente fosse capaz de construir uma lógica de Estado de justiça, pela qual seja um direito da sua cidade receber regularmente o necessário para saúde, para educação, para infraestrutura’. Infelizmente, a lógica política mudou e as pessoas querem que eu, como deputada, coloque dinheiro nas cidades delas, só que meu desejo na política não é chegar em uma cidade e dizer ‘eu construí um hospital’, mas sim falar ‘nós vamos conquistar um plano para que todas as cidades tenham o necessário sempre, como direito, independentemente dos políticos que passem’”, concluiu.

A DESPEDIDA DO ‘AMBIENTE POR INTEIRO’

Paulo Jofre na primeira edição do ‘Ambiente por Inteiro’, em maio de 2025

A edição de 11 de fevereiro foi a última do “Ambiente por Inteiro” na Cantareira FM, por razões de disponibilidade de agenda de Paulo Jofre. A equipe de comunicadores da rádio agradece a disponibilidade e espírito inovador do comunicador em apresentar a temática ambiental, quase sempre em programas feitos diretamente de ambientes da Serra da Cantareira.

Todos os programas, desde a primeira edição em 14 de maio de 2025, estão disponíveis no YouTube (@cantareirafm). Para acompanhar o trabalho ambiental de Paulo Jofre, acesse o Instagram (ofolhasuperheroi).

ASSISTA A ÍNTEGRA DO PROGRAMA DE 11 DE FEVEREIRO