‘Sintonia Cultural’ destaca o projeto litero-poético-musical ‘Um Olho Sol’
Não faltou música nem poesia na edição de 24 de janeiro do programa ‘Sintonia Cultural’. Nos estúdios da rádio comunitária Cantareira FM, Adão Alves e Anilson Brito entrevistaram Sidnei Ferreira e Daniel Alexandrino que conduzem o projeto litero-poético-musical “Um Olho Sol”, que integra poesia, música e artes visuais.
“Este projeto surgiu a partir de uma exposição fotográfica que eu fiz quando perdi parte da minha visão. Eu convidei o Sidnei para tocar na abertura da exposição ‘Um Olho Sol’. Eu falava coisas referentes à fotografia, falava alguns dos meus poemas, e pedia pra ele cantar. Ali, entendi que existia uma simbiose entre a gente. Depois o convidei para fazermos um espetáculo, que é o litero-poético-musical ‘Um Olho Sol’”, detalhou Daniel, que também é documentarista e há 12 anos coordena o Sarau do Grajaú, na zona Sul da capital paulista.
| “É só um olho. É meu olho sol. Meu olho fome come teu olho pão. Fim de tarde, arrebol. Meu olho arde, o teu vermelho. Um conselho: esfria teu olho Marte. Meu olho lua, arte de rua, Olhar atento, que a todo momento, O olho sol é meu olho vivo, E sem o menor motivo, chora. Chora por teu olho vil, Pois se me negas um segundo deste olhar profundo, Esse olhar vão não sabe que a dor do escuro a que me entrego E a luz do meu olho cego Enxergam a cegueira do teu coração” |
A poesia “Um Olho Sol”, seguida da canção de mesmo nome, foram apresentadas por Daniel e Sidnei durante a participação no ‘Sintonia Cultural’.

CELEBRAÇÃO DA POESIA PERIFÉRICA
“Nosso show tem música, poesia, contos e alguns causos. Basicamente é uma prosa com poesia e música de parcerias nossas e de outros compositores periféricos dessa linha de sarau, além de músicas de minha autoria e do cancioneiro popular”, detalhou Sidnei.
Daniel, por sua vez, explicou que o espetáculo tem como base a celebração da poesia periférica: “Nós trazemos as várias nuances da poesia periférica. É algo engraçado, com tom político, romântico, com uma série de propostas a serem discutidas, pois a gente entende que a poesia periférica é formada por várias outras possibilidades poéticas vindas de vários cantos deste país, e que ao chegarem na periferia ganham novo corpo, uma nova proposta, e criam oralidade”.
Com duração aproximada de uma hora e 15 minutos, o show mostra toda a beleza poética que emerge da periferia, conforme enfatizou Daniel Alexandrino: “A periferia deixa claro que a língua só é viva porque ela está em constante mudança, porque recebe influência de todos os cantos, e ela cresce em evolução, cresce em poesia. Isso é incrível!”.

O PODER DE PENETRAÇÃO DA ARTE
Ao longo do programa, os dois participantes falaram de suas influências artísticas: Sidnei cresceu ouvindo música sertaneja, MPB e samba; depois, também curtiu rock. Já Daniel recordou-se das canções de Luiz Gonzaga que seu pai ouvia pelo rádio: “Isso pra mim é poesia pura!”.
“A poesia é a inversão do olhar, é enxergar a beleza onde ninguém vê, até mesmo onde não há beleza, e conseguir traduzir isso em palavras”, ressaltou Daniel.
Os entrevistados declamaram e cantaram “Nicotina e poesia”, “Três lamentos” e “A poesia e a luta”, a qual deixa claro que “não se faz poesia sem luta e não se faz luta sem poesia”.
“Existem mil maneiras de lutas e a gente não pode se acovardar de jeito algum. Temos de botar pra fora nossas necessidades, anseios, lutas e vontades. E uma das formas é com a poesia, como acontece nos saraus”, disse Daniel, destacando que a poesia saiu dos grandes recitais e teatros para ir às periferias, “passando a ser exercitada por pessoas simples, que não tinham acesso a grandes autores e escritores, e que passaram a escrever a partir das suas referências”. Ele lembrou, porém, que ainda que poesia tenha virado uma arma de luta e resistência não se deve esquecer que ela “é, acima de tudo, amor”.

PARCERIAS E PROJETOS
Daniel Alexandrino ainda não publicou as poesias que declama nos shows e saraus, mas não descarta fazê-lo um dia.
Já como documentarista, ele lançou em 2014 o filme “Grajaú em Foco”, que fala sobre a efervescência cultural no Grajaú. Em 2017 foi a vez de “Protagonismo Periferia”, com ampla participação de adolescentes; e mais recentemente está com o projeto “Acolhendo Histórias”, no qual faz minidocumentários, de cerca de 15 minutos, “elencando personagens de territórios da periferia, mostrando quem são estes guerreiros da periferia que estão construindo e tocando estas histórias. Já estamos na segunda temporada. Começamos em 2023”.
No mês de fevereiro, Daniel e Sidnei participaram do show “Encontro das Artes”, um projeto mantido há 27 anos por Zulu de Arrebatá, que também esteve na parte final do ‘Sintonia Cultural’ de 24 de janeiro.
“Este projeto surgiu pra trocar figurinhas entre os artistas e fortalecer trabalhos”, detalhou Zulu de Arrebatá, cujo nome artístico significa “o Guerreiro que encanta”. Filho de nordestinos e nascido em São Miguel Paulista, na zona Leste de São Paulo, ele ajudou a fundar, em 1978, o Movimento Popular de Arte de São Miguel Paulista.
Zulu é referência da cultura periférica paulistana, sendo autor de composições densas sobre o cotidiano, os afetos e as esperanças do cidadão comum.
Para saber mais sobre o projeto litero-poético-musical ‘Um Olho Sol’, acesse: https://www.instagram.com/um_olho_sol.
Já para conhecer o “Encontro das Artes”, veja o perfil de Zulu de Arrebatá: https://www.instagram.com/zulu_de_arrebata/.
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