‘Revista da Semana’ entrevista a escritora Sara Cristina, ex-moradora de rua

No dia em que Sara Cristina Kauan obtiver a graduação como bacharel em Direito trará em seu diploma as marcas de uma história de superação, a qual ela conta no livro “Olhos, janela da alma”, já escrito, registrado, mas ainda não publicado.

Na edição de 24 de janeiro do programa ‘Revista da Semana’, Sara Cristina conversou com Beto Souza sobre a própria história de vida e o enredo do livro.

A VIDA NAS RUAS

Sara passou a maior parte da infância vivendo nas ruas: “Minha infância foi com idas e vindas das ruas. Minha mãe era usuária de drogas e geralmente eu ficava com ela. Tinha vezes que ela voltava um tempo para a casa do meu pai, mas não aguentava e voltava para o vício. Meu pai chegou a interná-la duas vezes, mas ela não conseguia se livrar daquilo. Ela morreu quando eu tinha 9 anos. Então, as minhas lembranças de infância são dessa época de vida na rua”, contou.

Foi na rua, porém, que Sara começou a cultivar aquela que seria sua porta de libertação: “Devo tudo ao ensino, ao estudo. Gostava muito de ler. Aprendi a ler na rua. Eu perguntava para minha mãe as letras das placas de rua. E eu acabava juntando. E ela foi me ensinando a ler na rua, mas só entrei na primeira série com 9 anos de idade, quando passei a morar com meu pai após minha mãe ter morrido”.

Depois que a mãe faleceu com pneumonia, Sara passou a viver com o pai e os avós paternos, e ainda hoje guarda boas memórias sobre o avô: “Ele morreu em 2002. Sempre me levava para a Igreja. Ele tocava violão, fazia gravações para mim cantando e colocava no radinho dele para eu ouvir”.

A morte do avô veio acompanhada de outra perda. “Eu perdi um irmão com um tiro na cabeça. Ele tinha 16 anos e estava viciado também. No dia seguinte, eu perdi o meu avô, que tinha doença de chagas”.

AJUDA PARA RECONSTRUIR SUA HISTÓRIA

Morando na Brasilândia há quatro anos, Sara foi criada no Cantagalo, também na zona Noroeste da capital paulista. Atualmente, passa por acompanhamento psicológico no CAPS da Brasilândia e em uma unidade básica de saúde.

No CAPS, Sara participa de um grupo de escrita e de poema: “Eu achei sensacional esse grupo, porque as pessoas acabam se expressando de forma ampla. E lá há muitas tentando superar vícios. Eu fumei há muito tempo, mas parei de fumar sem ajuda de ninguém, isso há cerca de um ano. No começo, deu um pouquinho de crise de ansiedade, mas com auxílio clínico está dando certo”.

DOS POEMAS AO LIVRO DE SUA HISTÓRIA

Sara contou que desde o Ensino Médio tinha em mente ser escritora: “Eu me lembro de chegar para a minha professora de português e dizer ‘eu vou ser escritora’, e todo mundo olhava e dava risada, porque eu era muito travessa. Muitos falavam “de onde que você está tirando a cabeça de escritora?’ Só que eu já tinha a história dentro da minha cabeça, isso com 16 anos de idade. Eu já lia bastante, escrevia bastante. E fui me dedicando à escola, a minha vida era escola. Eu chegava em casa e estudava muito. Também fazia parte do Grêmio Estudantil. Eu realmente gostava de escrever em papel. Até hoje não gosto muito de computador”.

E o sonho se concretizou. A obra “Olhos, janela da alma” já está escrita, registrada em breve será publicada, tendo como protagonista a adolescente Clara, que vive em situação de rua, mas nem por isso deixa de imaginar um futuro melhor.

“Ela sonha em fazer uma faculdade. Seu nome é Clara porque ela vive no escuro. A sociedade não a enxerga. As pessoas passam e não olham para ela ali na rua. Está chovendo e ela, com fome, sente o cheiro de comida ao longe. Quer comer e não tem o que comer. E há um momento em que Clara entra na biblioteca e fica fascinada, porque ela ama os livros. Daí, acha no lixo um livro e o guarda como se fosse um tesouro. É um livro empoeirado, velho, mofado, antigo, mas ela o carrega de uma forma que é sua alma”, detalhou Sara

“E por que eu escolhi ‘olhos’ no nome? Porque tudo para gente são os olhos. E a janela é o que traz para alma. Então é tudo um reflexo. São os olhos refletindo a alma da pessoa”, explicou.

FUTURA ADVOGADA

Há sete anos e meio, Sara iniciou a faculdade de Direito. Em condições normais, já a teria concluído, pois a graduação dura cinco anos, mas enfrentou percalços.

“Eu tive dificuldades financeiras e, algumas vezes, precisei trancar a matrícula. Aí, fazia um semestre, parava. Voltava depois, e assim vou caminhando, até completar os cinco anos da graduação. Na verdade, eu vou fazendo transferência de universidades, pois não consigo efetuar o pagamento inteiro do valor”, explicou.

“Eu comecei estudar Direito para ajudar o próximo. Eu sempre tive essa ênfase, mas hoje, estou pensando um pouquinho mais no Direito criminal, que também é direitos humanos. Eu gosto mais de trabalhar com as pessoas que realmente precisam”, comentou Sara, detalhando que na escolha pela graduação que faria teve a ajuda divina.

“Eu converso bastante com Deus, e falei ‘Deus, me mostra o que o Senhor quer que eu faça, porque eu gosto tanto de Biomedicina quanto de Direito’. E por incrível que pareça aconteceu uma coisa bem engraçada: um dia, eu peguei um ônibus até o Terminal Pirituba e fui conversando com Deus como sempre faço. Chegando ao Terminal, tinha uma estante de doação de livros. Na hora que eu desci, tinham acabado de colocar lá uns 10, 20 livros de Direito. Eu olhei falei: ‘Deus, já entendi o recado, é Direito”.

Nesta trajetória de estudos, um momento marcante foi o estágio de dez meses que realizou no gabinete do deputado estadual Teonílio Barba (PT) na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, no projeto S.O.S Racismo.

Ela conta que apesar de ser um pessoa branca conseguia sentir muito em si a dor do próximo. “Lá eu aprendi muito sobre o racismo, algo que eu não tinha um entendimento tão amplo, não sabia o quanto dói no outro. Vi muito casos, assim, que doeu em mim, sabe, ao ponto de eu ter que ir ao banheiro e lavar o rosto, porque eu começava a chorar. Certa vez, nós atendemos uma mãe cuja filha sofreu racismo. Ao atendê-la, eu me coloquei no lugar daquela mãe. A menina tinha apenas 6 anos e estava cheia de hematomas. Além de apanhar na escola, ela sofreu racismo, e isso impactou tanto a menina que ela começou a se desenhar no papel como uma menina loira dos olhos azuis e branca. Ela não aceitava mais sua cor nem seu cabelo”.

Sara lembrou que a partir deste projeto teve mais certeza em ser advogada para ajudar as pessoas que mais precisam. Ao fim do programa, Beto Souza lembrou que os microfones da rádio Cantareira sempre estarão abertos para que ela mostre seus livros e demais boas ações que realizar.

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