Quando será o fim das enchentes no Damasceno, Vista Alegre e arredores?
Ano após ano sofrendo com as consequências das enchentes, os moradores do Jardim Damasceno, Jardim Princesa, Jardim Paraná, Jardim Boa Vista, Jardim Vista Alegre e arredores cada vez mais têm se mobilizado para cobrar do poder público medidas que, efetivamente, possam pôr fim a este sofrimento recorrente, especialmente entre o período de novembro a março, de maiores chuvas.
“A realidade das periferias em tempos de chuva” foi tema em destaque na edição de 7 de janeiro do programa ‘Comunidade em Foco’, apresentado por Adão Alves e Juçara Terezinha, com a participação presencial e on-line de lideranças locais e de Eliel Souza Guimarães, da Coordenadoria de Governo Local da Subprefeitura da Freguesia Brasilândia, representando a subprefeita Ana Paula Calvo Faria.
AS DEMANDAS DA COMUNIDADE

No início do programa, Juçara Terezinha comentou que neste 30 anos em que vive no distrito da Brasilândia escuta relatos dos moradores sobre os impactos das enchentes, fruto, segundo ela, “do descaso do poder público que deixa estes córregos completamente assoreados. Eles ficam sem manutenção e nós sofremos com as enchentes, inundações. As pessoas perdem tudo”.
Jabes Campos, do Instituto Saci, enfatizou: “A comunidade se sente complemente desabrigada e desamparada neste período de chuvas. A cada janeiro já começa aquele sofrimento, o medo sobre o que vai acontecer e de quando a chuva virá”.
Na sequência, ele leu a carta aberta formulada pela comissão dos moradores do Jardim Damasceno, Jardim Princesa, Jardim Paraná e Jardim Boa Vista, na qual lembram a realidade angustiante de terem de ficar presos em suas casas por causa das enchentes ou sem conseguir delas sair nestas ocasiões. Na carta, há a cobrança para que a Prefeitura estabeleça um plano de obras eficaz, bem como uma política de atendimento emergencial para evitar tais situações e reparar os danos que as enchentes causam à população.
AS ENCHENTES, O LIXO E A FALTA DE INFORMAÇÃO

Thiago Silva, morador do Jardim Vista Alegre, afirmou que embora a atual gestão da subprefeitura esteja promovendo algumas melhorias e obras para conter as enchentes, os moradores da região ainda estão traumatizados.
“Aqui em casa, quando ouvimos barulho de chuva, ficamos todos em alerta esperando o pior acontecer, pois moramos de frente para o córrego. Aqui na minha casa, por exemplo, colocamos comportas, fizemos obras, mas são coisas que custam caro”.
Ele assegurou que não são as pessoas do bairro que jogam lixo e entulhos nos rios, e que muitas vezes o descarte é feito por quem não vive no local: “Tinha caçamba da Prefeitura aqui na minha rua e mesmo assim vinham pessoas de fora jogar lixo no rio. Na minha rua tem dez casas e todo dia há um sofá novo no rio. Não tem como ser coisa dos moradores da rua, é de gente de fora”, enfatizou, deixando a sugestão de que a Prefeitura se valha do programa Smart Sampa para fiscalizar e punir quem joga lixo nos rios ou nos pontos viciados de descarte.
Marileide Cavalcante, também moradora do Jardim Vista Alegre, divergiu: “Eu moro do lado do córrego e vejo, sim, moradores do bairro jogando sujeira dentro do rio, mesmo sabendo que eles mesmo é que serão prejudicados. E não é só lixo: tem sofá, cama, material de construção. Muitos quando constroem uma casa, não contratam uma caçamba para levar os entulhos, eles pagam alguém pra jogar dentro do rio. Eu já cansei de brigar por causa disso. Eu já fui até ameaçada por vizinhos por causa disso, mesmo explicando que quando vier a chuva, o rio vai estar cheio de coisa e vai alagar”, disse, apontando que a Prefeitura tem feito a coleta de lixo diariamente. “A Prefeitura pode ter sua culpa, mas os moradores têm mais, pois não têm consciência com o meio ambiente”.
Falando diretamente da entrada do Jardim Paraná, próximo a um ponto viciado de lixo, Eliana Santos lamentou que nem sempre o poder público faça obras eficazes para resolver os problemas estruturais e tempos depois precise realizar novas intervenções.
Já Deusdedit Vieira Nunes, morador do Jardim Paraná e conselheiro municipal de saúde, disse que desde os anos 1980 os bairros da Brasilândia sofrem com enchentes. Ele também criticou o fato de a Prefeitura estar realizando obras de limpeza de rios e córregos e de canalização, mas sem informar o que será feito com as casas do entorno, o que preocupa os moradores. “Na beira do córrego mora gente!”.
Com a experiência de quem já foi trabalhador da Sabesp, Adão Alves lembrou que uma das possíveis razões para as enchentes recorrentes e para o levantamento do asfalto após as chuvas está no fato de as construções mais antigas e algumas atuais fazerem desembocar na rede de esgoto também as águas pluviais: “A solução passa por uma parceria entre a Prefeitura e a Sabesp para tirar as águas de chuva da rede do esgoto. Enquanto isso não for feito, continuaremos a ter o asfalto estourando e as pessoas ficando sem transporte”.
Adão afirmou ainda ser fundamental não só educar as novas gerações sobre as questões ambientais, mas também se pensar algo a respeito para os adultos, e sugeriu que um caminho viável seria buscar parcerias com as igrejas para veiculação de conteúdos sobre educação ambiental.
Juçara, por sua vez, cobrou que a Prefeitura informe melhor os munícipes sobre coisas elementares, como o dia da passagem do caminhão que coleta recicláveis e a localização e funcionamento dos ecopontos.

A VOZ DO PODER PÚBLICO
Após ouvir as falas dos participantes do programa, Eliel Guimarães, da Subprefeitura Freguesia Brasilândia, lembrou que já há um grupo de trabalho para prevenção de chuvas, que fica ativo do final de novembro a até o fim de março.
Respondendo a uma das sugestões apresentadas por um dos participantes do programa, Eliel explicou que o Smart Sampa não pode ser aplicado para fiscalizar os autores do descarte irregular de entulho e de lixo, pois apenas se aplica ao monitoramento de prédios e equipamentos públicos, com vistas à prevenção a roubos e crimes.
Segundo ele, a solução passa pela união de esforços da comunidade afetada e da Prefeitura: “Se não houver a participação das entidades sociais e da população, juntamente com os órgãos competentes, resolver estas questões, principalmente do descarte de lixo, será muito complexo”.
Eliel contou ainda que a subprefeitura montou um comitê de urgência e emergência, envolvendo a PM, GCM, unidades básicas de saúde, a empresa de limpeza pública, os representantes do conselho ambiental para pensar estratégias de combate às enchentes e mitigação de seus impactos, além de adotar ações recorrentes, como a limpeza na área da ocupação Nova União e o recolhimento de lixo, todas as quintas-feiras, nos pontos viciados ao longo da Avenida Deputado Cantídio Sampaio.
“Para o início deste ano, nós contratamos mais dois caminhões de hidro-jato para fazer a limpeza dos bueiros e dos córregos”, explicou, lembrando, ainda, que um ecoponto está sendo construído na Avenida Deputado Cantídio Sampaio, nas proximidades do Jardim Damasceno e do Jardim Carumbé, onde anos atrás havia um posto da Polícia Militar.

AÇÕES ESTRUTURANTES PARA SOLUÇÕES DEFINITIVAS
Eliel também detalhou o conjunto de obras que a Prefeitura já iniciou para combater as cheias históricas no Córrego do Bananal, por meio da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb), com intervenções especialmente nos bairros Jardim Vista Alegre e Jardim Damasceno.
Segundo notícia no site da Prefeitura de São Paulo, publicada em dezembro do ano passado, “dentre as obras contratadas, e já iniciadas, para aumentar a capacidade do sistema de drenagem do Córrego Bananal está a canalização do trecho entre a Rua Matimpererê e a Avenida General Penha Brasil, com extensão de 1.274 metros. A intervenção inclui a contenção da margem direita do córrego e do talude no terreno da EMEF João Amós. Com investimento de R$ 82,1 milhões, as obras já foram iniciadas e serão concluídas em 2027”.
Para ampliar ainda mais a capacidade do sistema de drenagem da região da Brasilândia, a Siurb diz que “já está desenvolvendo os projetos para a construção de um novo piscinão, previsto para ser implantado na Avenida Deputado Cantídio Sampaio. A intervenção foi proposta no Caderno de Drenagem da Bacia Hidrográfica do Cabuçu de Baixo e integra as Ações Prioritárias do Plano Diretor de Drenagem (PDD) da cidade. Em breve, outro equipamento para o combate às cheias será entregue à comunidade da Freguesia-Brasilândia. A nova galeria do Córrego Carumbé já está com obras em andamento na região, e entrará em operação no primeiro semestre de 2026. Construída sob a Avenida Manoel Bolívar, a galeria também terá a capacidade de armazenar as águas excedentes do córrego Carumbé nos períodos chuvosos”.
Eliel foi questionado por participantes do programa sobre o porquê de todo este plano de ação não estar ocorrendo ao mesmo tempo em que se discuta o destino das famílias que hoje vivem em área de risco e que terão de deixar suas casas em definitivo para que se procedam estas intervenções. Ele afirmou que nem sempre é possível ter respostas simultâneas das secretarias de infraestrutura e habitação, pois o ritmo dos projetos e de mapeamento das demandas é diferente em cada uma das pastas.
ABERTURA À COMUNIDADE
Na parte final do programa, Adão pediu que a Prefeitura divulgue melhor onde há ecopontos e ajude a conscientizar as pessoas a não jogar lixo em pontos viciados, bem como haja para conter quem faz isso: “Algum tipo de repressão para que isso não aconteça precisa haver”, insistiu, pedindo ainda que se crie “uma cultura para que as pessoas entendam que esquina não é lugar para jogar entulho”.
Jabes Campos disse ser importante que haja um trabalho integrado da comunidade com a Subprefeitura, para ajudar a difundir informações sobre a questão dos serviços ambientais e de reciclagem na região. Afirmou ainda ser fundamental que o comitê emergencial das chuvas ouça os moradores para ver quais as áreas onde é mais recorrente ocorrerem enchentes, a fim de se traçar um plano de contingência imediata, bem como pensar rotas de fuga no caso das enchentes e instalação de sirenes em locais de maior risco de desabamentos e inundações.
Em sua fala final, Eliel Guimarães agradeceu à rádio comunitária Cantareira FM pelo fórum de reflexão realizado e assegurou que a Subprefeitura Freguesia Brasilândia está de portas abertas à população: “Precisaremos sempre da ajuda de todos que tenham interesse em melhorar a nossa região. Não estamos falando aqui de política partidária, mas sim de política pública”.
ASSISTA A ÍNTEGRA DO PROGRAMA DE 7 DE JANEIRO
