‘SUS Nosso de Cada Dia’ destaca a saúde da população periférica negra

Já virou tradição: na última quinta-feira de cada mês, o programa ‘Comunidade em Foco’ da rádio comunitária Cantareira FM, é totalmente dedicado ao ‘SUS Nosso de Cada Dia’, uma conversa com diversas lideranças sobre os problemas e as potencialidades do Sistema Único de Saúde.

Em 27 de novembro, Adão Alves e Marcos Rubens receberam nos estúdios Douglas Cabral, enfermeiro e membro da Articulação Nacional da Enfermagem Negra (Anen); Izabel Magalhães, integrante da Pastoral da Saúde e que já atuou como conselheira de saúde; Milton Francisco, palestrante e empreendedor periférico na área de construção civil; e, de modo remoto, também participou Antonio Junião, diretor e cofundador da Ponte Jornalismo, que se dedica a reportagens-denúncia sobre as injustiças sociais sofridas pela população pobre, preta e periférica.

O assunto em pauta foi “A atenção à saúde da população periférica negra e trabalhadora”. No começo do programa, Marcos Rubens lembrou que falar de SUS não é somente pensar nas questões do posto de saúde, mas em tudo que impacta a qualidade de vida das pessoas e no tratamento humanizado e com acesso igualitário que devem ter quando procuram a rede pública de saúde.

FALTA DE OBJETIVIDADE NAS INFORMAÇÕES

Ao longo do programa, Milton Francisco disse perceber que a população preta periférica, por vezes, não tem sido bem tratada nos hospitais nem nas UBSs, mas que não pode haver uma generalização a este respeito.

Izabel, por sua vez, comentou que muitas vezes as unidades de atenção primária a saúde não têm feito os devidos exames para descobrir as causas das dores, mas só dado medicamentos e injeções para combater as consequências de uma dor que alguém esteja sentido.

A agente da Pastoral da Saúde também disse que uma das reclamações dos usuários tem sido o não entendimento de como funciona a senha eletrônica: “Quando chama essa senha, a pessoa tem de ficar atenta, pois se ela demorar muito para ir, aquela senha cai e desaparece do sistema. Muitas pessoas, como os idosos, não têm entendido isso. Então, às vezes, a informação e a orientação não é pensada para ser entendida pelas pessoas simples e isso é um problema. As informações dadas pelos agentes de saúde não são claras”.

Izabel enfatizou ser fundamental que a população participe ativamente dos conselhos de saúde. “Se nós, usuários, não participarmos das reuniões dos conselhos e ali não colocarmos o que está acontecendo, nada irá melhorar. Nada é de graça na saúde, tudo é pago com os nossos impostos, e temos de ver como estão gastando este nosso dinheiro. Se a população leva as necessidades para o conselho gestor, a gestão da unidade tem o dever de levar para instâncias superiores o que está acontecendo para resolver”, detalhou.

Antonio Junião destacou que todos têm a responsabilidade, ao exercer sua profissão, independentemente de qual seja, de buscar o bem coletivo, ajudando que a comunidade se emancipe e gere frutos, o que envolve pensar políticas públicas, como nas da área de saúde, que “contemplem a sociedade em geral e para pensá-las são necessários vários atores”.

Marcos Rubens, que já atuou como conselheiro participativo municipal por dois mandatos, entre 2014 e 2017, lembrou que ainda hoje as pessoas que frequentam unidades básicas de saúde e UPAs não têm todas as informações sobre os serviços, e que não sabem onde e como recorrer quando não encontram um medicamento ou um serviço. “A primeira coisa, quando for assim, é acionar a ouvidoria da própria unidade e a ouvidoria do SUS municipal e do SUS nacional e fazer o registro da situação”. Lembrou ainda que é possível passar o caso ao conselho gestor da unidade de saúde para que informe a direção sobre os problemas.

QUEM É A POPULAÇÃO NEGRA?

Douglas Cabral mencionou que fez seu TCC na graduação de Enfermagem sobre a saúde da população negra, e a partir disso se envolveu nos movimentos sociais como a Liga Acadêmica de Saúde da População Negra da Faculdade Santa Marcelina; a Articulação Nacional da Enfermagem Negra (Anen); e a Articulação Nacional Pró-Saúde da População Negra.

Segundo o membro da Anen, uma das questões em pauta hoje é sobre a importância de que se fomente que as pessoas ao procurarem um serviço de saúde informem sua raça/cor, mas que muitas têm dúvidas a respeito de si no que se refere a esta autodeclaração.

“No quesito raça-cor, há cinco categorias: branco, amarelo, preto, pardo e indígena. Segundo o IBGE, a categoria negro engloba pretos e pardos. A questão é que na etimologia, a palavra ‘pardo’ quer dizer ‘branco sujo’. Até teve um podcast recentemente em que o Mano Brown chamou a Camila Pitanga de mulata e ela reagiu dizendo que não é mulata, mas que é negra. E por quê? De novo, temos de falar de etimologia, pois mulata vem de mula. Mas se formos seguir neste caminho, negro, que se origina de nigger, nos Estados Unidos, é uma coisa pejorativa, foi uma nomenclatura criada pelos europeus, pela sociedade branca para designar ‘pessoas que eram não pessoas’ sob o olhar deles. Então, precisamos ter isso em mente, mas enquanto não conseguirmos redefinir essas cores no IBGE, nós, como formadores de opinião, devemos ajudar a orientar as pessoas sobre isso”, enfatizou Douglas, lembrando que, lamentavelmente, quase nunca quando uma pessoa dá entrada no serviço de saúde, seja perguntada como se autodeclara no quesito cor/raça.

Adão comentou que o racismo estrutural é tão forte no Brasil que mesmo as pessoas que fazem parte das camadas mais excluídas acabam usando os termos das classes dominantes. “Eu não sou pardo. Eu sou afrodescendente. Os meus antepassados foram importados à força da África”, enfatizou.

Antonio Junião lembrou que é importante que essa autodeclaração ocorra no atendimento de saúde para que se possa ampliar os serviços a favor da população afrodescendente. “Biologicamente, somos todos seres humanos, mas há essa construção social que foi imposta, pois colocaram todos os povos de origem africana como negros. A nossa identidade, portanto, foi sequestrada desde África, bem como a nossa cultura. E por conta do capitalismo, a gente foi desumanizado, foram desconstruindo a nossa cultura, as nossas origens, para tornar a gente um bando. Houve toda essa construção histórica para desumanizar, dizer que a gente era inferior, e hoje em dia é difícil descontruir isso, ainda que a gente esteja conseguindo avanços”.

Junião confidenciou uma de suas grandes tristezas nas coberturas jornalísticas relativas a casos de violência policial: “Em geral, quando um jovem negro é acusado de um crime que ele não cometeu, ele só descobre que é negro quando é preso. Ele não sabe que é negro, mas a polícia sempre saberá. E aí não tem essa diferença se é preto ou se é pardo: é de onde ele está, onde mora e qual a condição social tem”.

Douglas insistiu que a categoria negro engloba pretos e pardos e mais pessoas precisam ter consciência disso para que possam se unir e lutar por direitos. “Qualquer disputa para ver quem é mais negro só enfraquece o nosso movimento”.

Izabel Guimarães opinou que cada pessoa precisa se conhecer melhor para, assim, também enxergar a dignidade que há no próximo, como Deus ensina na tradição cristã. “As pessoas têm de trabalhar juntas: o mesmo valor e direitos que você tem, eu tenho; todos temos direitos e deveres, não temos só direitos, direitos e direitos, temos deveres também”.

Ao longo do programa, porém, Milton Francisco disse que esse ideal de igualdade ainda é uma realidade distante, e não raro as pessoas de classes mais altas menosprezam ou tratam como inferiores os pretos, pobres e periféricos.

Caminhos para mudança: mais acesso a informação e união dessa populações, como afirmaram em diferentes momentos do programa os participantes.

VEJA A PRIMEIRA PARTE DO PROGRAMA DE 27 DE NOVEMBRO

ASSISTA A SEGUNDA PARTE DESTE MESMO PROGRAMA