5% das pessoas no mundo tem altas habilidade e superdotação, segundo OMS

O Censo Escolar de 2022 aponta que mais de 26 mil brasileiros têm esse laudo.

Por Victoria Marques

Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), cerca de 5% da população mundial tem altas habilidades ou superdotadas (AH/SD), e afeta cerca 26.815 alunos brasileiros, aponta o Censo Escolar da Educação Básica de 2022.

Apesar de ser laudado e considerado uma neurodivergência, não tem CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças), como explica a neuropsicóloga Thaís Barbian: “É considerado uma variabilidade da forma de funcionamento cerebral comportamental”. Ela destaca que pode ser até mesmo genético.

Esses dois termos têm diferença:

– Altas habilidade: potencial precoce e elevado, relacionado a criatividade e curiosidade. Geralmente, as pessoas que tem altas habilidades têm um jeito diferente de entender o mundo.

– Superdotação: pessoas que tem mais habilidade em áreas específicas, com QI mínimo de 130, é mais crítico e analítico. Essas pessoas absorvem mais conteúdo do que o comum e tem a capacidade de pôr em prática.

Thaís explica que outras características desse laudo podem ser hipersensibilidade, perfeccionismo elevado e ansiedade, por isso devem ter atenção psicológica: “O que a gente trata normalmente são as comorbidades, porque a gente pode ter um excesso de ansiedade, uma tendência a depressão. Não é considerado um diagnóstico, mas é importante laudar isso”.

O que mais pode afetar a qualidade de vida de pessoas com AH/SD é o meio social: “Para as meninas principalmente, essa autocobrança, excesso de empatia, tem a vulnerabilidade maior. Aquele famoso ‘não me encaixo, então eu vou me diminuir para me encaixar’. Isso é muito comum”.

AH/SD na sociedade

Esse é o caso de Vinicius Szafran Ferreira, de 30 anos, que só descobriu a superdotação em 2022: “Passei a vida inteira achando só que eu era muito tímido, que eu tinha muita dificuldade de interagir com as outras pessoas, principalmente com quem eu não conhecia. Então passei por vários tratamentos como de depressão, de fobia social, que na verdade eram só comorbidades que eu não imaginava”.

Vinícius aprendeu a ler com apenas dois anos, o que motivou seus pais à consultarem um especialista e descobrirem as altas habilidades. Esse laudo ficou ainda mais nítido durante a escola: “Da 1ª série até o 2º ano do ensino médio, eu ia superbem. Chegou no 3º ano, que mudei de escola e de cidade, foi ladeira abaixo, e nunca consegui terminar uma faculdade”.

Ele estudou três anos de biologia, trocou para jornalismo e estudou mais três anos, mas não concluiu nenhuma das duas. “Isso é meio frustrante, ainda mais porque ‘desde os dois anos, todo mundo sabe que você é superdotado’. Então ‘você tem que ser bom em tudo’, e tem uma expectativa gigante”.

AH/SD na escola

A pedagoga e psicopedagoga Patricia Bertachini explica que não é incomum alunos esconderem a superdotação para sentir que pertencem a um determinado ambiente, porque, por terem mais facilidade de absorver o conteúdo, pode gerar o efeito contrário e desmotivar o aluno.

Patricia acredita que as escolas ainda não são preparadas para quem tem AH/SD, mas está em processo de mudança: “Hoje em dia, nós temos um número de profissionais de neuropsicólogos, psicopedagogos e neuropsicopedagogos maior. Antes, quem tratava era só o psiquiatra. Hoje é uma equipe multidisciplinar”.

A escola precisa ficar atenta tanto aos alunos que não vão tão bem nas atividades quanto nos que se destacam, porque nos dois casos, o aluno precisa ter a saúde mental preservada. Além dos pais, que tem o papel de criar um ambiente familiar que possa ser confortável para todo tipo de conversa e leva-lo aos especialistas necessários.

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