Teleférico na Brasilândia? Uma proposta a ser vista com cautela

Nas duas últimas semanas, um assunto tem sido recorrente nas rodas de conversa e entre as pessoas que utilizam transporte público no Distrito da Brasilândia: a proposta de instalação de um teleférico partindo da futura estação Brasilândia da Linha 6 do Metrô, com uma parada na Avenida Cantídio Sampaio (uma das que mais congestionam na região nos horários de pico) e chegada até o CEU Paz, fazendo o percurso inverso na volta.
A viabilidade da proposta depende da aprovaç ão do projeto de lei 32/2025, de autoria da vereadora Sandra Santana (MDB), para que o teleférico seja incluído como modal de transporte coletivo na capital paulista. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) apoia a medida e já autorizou o início dos estudos.
O teleférico da Brasilândia deve ter uma extensão de 4,6km, sendo composto por quatro cabines, com capacidade para transportar até dez pessoas em cada uma. A velocidade média prevista é de 18 km/h, com intervalo de 15 segundos entre as cabines. A Prefeitura afirma que com isso será possível transportar até 3,2 mil passageiros por hora em cada sentido.
Mas seria essa uma solução viável para resolver os problemas de modalidade urbana na Brasilândia? Este foi o assunto debatido no programa Comunidade em Foco, da rádio comunitária Cantareira FM, em 2 de abril, com a apresentação de Beto Souza e Adão Alves, e as participações especiais, via vídeo, de Jabes Campos, do Instituto Saci – que realiza ações sociais no território; e do vereador Nabil Bonduki (PT), que é arquiteto e urbanista e há décadas dedica-se ao estudo da mobilidade na cidade de São Paulo.
Nabil: ‘é preciso um estudo detalhado e sincero’

Nabil Bonduki explicou que o teleférico é uma alternativa de mobilidade urbana que pode ser viável em grandes cidades, mas que antes de ser instalado deve ter um aprofundado estudo acerca de custos e da demanda de uso, a fim de que não se faça algo que, ao final, acabe por não atender às necessidades de uma região.
Uma parte destes estudos, de acordo com o vereador, deve considerar os impactos para a construção das estações.
“A região da Brasilândia, por ter um relevo acidentado, em tese seria um bom local para fazer um teleférico, mas é preciso considerar que o teleférico anda em uma certa altura. As estações precisam estar em um lugar alto, de maneira que será preciso estudar muito bem a topografia. Além disso, para instalar as estações se deverá abrir um espaço grande, o que vai significar remoção de pessoas, seja perto das estações, seja ao longo do caminho. As estações não podem ser muito próximas uma das outras, já que o teleférico não pode ficar parando muitas vezes”, explicou Nabil. “É preciso que haja um estudo detalhado e sincero sobre o custo-benefício desta iniciativa”, enfatizou.
O que aprender de outras cidades?
O vereador também disse que a quantidade de passageiros que a Prefeitura afirma ser possível transportar por hora no sistema de teleférico – 3,2 mil pessoas – não é compatível com o projeto que está sendo apresentado.
“Fala-se na passagem de uma cabine para 10 pessoas a cada 15 segundos, o que daria quatro cabines por minuto, ou 240 cabines por hora, havendo dez pessoas em cada, chega-se ao total são 2.400 passageiros, bem menos que o anunciado pela Prefeitura, e isso não considerando que haverá um tempo de parada”, alertou o parlamentar.
Nabil também lembrou que em cidades na Colômbia, bem como no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, onde houve a instalação de teleféricos, esse modal de transporte não se mostrou viável para os deslocamentos diários dos trabalhadores e acabaram ficando como uma atração para turistas. No caso do instalado na capital fluminense, a falta das devidas manutenções levou a deteriorações depois de cinco anos da instalação.
O parlamentar explicou ainda que não tem sido incomum que nas cidades que instalam teleféricos, que a população que deveria ser atendida acaba vivendo a contradição de ver as cabines passando sob suas cabeças, dado às distâncias que tem de percorrer até chegar a uma estação. Ele lembrou que na Brasilândia, assim como em outras regiões da periferia de São Paulo, a concentração de pessoas não se dá em um único ponto, tudo é mais disperso: “Se instalar algo muito distante de onde a pessoa está, ela continuará optando em ir de ônibus”.
Diálogo para definir prioridades

De acordo com Jabes, a Prefeitura de São Paulo está apresentando uma proposta que não foi debatida com a comunidade local. Ele ressaltou que no distrito da Brasilândia há outras urgências que mereceriam investimento público, como a canalização de rios em localidades que sempre alagam, bem como a construção de mais hospitais, UBSs e escolas.
“Fazer o teleférico será um investimento de alta monta, um investimento que irá envolver os governos municipal, estadual e federal e a iniciativa privada. Certamente é algo que pode trazer benefício para a região, mas quem irá resolver o que a gente precisa de fato? O que vai mudar a realidade da nossa cidade?”, questionou Jabes, enfatizando a necessidade de que haja audiências públicas na Câmara para debater a temática.
De acordo com a Prefeitura de São Paulo, a estimativa de custo do projeto é de R$ 2,84 bilhões, dos quais R$ 2,42 bilhões serão para a instalação das cabines, estações e cabeamento do teleférico. Já R$ 257,29 milhões serão usados para desapropriações de casas e áreas; e R$ 160 milhões para redesenhos viários e hortas urbanas ao longo do caminho.
Adão recordou que historicamente os governos apresentaram soluções mágicas para o distrito da Brasilândia: uma dessas, ventilada nos anos 1990, era a de ligar o Jardim Damasceno até onde ficará a estação da Brasilândia do Metrô, através de um túnel que passasse embaixo do Jardim Icaraí.
“Criar uma coisa que passe por cima do problema sem dar acesso às pessoas que estão no meio do caminho é, no mínimo, algo utópico, fantasioso. Criar condições de transporte coletivo que seja acessível para todo mundo ao metrô seria algo muito bom, porém, deve se lembrar que o teleférico não terá um ponto a cada esquina, ou seja, essa proposta não vai resolver o problema. Ela apenas vai criar um possível ponto de interesse turístico, levando à valorização do terreno e à expulsão das pessoas mais pobres do local. E não se resolverá os gargalos de transporte”, enfatizou Adão.
Por fim, Nabil Bonduki voltou a insistir que haja um profundo debate sobre o projeto, mensurando seus impactos, custos e real capacidade de atendimento: “Não dá para a Prefeitura fazer isso com a população goela abaixo, sem olhar todas as necessidades da região. E a Câmara pode ser o espaço adequado para fazermos audiências públicas, debates, comissão de estudos e o que for necessário para garantir um resultado melhor para a cidade”.
A seguir, veja a íntegra da edição de 2 de abril do programa Comunidade em Foco.