‘SUS nosso de cada dia’ trata sobre ecologia, meio ambiente e qualidade de vida
A cada mês, o programa ‘Comunidade Foco’, da rádio comunitária Cantareira FM, abre espaço para o “SUS nosso de cada dia”, que em 30 de outubro tratou sobre ecologia, meio ambiente e qualidade de vida.
Nos estúdios da rádio do povo, Adão Alves e Marcos Rubens receberam José Ulisses Bezerra de França, biólogo e mestre em Cidades Sustentáveis; Rui Primo, conselheiro do futuro Parque Municipal do Morro Grande; a adolescente Kimberly, do CCA Mariele Franco, em Ermelino Matarazzo. Também houve a participação on-line de Pedro Santinho, advogado, integrante da comissão de saúde da OAB na Lapa, além de conselheiro municipal de saúde.

PARQUE MUNICIPAL DO MORRO GRANDE
Rui Primo destacou que a comunidade da região Brasilândia tem se mobilizado para mitigar os impactos da crise climática atual e que uma das ações nesse sentido é a luta para a instalação do Parque Municipal do Morro Grande, em uma área que é remanescente de Mata Atlântica: “Fizemos essa luta durante 20 anos para preservar esta área e fazer a criação de um parque, que irá preservar a área e as edificações históricas. Em pouco tempo, estaremos com este parque concluído, trazendo bem-estar à população, inserindo com a questão da saúde, cultura, saúde mental e convivência com o ambiente natural”.
Rui Primo recordou, ainda, da mobilização dos moradores para a instalação de corredores verdes na região, partindo da saída da Marginal Tietê para a Avenida Edgar Facó chegando até o futuro Parque do Morro Grande, conectando, assim, várias áreas verdes. “Isso vai melhorar a questão da biodiversidade, o trânsito das árvores, mitigar o calor excessivo, o barulho, a poluição e trazer beleza para a nossa região”, afirmou.
O PODER PÚBLICO ESTÁ EFETIVAMENTE PREOCUPADO?
Pedro Santinho comentou que o tema do cuidado ambiental e qualidade de vida não está entre as prioridades de ação da Secretaria Municipal de Saúde, e que o tema só está em algumas das metas listadas no Plano Municipal de Saúde, que irá vigorar entre 2026 até 2029, no qual há poucas menções a questões como transição energética e atenção aos impactos das mudanças climáticas. “Até este momento, fomos pouco ouvidos pela secretaria municipal da saúde”, desabafou o conselheiro de saúde, destacando que o secretário da pasta quase nunca participa das reuniões do conselho de saúde, o que dificulta a tomada de algumas decisões, e que por essa razão já está em tramitação um projeto de lei na Câmara Municipal para que o presidente do conselho de saúde seja eleito pelos seus membros e não seja automaticamente o secretário de saúde.
O biólogo José Ulisses, também conhecido como Ulisses Queixada, contou que nos três mandatos em que foi conselheiro do Cades de São Mateus – conselho do meio ambiente – também conviveu com a ausência do subprefeito para presidir as reuniões do Cades. “Ou o subprefeito não tem agenda disponível ou não tem vontade política para participar”, desabafou. “Do jeito como está, isso é uma forma de engessar o conselho, pois algumas decisões só o presidente pode tomar, e o conselho se tornar apenas de fachada”.
O biólogo também criticou o fato de a atual gestão municipal anunciar inúmeros planos como o Plano Municipal do Meio Ambiente, Plano Municipal da Mata Atlântica e Recursos Naturais, mas não segui-los: “Então, para que tantos planos? Uma das respostas pode ser porque para o mundo é bonito mostrar que São Paulo tem plano de mudanças climáticas, de meio ambiente, de saúde, de habitação, só que não os segue. E se o Poder Executivo não cumpre, o Legislativo, a Câmara, pode começar a questionar o prefeito e todos os secretários porque os planos feitos não estão sendo seguidos. O que a prefeitura está fazendo e os vereadores também demonstra que não olham para as periferias”, enfatizou, recomendando que as pessoas pensem bem em quem irão votar em seus representantes para o Executivo e o Legislativo e o façam olhando para aqueles que têm os mesmos ideais e sonhos que elas e não por achar que determinado candidato é legal, simpático, “gente boa”.

POUCAS ÁRVORES, MUITAS CHUVAS E BAIXA IMPERMEABILIZAÇÃO
Ulisses Queixada recordou que todo o resíduo que não é devidamente descartado e tratado pode se tornar um lixo que vai parar nos corpos d’água – como os rios, riachos e lagos – com potencial para causar inúmeros problemas futuros, como alagamentos, inundações, quase sempre nas periferias na cidade e não raro em habitações construídas nas várzeas dos rios.
Ele lembrou que algumas cidades, como Carapicuíba, tem buscado inovações para que melhor se absorva as águas das chuvas. Lá, se construiu uma aquatória, um lago no meio de uma rotatória de carros. Enquanto isso, na capital paulista, segundo ele, a Prefeitura até vem implementando os chamados jardins de chuva, mas não o faz com muitos critérios técnicos: “A intenção de um jardim de chuva é a de aumentar a impermeabilidade do solo, para que quando chover o solo chupe essa água. Em tese, a prioridade seria instalar onde há mais inundações, mas, infelizmente, não é isso que está acontecendo”.
Ainda segundo o mestre em Ciências Sustentáveis, uma das causas para tantas inundações nas cidades é a derrubada excessiva de árvores para novas construções, o que leva a maior impermeabilização do solo da cidade.
LUTA CONTRA UM INCINERADOR EM SÃO MATEUS
José Ulisses, que também é doutorando em Engenharia de Produção e estuda arborização viária, é ainda conselheiro em três parques naturais municipais: Fazenda do Carmo, Parque Cabeceiras do Aricanduva e Parque do Iguatemi.
Ele criticou o fato de que em São Mateus, bairro onde mora, na periferia da zona Leste da cidade, a prefeitura esteja planejando instalar um incinerador de lixo, assim como pretende fazer no bairro de Perus, como já noticiou a rádio Cantareira FM.
“O Parque Cabeceiras tem um papel de manter as nascentes. Às margens deste parque, a Prefeitura quer cortar 63 mil árvores para instalar um incinerador de lixo em São Mateus. A legislação de um parque natural diz que toda a mata que estiver do lado, mesmo que fora do parque, é chamada de área de amortização. E essa área também ficou com risco de ser suprimida para ampliar mais um aterro, colocar um incinerador”, disse.
Adão Alves recordou que São Mateus, assim como Perus, já abriga um aterro sanitário, e agora se quer colocar mais lixo perto da população pobre: “Será que eles pensariam, por acaso, em fazer esse mesmo aterro sanitário no Morumbi ou nos Jardins? Só uma provocação”.
Ulisses lembrou ainda que antes de se falar na instalação de incineradores, havia o projeto de megacentrais de triagem em cada uma das cinco regiões da cidade, a fim de melhorar o percentual de apenas 3% de reciclagem dos resíduos residenciais atualmente, mas não há sinalização que se instalará estas megacentrais.
“A prefeitura tem de enxergar o catador de resíduo, as cooperativas, o catador individual e, inclusive, os ferros-velhos como agentes de promoção ambiental, inclusive, demandando recursos financeiros de apoio para esses entes: o catador individual, as cooperativas e o ferro-velho. Quanto mais a gente conseguir reciclar, menos vai precisar de aterros. Hoje, está se discutindo ampliar em São Mateus, daqui a cinco anos vamos estar de novo e de novo, e é um ciclo vicioso. Não adianta a Prefeitura querer de novo ampliar mais uma vez o aterro em São Mateus, impor a nós um incinerador e não discutir, não encarar de forma séria o problema, porque a pergunta que fica é a seguinte: Quem ganha? Quais empresas ganham com isso? Quem perde nós sabemos: é a população. Prefeitura de São Paulo, quando vocês vão discutir o tema de resíduo sólido de forma séria, de forma compromissada? Parem de olhar para as periferias como lixeira da cidade. Até quando isso?”.
Sobre a proposta do incinerador em São Mateus, Ulisses Queixada criticou o fato de que uma obra como essa, que destruirá significativamente a natureza, poderá ser validada por políticas de mitigação de impacto ambiental, que permitem fazer a compensação em territórios e outras cidades que não têm as precariedades de áreas verdes como é o caso de São Paulo.
Pedro Santinho, por sua vez, lembrou o caso do desastre ambiental em Mariana (MG), em 2019, em que ao final do processo se destinou recursos para reparação ambiental, mas o governo do estado destinou a verba para a construção de estradas e outras obras não relacionadas à reparação de danos. “A legislação brasileira, embora avançada em muitos aspectos, tem muitas brechas e permite que você destrua aqui e aparentemente compense ou repare em outro lugar o dano causado, o que é feito de forma pouco democrática”.

ÁRVORES EM PÉ: A MELHOR POLÍTICA AMBIENTAL
Durante o programa, Rui Primo recordou a proposta da comunidade local de que se instale uma pequena central de reciclagem na região noroeste da cidade: “A gente tem muitos descarte de lixo aqui, descarte irregular. Resíduos. E a gente poderia trabalhar isso na questão da melhoria do nosso meio ambiente, e de renda, pois isso vai proporcionar trabalho e renda. Espero o apoio que entendem mais do assunto pra gente desenvolver aqui na Brasilândia essa central de triagem, que vai ser importante para a melhoria do nosso ambiente e o trabalho e renda também”.
Ele enfatizou, porém, que a melhor política pública de meio ambiente é a conservação das áreas verdes: “A ONU orienta que todos os bairros deveriam ter 30% de cobertura de copa de águas. Nós aqui na Freguesia temos 11,42%. É um pouquinho melhor que os bairros da zona Leste, mas está muito abaixo do ideal. E nós temos tido aqui no nosso bairro, com esse processo construtivo, com essa verticalização excessiva, perdas de muitas áreas verdes”.
Rui Primo ponderou que embora seja importante a realização do plantio de mudas de árvores pela Prefeitura de São Paulo, há questões a serem avaliadas: “A Prefeitura está com esse objetivo de 120 mil árvores, mas como é que são essas mudas? Elas vão resistir ao clima da cidade? Quanto tempo levará para essas mudas se tornarem árvores que nos darão sombra e vão refrescar o ar da cidade? Então, seria certo e mais lógico um plano construtivo na cidade que preservasse todas as áreas verdes. O mais importante é ter as árvores em pé. Portanto, plantar mudas de árvores, criar florestas de bolso e muitas outras atitudes é bom, mas essas mudas demoram a crescer e não sabemos como vai ser o manejo, como elas vão resistir e em quanto tempo elas vão crescer. Então, preservar as áreas verdes já existentes é muito importante”.
Pedro comentou que, muitas vezes, a discussão sobre a temática ambiental é tratada como um tema de classe média ou de acadêmicos, mas que não deve ser vista assim. “É um tema que diz respeito a cada cidadão de São Paulo, do Brasil e do mundo, e, mais do que isso, sobretudo àqueles que vivem nas periferias abandonadas pelas políticas públicas do nosso país”, afirmou, destacando que, por isso, o conselho municipal busca levar a discussão dessa temática e fazer pressão sobre os governos, especialmente sobre a Secretaria de Saúde, para que a questão ambiental entre na agenda política.
Ulisses enfatizou que não dá para dissociar o cuidado do meio ambiente das questões de saúde pública: “Nada representa mais a saúde pública do que falar das áreas verdes, urbanas e das áreas azuis”. E ressaltou: “Nós somos parte do meio, não somos algo externo. E como parte, temos de cuidar como sendo a nossa casa comum, porque, com isso, preservaremos a nós mesmos”.
Rui Primo também enfatizou que as questões de saúde se relacionam com o meio ambiente, para assegurar melhor qualidade de vida e bem-estar à população, e até por isso tem havido toda essa mobilização em prol do Parque Morro Grande: “A periferia merece e precisa de parques. Parque não é luxo, é necessidade. Então, se a população tomar essa conscientização, ela vai trabalhar melhor essa questão. Por isso, continuamos na luta”.
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