Sobre a infância

por Simone Aparecida Preciozo Figliolino

Quem, como eu, andou pela escola como trabalhadora ou trabalhador, presenciou uma transformação acelerada naquilo que se convencionou chamar de infância. Sem saudosismos, convido você a uma reflexão sobre o quanto esse conceito se modificou nos últimos anos, especialmente após a pandemia de coronavírus. O contato com as redes sociais pode ter sido um fator para essa aceleração.

Desenvolvemos a tendência a acreditar, até então, que a infância da geração “baby boomer”, que marcou o pós-guerra e que enriqueceu os estúdios da Disney, fosse um padrão, como se sempre tivesse sido assim. Somos a geração que mais valorizou a experiência do audiovisual. O cinema, inclusive nos ajudou a compreender as fases históricas que nas quais não vivemos, porque, mesmo em obras de ficção, ao abordar temáticas sociais, existiu um esforço das produções em trazer elementos realistas à trama. Até bem pouco tempo isso teria sido um valor. Então, em obras destinadas aos adultos, as cenas de filmes que abordaram a atuação dos generais alemães na Segunda Guerra, acredito, tenham sido fruto de extensas pesquisas e nos informaram. Digo isso para trazer foco sobre como a infância aconteceu por aqueles dias.

Seja na representação dos guetos ou campos de concentração e extermínio, em que as cenas mostravam filhos de altos militares da confiança da SS assistindo ao pai atirando a esmo nos trabalhadores forçados, seja na infância perdida entre os pequenos judeus crescendo com um medo real, seja na sociedade alemã da época em que as crianças eram incentivadas a denunciar a presença de semitas na vizinhança, ainda que precisassem entregar ao nazismo seu amiguinho da rua.

A obra de não ficção de Adorno, o livro “Educação e Emancipação”, apresenta ao mundo pós Segunda Guerra como ele, sendo sobrevivente aos seus horrores, discorreu sobre a necessidade de nos opormos e combatermos a barbárie. Somente uma educação política teria tal poder. Nessa obra, Adorno insistentemente defende que a educação precisa evitar que o que aconteceu em Auschwitz se repita. Nunca essa preocupação foi tão atual, desde a escrita desse livro.

Hoje, vemos uma sociedade doente que tem colocado nossos pequenos diante das relações de poder que o capitalismo impõe. Seja em casa, nos templos, nas escolas. Em Gaza, Israel, no salão oval da Presidência dos EUA. De tudo o que nos passa, a maior preocupação deveria ser com a deterioração das infâncias. Seja do pequeno palestino que foi mutilado enquanto perdia todos de sua família em um bombardeio ou do pequeno reizinho que não se intimida em dizer a um presidente da república aquilo que ouve em seu ambiente familiar. Ou você realmente acredita que uma mente de quatro anos em formação teria formulado uma ofensa dessa magnitude?

Talvez tenhamos que revisitar Adorno e tentar salvar nosso futuro. As crianças, essas mesmas que estão sujeitas a um planeta deteriorado, certamente vão agradecer o esforço.

Crédito: Unicef/Saleh Hayyan