‘Sintonia Cultural’ debate justiça climática e transição energética na perspectiva da periferia

Dias antes da realização da 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém (PA), a edição de 8 de novembro do programa “Sintonia Cultural” trouxe uma reflexão sobre Justiça Climática e Transição Energética para as periferias.

Os apresentadores Adão Alves e Anilson Brito receberam nos estúdios José Ulisses Bezerra de França, biólogo e mestre em Cidades Sustentáveis, e sua filha, Kimberly, presidente do CCA Mariele Franco, em Ermelino Matarazzo, e de modo on-line também participou Valéria Silvestre, mestre em Educação e Práticas Educacionais e especialista em Gestão de Políticas Públicas.

Ulisses Queixada, como é mais conhecido, explicou que, em tese, nas COPs os países assumem compromissos para ir mitigando a geração de poluentes que impactam diretamente o aquecimento global.

E NO QUE ISTO TOCA A PERIFERIA?

Valéria enfatizou que as decisões da COP30 incidem não somente na vida política e dos ambientalistas, mas na de todas as pessoas. “Temos de pensar que a justiça climática é uma forma de tratarmos de maneira equânime e justa cada uma das situações de cada povo, bem como considerar que os pobres da periferia são a parte mais afetada pelas mudanças climáticas. Quando ocorre um vendaval em São Paulo, por exemplo, com bairros ficando sem energia elétrica por dias, há impactos para quem precisa deixar seus filhos nas escolas para ir trabalhar, e não terá escolas funcionando; impactos para os comércios e pequenas indústrias de bairro que não vão conseguir reequilibrar suas contas, e mercadinhos perdendo mercadorias. Em resumo, a periferia sente mais os impactos e é a última a ser atendida no restabelecimento dos serviços, por isso que precisamos estar nestes espaços de discussão, pois somos nós que vivemos na prática todos os efeitos da mudança climática”, detalhou.

“Quando falamos de justiça climática e transição energética nas periferias, temos sete ODS ligadas diretamente: saúde e bem-estar (ODS 3), água potável e saneamento (6), cidades sustentáveis (11), consumo e produção responsável (12), ação contra a mudança global do clima (13), vida na água (14) e vida terrestre (ODS 15)”, explicou Ulisses.

INTERESSES FINANCEIROS ACIMA DO MEIO AMBIENTE

A especialista em Gestão de Políticas Públicas lamentou que nas COPs só tenha havido avanços nos debates acerca dos impactos das mudanças climáticas, mas sem se definir planos de ação efetiva pelos países, que evitam se comprometer de modo real para não ter perdas econômicas.

“Tudo que existe no mundo hoje está com base nas energias que são mais poluentes. O plástico, por exemplo, que avança mar adentro, tem como matriz o petróleo. E quem cuida do petróleo? Quem torna esse produto cada vez mais necessário e não investe em alternativas? As grandes potências mundiais”, enfatizou Valéria.

Ela comentou que apenas 22% da matriz energética do Brasil é de energia solar fotovoltaica. “As concessionárias fazem um discurso de medo para que as pessoas não instalem em suas casas as placas de energia solar”.

Ulisses Queixada detalhou que cerca de 30% da matriz energética mundial é de petróleo e derivados; 27% de carvão mineral e 23% de gás natural. Já no caso da matriz energética brasileira, 34% é de petróleo e derivados; 16% de cana-de-açucar e 11% de hidroelétricas. Lembrou, ainda, que 38,5% da energia elétrica em todo mundo deriva da queima de carvão mineral e 22% é de gás natural, enquanto no Brasil 55% da energia elétrica vem das hidrelétricas e 14% das eólicas.

“O Brasil é um país com matriz energética limpa, ainda que haja problemas”, enfatizou UIisses, ressaltando que para gerar energia limpa o mundo precisará mudar 70% de sua matriz energética, o que inclui parar de queimar carvão mineral.

Valéria lembrou que o Brasil está muito a frente de outras nações no uso de energias renováveis. Isso decorre não porque historicamente se pensou em políticas públicas neste sentido, mas devido o desenvolvimento econômico não ter sido tão forte quanto em outras nações do 1º mundo: “O Brasil foi conservado como colônia, pois ainda hoje daqui sai a matéria-prima para outros países e não temos uma grande industrialização. Se tivéssemos, seriamos tão poluentes quanto a China”.

BEM DIRECIONAR OS DEBATES

A especialista em Gestão de Políticas Públicas acredita que este é um momento oportuno para que as nações que se preocupam com o futuro do planeta assumam o protagonismo, sem depender de abertura para diálogo com governantes negacionistas do aquecimento global.

“Não adianta concentrarmos energia em quem não quer falar sobre mudanças climáticas. Temos de identificar quem quer falar a respeito, somarmos forças e tomarmos cuidado com quem trata as questões ambientais em ‘banho maria’, estes que fazem com que os acordos climáticos não avancem”, opinou Valéria. “As grandes potências só vão participar desta questão de transição energética se for rentável a ponto de superar o que elas já estão ganhando fazendo a poluição atual”, complementou.

ATÉ QUANDO PAGAR O PREÇO DA DEGRADAÇÃO?

Ulisses Queixada enalteceu o fato de o Brasil ter conseguido emplacar na COP30 a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), com aportes financeiros iniciais previsto em mais de US$ 5,5 bilhões para financiar a manutenção e proteção das florestas tropicais presentes em cerca de 70 países. Ao menos 20% desses recursos deverão ser destinados a comunidades tradicionais e povos indígenas. 

O especialista explicou que essa medida permitirá manter a renda das comunidades locais para que elas possam preservar as floresta em pé. Sobre a preservação das áreas verdes, Ulisses lembrou que essa não pode ser vista como uma discussão distante da realidade das pessoas que vivem em territórios periféricos, cercadas por vegetação nativa, como no caso da Serra da Cantareira.

“Quais custos estamos dispostos a pagar por este dito desenvolvimento?”, indagou Ulisses, comentando que em São Paulo, por exemplo, há projetos para a instalação de incineradores em Perus, São Mateus e Santo Amaro, a fim de dar fim aos resíduos produzidos pelo “progresso”, mas com o uso de uma técnica que causará mais poluição ambiental. “E isso vai ser instalado nas periferias, onde predominam os pretos e pobres”.

Valéria lembrou que há permanente pressão do mercado imobiliário para construções em áreas da periferia nas quais ainda existem áreas verdes preservadas: “Em São Paulo, cada vez mais o plano diretor autoriza a construção de prédios, de condomínios. Quem autorizou tudo isso? Aconteceu porque a gente, da periferia, não percebeu, e quando alguém percebe sempre escuta discursos como ‘ah, você fala demais!’; ‘essa associação é chata’, ‘ah, você não tem outro assunto’. Na verdade, isso é ter senso crítico, ter o alerta ligado, pois conhecemos outros territórios que foram devastados por corporações que estão sendo premiadas”.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL: O CAMINHO PARA MUDAR

Valéria disse não ter dúvidas de que o caminho para efetivas mudanças no panorama da degradação do planeta passa pelo fortalecimento da educação ambiental, o que vai além de um ensino protocolar com filmes e palestras sobre meio ambiente nas escolas, que em nada ajudam as crianças a pensarem verdadeiramente sobre o problema e o protagonismo das comunidades locais para resolvê-los.

A especialista opinou que se mais pessoas tiverem senso crítico sobre as questões ambientais, elas deixarão de consumir de empresas que poluem, e isso também ajudará para a melhoria do meio ambiente. Este, porém, é um longo caminho a ser percorrido.

“Eu gostaria que as crianças quando saíssem da escola após um dia de aula ficassem comentando sobre assuntos ambientais. Eu moro em frente a uma escola e quando as crianças passam aqui, descendo a ladeira, elas se agridem, se xingam, chutam árvores. Parecem um ‘bando de enlouquecidos’. Então, o que elas ficaram fazendo dentro da escola? Diante disso, penso que não basta que se faça essas discussões somente nas COPs. Venham aqui para a base, tragam educação, venham buscar aliados para somar forças ao debate ambiental. Trata-se de fazer uma educação ambiental popular, aproveitando os conhecimentos que já estão nos territórios. Não é um fazer de cima pra baixo, no estilo ‘engole aí esta educação ambiental’; é preciso fazer a construção coletiva de um censo crítico”, prosseguiu Valéria.

O QUE PODERÁ FICAR DA COP30?

A mestre em Educação e Práticas Educacionais desejou que a COP30 estimule o pensamento crítico das pessoas em todas as localidades: “Que ao fim da COP, a humanidade possa refletir: ‘O que eu estou fazendo com a minha casa, o planeta Terra? Quais escolhas eu estou fazendo? Quem eu estou deixando entrar nas decisões na minha casa, o planeta?’ É essa dimensão crítica que eu espero que nasça no coração de todos nós. Não há como jogar este planeta fora para morar em outro. Se ele acabar, não haverá onde viver. Portanto, pense sobre qual a sua relação com o mundo e o que você pode fazer contra a destruição do planeta”.

Ulisses voltou a criticar o fato de a Prefeitura de São Paulo enxergar a periferia como um grande depósito de lixo e de pessoas. Lembrou, ainda, que algumas regiões da periferia já têm temperaturas mais altas do que na região central, além do fato de que os bairros periféricos e de maioria negra são os mais afetados por desastres ambientais.

Ainda no entender do mestre em Cidades Sustentáveis, somente pela força do voto, da representação política, é que as coisas podem mudar efetivamente no cuidado com a questão ambiental.

“Quanto ainda estamos dispostos a pagar por nossas vidas, pela nossa saúde? Como agora com a tentativa de instalação de incineradores. São Mateus tem uma das menores coberturas vegetais da cidade, e a Prefeitura não olha para lá como um local de política pública, mas como um lixão. Quanto estamos dispostos a pagar pelo desenvolvimento? Quem está ganhando com mais três incineradores em São Paulo? Eu não sei. Sei quem está perdendo: o povo pobre, preto e periférico, que vai sofrer com a poluição em seu bairro. E insisto: não há forma alguma de incineração que seja segura. Até quando essas pessoas vão fazer política pública para acabar com a saúde e a vida do nosso povo? Este deveria ser o grande debate da COP30 e o grande debate da nossa vida a cada dia”, comentou Ulisses, convidando os ouvintes, por fim, a refletirem sobre esta frase de Chico Mendes:  “Ecologia sem luta de classes é apenas jardinagem”.

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Foto de abertura: Marcha Global pelo Clima durante COP30 (Bruno Peres/Agência Brasil)