‘Revista da Semana’ destaca o Cursinho Popular Luiza Mahin, 100% gratuito
Entre o sonho de ingressar em uma faculdade e a sua concretização, uma jovem ou jovem de periferia encontra muitas barreiras: superar o déficit educacional em relação aos estudantes de colégios particulares; falta de maior tempo para se aprofundar nos estudos; e pouca grana para pagar um cursinho preparatório.
Desde 2024, o Cursinho Popular Luiza Mahin, na Vila Penteado, Distrito da Brasilândia, está tentando virar este jogo, focado especialmente na preparação dos estudantes para o Enem, atualmente a principal porta de acesso para o ensino superior no Brasil, seja em universidades públicas, seja em faculdades particulares.
“Nosso foco é oferecer, de maneira 100% gratuita, aulões preparatórios para o Enem, sempre aos sábados, das 9h às 13h, a Casa Luiza Mahin. Eu posso dizer, de maneira muito feliz, que nos dois primeiros anos a gente já conseguiu contribuir para que os jovens ingressassem em universidades”, relatou Clarissa Augusto, que integra a coordenação do cursinho, em entrevista na edição de 7 de março do programa ‘Revista da Semana’, apresentado por Beto Souza na rádio comunitária Cantareira FM.

METODOLOGIA
Clarissa, historiadora de formação e professora de História para o Ensino Fundamental II da rede pública de ensino, detalhou sobre como são pensados os temas das aulas do cursinho: “Nossa equipe faz uma seleção, por meio das estatísticas disponíveis, a respeito de quais são os temas mais cobrados no exame do Enem, e a gente atua de maneira bem focada, fazendo uma preparação em relação a esses temas. As aulas vão até novembro de cada ano”.
As turmas deste ano começaram em 14 de março e continuam abertas para quem queira participar. As aulas são 100% gratuitas. A primeira foi sobre atualidades.
“Independentemente de estarmos prestes a prestar o vestibular ou não, sempre há muitas dúvidas sobre o que está acontecendo neste mundo tão doido. A cada dia estoura uma notícia diferente, como as guerras, e os vestibulares, principalmente o Enem, tem trazido estes temas de atualidades para suas questões, para os seus temas de redação. Assim, é muito importante para os jovens estarem antenados nestes assuntos”, recordou Clarissa.
Mas se engana quem imagina que todo o processo preparatório feito pelo cursinho popular fica restrito a um transmitir/receber conteúdos como ocorre tradicionalmente em uma sala de aula. As atividades culturais são parte do itinerário formativo no cursinho.
“As atividades culturais são algo permanentemente presente no nosso cronograma. Temos uma visão de educação segundo a qual a cultura, a poesia, a música, a realização de saraus, de cine-debates, não são vistas como coisas a parte da educação, mas, sim, que caminham junto com a formação, também como uma forma de proporcionar uma identificação de quem participa com as atividades que realizamos. Então, falamos de música, de filmes, das coisas que nos movem no dia a dia”, explicou Clarissa.

GRATUITO E COM O APOIO DE VOLUNTÁRIOS
A entrevistada enfatizou que todos que integram a equipe do cursinho popular são voluntários: “Desde já fica o convite para educadores ou pessoas que se interessem pelo projeto participarem, pois a gente permanentemente está buscando apoiadores. Os voluntários acreditam na importância de um projeto como este na Brasilândia, que vai trazer uma perspectiva de educação um pouco diferente do que a gente vê hoje sendo implantada nas escolas estaduais”.
A Casa Luiza Mahin, um espaço político e cultural, é mantida sem apoios governamentais e em um modelo autofinanciado. “Todos que atuam contribuem financeiramente para sua manutenção. Inclusive a gente realiza permanentemente campanhas em busca de apoiadores, pessoas que queiram contribuir, seja fazendo uma doação pontual, seja uma doação mensal, ou até ingressando permanentemente na equipe ou participando de alguma atividade que a gente faça, como os cafés da manhã, porque não dá para o participante ficar lá estudando das 9h às 13h de barriga vazia. Os alunos que podem acabam trazendo algo: um pacote de café, meia dúzia de pães, um bolinho”, detalhou Clarissa.

DESPERTAR O SENSO CRÍTICO
Beto Souza enalteceu o fato de o Cursinho Popular Casa Luiza Mahin não se limitar à apresentação de conteúdos, mas também fazer uma reflexão de cidadania, ensinando as pessoas a pensarem.
Clarissa lembrou que, de fato, há a preocupação de trazer para as aulas com os jovens temas que incidem em suas realidades de vida da sociedade, como o feminicídio e o racismo, por exemplo.
“O curso acaba sendo esse espaço de a gente também promover uma conscientização sobre o que ocorre com as mulheres, já que somos educadas pela sociedade a nos culparmos quando este tipo de violência acontece, e nem sempre é fácil você denunciar, pois muitas vezes vem uma represália. Também se envolve coisas muito delicadas, como a se mulher denunciar um companheiro pensar em como ela e o filho vão morar depois, enfim, é um problema bem profundo. Então, fazemos essa conscientização sobre o que é a violência contra a mulher, que tipo de situação pode caracterizá-la”, detalhou.
“É um trabalho que a gente também tem essa responsabilidade social com as meninas e com os meninos também a respeito deste tema, até porque a gente tem visto os meninos desde muito cedo abraçando visões de mundo que colocam uma perspectiva de naturalizar, de ver como comum, como justo, a violência contra as mulheres. Então, temos essa responsabilidade de dizer, ‘olha, não compra essas ideias, você tem que ser um parceiro nosso na luta contra essa violência’”.
EVOLUÇÃO DO PROJETO
Clarissa lembrou que a turma deste ano será a terceira desde o início do cursinho: “Nas turmas anteriores, nós tivemos aprovações de participantes para o curso de Letras na USP, por exemplo; tivemos aprovações em algumas universidades privadas também no curso de Letras, outras em Direito com 100% de bolsa pelo Prouni, além de diversos alunos passando para a segunda fase de vestibulares. Pra gente, é muita felicidade poder dar essa notícia das aprovações, mas se a pessoa fizer o cursinho um ano e não passar no vestibular, estaremos aqui para fazer com que ela não desanime, nem que vejam que esta é uma meta distante”.
A entrevistada comentou de que muitas vezes os jovens pensam ser incapazes de tentar uma vaga no vestibular, mas que ao longo do cursinho, a partir do diálogo com os voluntários dialogam, percebem que são capazes.
Clarissa comentou, ainda, que historicamente os espaços universitários não se mostram receptivos a jovens negros e indígenas: “O projeto de ensino superior surge como uma formação voltada, no início, para as elites, então a gente fala que um projeto como o nosso, ele também é uma ousadia, por dizer, ‘ó, a gente não vai aceitar esse projeto não’. Se a educação é um direito, desde o ensino básico até o ensino superior, então queremos estar dentro das universidades, queremos que esses lugares tenham a nossa cara, que sejam voltados para os nossos interesses de educação. Assim, a gente começa dizendo para os participantes o seguinte: ‘Olha, não é só uma questão de capacidade individual, e eu sei que você pode se sentir intimidado ou pode pensar que talvez você não seja capaz, mas a gente está nisso aqui para chegar até lá juntos, por isso, conta com a gente, conta com os outros colegas que vão estar aqui junto com você’”.

A REALIDADE DA ESCOLA PÚBLICA ESTADUAL
Muitos participantes do cursinho popular tem reclamado da qualidade do ensino nas escolas estaduais paulistas em razão das plataformas digitais impostas pela atual gestão sob a alegação de que trarão melhorias no ensino.
“Sinceramente, só quem está fora das escolas no dia a dia compra essa ideia de melhoria. Os alunos reclamam muito, e dizem que isso não ajuda nem a prepará-los para a vida, nem para os vestibulares ou o Enem. Tudo isso acaba também os deixando mais inseguros. A educação que a gente tem hoje, majoritariamente, não serve para prepará-los para estarem no ensino superior, para que eles se formem. Acaba sendo uma educação para que eles se formem no 3º ano e atuem como uma mão de obra mais precarizada. Por isso que sempre debatemos, questionamos sobre o futuro que está colocado para estes jovens e sobre qual o futuro que a gente quer construir. Então, a gente começa falando de uma preparação para Enem, e quando a gente percebe vê que o projeto também fala de uma coisa muito mais ampla, que é sonhar com um futuro diferente”, explicou Clarissa.
Beto Souza comentou que muitos professores têm denunciado que o projeto do governo Tarcísio de Freitas é acabar com ensino médio noturno, para que todas as aulas passem a ser de modo on-line, concentrando uma grande quantidade de estudantes, o que, segundo Beto Souza, será um complicador para muitos estudantes que se desenvolvem melhor com aulas presenciais.
Na avaliação de Clarissa, o maior problema não reside na existência de uma plataforma on-line de ensino, mas sim nos protocolos que tal tecnologia impõe aos professores e na maneira como nem sempre é capaz de avaliar o nível de aprendizado do aluno.
“O problema está na qualidade do que é passado para os alunos, dando cada vez menos liberdade para os professores organizarem as suas aulas. O professor que tenta exercitar um pouco mais da sua liberdade de cátedra, também acaba sendo perseguido. A gente tem muitos alunos que relatam que a plataforma faz repetir as questões que eles devem fazer por dia, quantas vezes for necessária até que o aluno acerte todas as questões. Junte-se a isso o fato de que muitos alunos se utilizam a inteligência artificial para responder as questões. Isso é um problema, porque produz dados falsos sobre a educação, produz uma falsa sensação de que os alunos estão aprendendo um conteúdo”, disse Clarissa.
| CONHEÇA MAIS SOBRE A INICIATIVA O espaço político e cultural Casa Luiza Mahin – local do cursinho popular – está localizado na Nair Ramos Shuring, 167, Brasilândia, em frente à EMEF Raul Fernandes, e perto do 45º Distrito Policial, nas imediações da Avenida Parapuã. Instagram: @casaluizamahin (dúvidas pelo DM) WhatsApp da Clarissa: (11) 98484-1868. |
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