No ‘Meu Caro Amigo’, Fábio Fernandes apresenta o romance de ficção ‘O Torneio de Sombras’
Escritor, tradutor, jornalista, professor universitário e mestre e doutor em semiótica pela PUC-SP, Fábio Fernandes lançou em 2024 um livro de ficção científica que dialoga com questões sempre atuais, como o colonialismo e o feminismo.
Para falar sobre o romance “O Torneio de Sombras – As aventuras de January Purcell”, publicado pela Avec Editora, Fábio Fernandes foi entrevistado por Gilberto Cruz e Antônio Miotto na edição de 9 de novembro do programa ‘Meu Caro Amigo’, na rádio comunitária Cantareira FM.
Fábio começou a escrever poesia concomitantemente ao início de sua carreira como jornalista e depois passou a redigir pequenos contos de ficção e peças de teatro. Em alguns jornais que trabalhou foi responsável pelas editoras Cultura e Internacional, sempre com grande foco em assuntos de ficção científica, temática principal dos livros que começou a publicar nos anos 2000.

UM ROMANCE STEAMPUNK
“O Torneio de Sombras” virou livro com base na mesma história, em formato de novela, que Fábio escreveu para uma publicação em língua inglesa e que recebeu um prêmio literário na Inglaterra.
“‘O livro ficou com o triplo do tamanho da novela, tem vários personagens novos, de modo que se você for ler a versão em inglês será uma história, e em português outra completamente diferente. Então, o romance é uma tradução e ampliação da história original britânica”, explicou Fábio.
Segundo o autor, o livro é um romance steampunk, um gênero da ficção científica que trata de histórias alternativas passadas na Inglaterra do século XIX, “mas não é a Inglaterra que a gente conhece dos livros de história, não é aquela Inglaterra vitoriana tradicional. Geralmente, o steampunk trata de um período em que houve invenções que não existiram no mundo real. Por exemplo, essa literatura fala de computadores na Inglaterra vitoriana e dirigíveis, coisa que só foram surgir de verdade no século XX”.
A protagonista da história é January Purcell, uma agente secreta que no ano de 1888, na Inglaterra, conhece o Dr. Jones, um cientista milionário que inventou uma máquina capaz de gerar energia limpa, em contraponto ao carvão que era o combustível principal das grandes fábricas da Era Industrial.
Fábio Fernandes detalha que January é uma agente oneironauta, ou seja, uma pessoa que viaja pelos sonhos. “Por isso, ela vai desconfiar se essa máquina não foi uma invenção da cabeça daquele homem, mas sim algo influenciado por outros agentes de uma outra facção no mundo dos sonhos. Essa máquina que gera energia limpa também pode acabar com o planeta. Ao longo do livro, vários cenários da ficção científica vão aparecer. Eu faço homenagens a Júlio Verne e a H. G. Wells. A January, por exemplo, vai ao centro da Terra, imagem que aparece na famosa ‘A viagem ao centro da Terra’ do Verne”, detalhou.
O autor disse ainda que há explícitas referências à obra “A Guerra dos Mundos”, e de H.G. Wells. “Mas os leitores atentos poderão perceber referências a outras história, por exemplo, ‘A Raça Futura’, do Bwlwer Lytton”.

ENREDO PROFUNDO E DEBATES ATUAIS
Durante a entrevista, Fábio assegurou que o livro “não é só uma aventura, uma ‘historinha’ com começo, meio e fim, com um herói ou heroína, que vai e resolve um problema. Há toda uma série de questões sociais, pessoais e psicológicas daquela época que eu vou inserindo no texto. Quem já leu me diz que é uma história que entretém, mas também faz pensar, e isso que a gente como escritor deseja com os nossos livros”.
“O chefe da January é o Sir Richard Francis Burton, que foi um dos maiores aventureiros do Ocidente, da Inglaterra vitoriana, e que vai ter um embate muito interessante com ela, e assim acabamos falando de sexismo, de machismo e feminismo”, prosseguiu Fábio.
O autor lembra que o livro tem uma linguagem voltada a todas as idades, com debates atuais: “Na obra, há algumas referências à questão corporal, à questão do sexo. Eu tento fazer com que os personagens não sejam tão moralistas vitorianos. Como é uma história de ficção científica – e toda ficção científica, de certa forma, é uma fantasia – eu tento fazer com que haja uma discussão muito grande. Inclusive, a January é uma feminista, é uma sufragista que vai ‘bater de frente’ com vários homens para conseguir fazer o que precisa. Muitas vezes, não acreditam na palavra dela. Ela precisa se impor ao mundo”.

OS PRÓXIMOS PASSOS
Fábio Fernandes se considera como parte da segunda geração de autores de ficção científica no Brasil, sendo os pioneiros os da década de 1960, seguidos pelos dos anos 80/90, depois os do início da década de 2000 e a mais recente de 15 anos para cá.
“De modo geral, essa gerações se leem, trocam informações, mesmo que não se conheçam pessoalmente. Hoje, estou conversando com pessoas do passado a partir desta literatura, também converso com meus colegas da geração de autores dos anos 1980 – como o Bráulio Tavares, Octavio Aragão, Alfredo Suppia -, e todas essas conversas influenciam a minha literatura”, prosseguiu.
Fábio também revelou a vontade de adaptar o livro para uma peça de teatro, bem como para histórias em quadrinhos, mas antes deseja fechar uma trilogia de publicações. “Depois de ‘O Torneio de Sombras’, já está em pré-venda o segundo volume da trilogia, que se chama ‘Os agentes do caos’, e eu já estou escrevendo o terceiro volume, ainda sem título, para ser publicado em 2026. Portanto, teremos uma trilogia da January Purcell, e daí, com essa trilogia pronta, vou pensar com calma em adaptações das obras”.
Sobre o processo de produção dos livros, Fábio Fernandes explicou que “O Torneio de Sombras” foi por ele reescrito três vezes antes da versão final e “Os agentes do caos”, passou por cinco reescritas, para adaptar questões como diálogos dos personagens e as cenas: “Tudo isso para alcançar um tom que, eu acho, vai ter uma boa ressonância com os leitores”.
O livro “O Torneio das Sombras” tem 246 páginas e pode ser comprado no site da Avec Editora (https://aveceditora.com.br) ou diretamente com Fábio Fernandes (@fabiofernandeswriter). A obra foi finalista do Prêmio Jabuti e o autor não descarta publicá-la em outros idiomas futuramente.
“Leiam sempre, leiam de tudo, leiam muito, porque a cultura e a reflexão partem da leitura. Sem a leitura, a informação não vira conhecimento e não conseguimos refletir sobre o mundo ao nosso redor. Quero acreditar que o que eu fiz com a January em ‘O Torneio de Sombras’ leve à reflexão sobre colonialismo, sobre feminismo, sobre o estudo da história em geral. Leiam. É a leitura que vai nos salvar!”, disse Fábio Fernandes, em mensagem aos ouvintes da Cantareira FM.
VEJA A ENTREVISTA DE FÁBIO FERNANDES [A PARTIR DE 15 MINUTOS]
