No ‘Manas e Manhãs’, recordações sobre a ‘Nakba’, a grande catástrofe contra os palestinos

Há mais de um século, após a guerra árabe-israelense, a Palestina viveu um dos episódios mais impactantes de sua história: a Nakba, termo que significa “catástrofe”. Esse marco representou a desapropriação em massa do povo palestino e o avanço do movimento sionista, cujo objetivo era consolidar Israel como lar exclusivo dos judeus.

Em 1948, a narrativa sionista ganhou força com a máxima: “Uma terra sem povo para um povo sem terra”. Essa visão foi desconstruída pela psicóloga, ativista e internacionalista Shahla Othman, entrevistada em 25 de julho, por Simone Preciozo, no programa “Manas e Manhãs”, da rádio comunitária Cantareira FM,

“A Palestina não era uma terra sem povo. Era uma terra com um povo, com uma cultura, com uma história, com uma identidade. E esse povo foi expulso da sua terra”, sublinhou Shahla.

Impacto humanitário

Diante de um mundo cada vez mais polarizado, a crise humanitária vivida pelo povo palestino continua a ecoar com sons fortes. As regiões ocupadas continuam sendo palco de um dos conflitos mais longos e complexos da história contemporânea, marcado por violência, deslocamentos forçados e perdas constantes de vidas.

Para quem acompanha de longe, as causas muitas vezes parecem incertas e acabam sendo confundidas. Por isso, segundo Shahla, é essencial reforçar que não se trata de uma guerra de religiões: é, antes de tudo, um projeto de colonização com o foco na desapropriação de um povo e o rompimento de sua identidade nacional.

Shahla explicou que nenhum palestino ensinou os seus filhos a odiar judeus. “Até 1948, antes da grande catástrofe que permanece até hoje no coração e na memória dos palestinos, judeus, muçulmanos e cristãos viviam em paz, mesmo sob o mandato britânico. Naquele tempo, 85% da população era muçulmana, 8% cristã e 7% judia, mas todos eram palestinos, com a mesma nacionalidade. Depois de 1948, tudo mudou. O problema não é o judeu, o que rejeitamos é o sionismo, um movimento político, colonialista e genocida”.

Segundo dados de 2024 da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos (UNRWA), a violência cotidiana já soma perdas alarmantes: estima-se que cerca de 130 pessoas morrem todos os dias, alcançando aproximadamente 40 mil vítimas fatais desde o início desses enfrentamentos.

Sobrevivendo ao trauma: o Sumud palestino

Viver décadas de violência significa carregar traumas psicológicos que não cessam facilmente. A psicóloga e ativista ressalta que esse não é apenas um conflito político, mas também um trauma que atravessa gerações: “Imagina como fica a cabeça de um jovem que teve o pai ou o avô assassinado, preso, expulso ou torturado. Na Palestina, não existe família que não tenha passado por algo assim”.

Esse trauma intergeracional molda a psique coletiva do povo palestino e alimenta tanto a dor quanto a resistência. Por isso, a ativista reforça a importância da psicologia em tempos de confronto, introduzindo o conceito de Sumud, uma resiliência aliada à resistência que, para os palestinos, é fundamental apesar do vasto sofrimento.

Shahla participa de uma nova iniciativa chamada Psicólogos Sem Fronteiras (@psf_org). A organização busca oferecer apoio psicológico em zonas de conflito, reconhecendo a urgência de cuidar da saúde mental daqueles que vivem sob constante ameaça e trauma.

O apoio à saúde mental se torna, assim, um aliado essencial nessa jornada, já que as consequências psicológicas da violência são múltiplas e de natureza sistêmica.

“A nossa pretensão é ir aonde houver necessidade, levando amparo e conforto em um espaço seguro, sempre com muita ética, para que a pessoa possa reencontrar sua força e se reconstruir. Se não pudermos estar fisicamente no local, queremos fazer esse trabalho como faz o Médicos Sem Fronteiras: criar oportunidade para que alguém possa ir e colaborar em qualquer lugar do mundo onde seja preciso”, enfatizou Shahla.

Fazer parte de ações como essa, seja em grandes ou pequenos gestos, vai além de uma abordagem humanitária. Para os palestinos, é também uma forma de dar voz e vez ao Sumud e reforçar o que ele prega: resistir e solidarizar.

Educar para não desumanizar

“Há uma metáfora muito bacana que é de Marx. Ele dizia que, quando chegou em casa, encontrou dois arbustos: um estava no sol e o outro ficava embaixo da casa, no porão. Ele pensou que aquele arbusto no porão, sem pegar sol, não sobreviveria, enquanto o do sol cresceria forte.  Mas o que aconteceu foi que o arbusto do porão até sobreviveu, só que cresceu raquítico, frágil, enquanto o do sol se desenvolveu bonito e saudável. E qual é a ideia? Quando o ambiente é pobre em nutrientes, as condições determinam muito. Mas, se a gente tira esse arbusto do porão e o coloca no sol, dando a ele o que precisa, ele também pode se transformar numa árvore forte”. 

Após recordar esta história, Shahla destacou: “Precisamos lembrar que, mesmo diante de toda essa catástrofe, muitos acabaram ficando submissos. Eu mesma já presenciei várias vezes soldados sionistas abordando mulheres e enfrentando crianças, e isso marcou muito.”

Por trás das estatísticas e dos discursos políticos, há histórias de resistência e reconstrução, como essa contada de forma comparativa pela ativista.

“A gente tem que ensinar as crianças para que elas possam transformar o nosso futuro em um lugar de paz, um lugar bom de se viver. Porque, se continuar como está, a nossa terra vai ficar inabitável. Não se esqueçam de que todas as bombas que caem lá, tudo o que acontece lá, também acontece nesse nosso mundo, nessa nossa casa em comum. É poluição do ar, é poluição do mar e a conta vai chegar, vai chegar para todos.”

Segundo Shahla, a psicologia entra nesse contexto para ser instrumento de sobrevivência e dignidade em meio ao caos. Ela lembrou uma metáfora do Nietzsche que fala sobre a barata e a borboleta. “Ele diz que quem mata uma barata é visto como herói; já quem mata uma borboleta é considerado cruel. Ou seja, a moralidade tem critérios, não é algo universal, mas sim construído socialmente, influenciada pelas percepções subjetivas. Por isso, é tão importante educar as crianças, mostrar uma verdade para elas, para que aprendam a crescer como seres humanos, para lutar pela dignidade, pelo amor ao próximo, pelo afeto, pela justiça.”

Para ela, reforçar a urgência de iniciativas como os Psicólogos Sem Fronteiras e o Comitê Catarinense de Solidariedade ao Povo Palestino é um lembrete de como a solidariedade internacional é necessária para garantir que os palestinos não vivam apenas o mínimo da dignidade e da liberdade, mas compreendam que a humanidade atravessa fronteiras e é universal.

Os trabalhos dessas duas iniciativas podem ser vistos pelas redes sociais:  @comitepalestinasc e @psf_org. Os interessados em participar não precisam ser psicólogos.

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