No ‘Manas e Manhãs’, professora Tania Addallah ressalta a resistência do povo palestino

Nakba, que na tradução do árabe para o português significa catástrofe, é a palavra pela qual o povo palestino resume o que vivenciou a partir de 1947 e de modo mais intenso em 1948, quando 750 mil pessoas foram expulsas de suas casas pelas forças do recém-criado Estado de Israel e cerca de 500 vilas palestinas desapareceram. 

A família paterna da palestino-brasileira Tania Addallah foi uma dessas: “Meu avô foi acordado no meio de uma noite com uma arma apontada na cabeça dele, da minha avó e dos seus 11 filhos. Nós, palestinos, saímos: nossas casas foram roubadas, nossas terras foram roubadas. A minha família saiu de lá com a roupa no corpo e com a chave da casa na mão. Por isso, ainda hoje, a chave para nós é um símbolo de resistência, é um símbolo do nosso desejo de voltar para a Palestina”, contou, em entrevista na edição de 31 de outubro do programa ‘Manas e Manhãs’, apresentado por Simone Preciozo, na rádio comunitária Cantareira FM.

UM POVO QUE TEVE SUAS TERRAS ROUBADAS

Ao longo da entrevista, Tania, que é professora, engenheira, pesquisadora do Centro de Estudos Islâmicos em Belo Horizonte (MG) e membro da ‘Rede Somos Todos Gaza, Somos Todos Palestina’, detalhou o histórico das tensões entre palestinos e israelenses: no final do século XIX, a Palestina era ocupada pelo Império Otomano e lá viviam 95% de palestinos e 5% de judeus. Com o final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a queda do Império Otomano, a Palestina passou a ser ocupada pela Inglaterra. Em 1917, já por influência do movimento sionista, o governo britânico assinou a Declaração Balfour, visando o estabelecimento de um lar judeu na Palestina, e começou a estimular a ida de judeus para aquele território.

Em 1947, ano anterior à criação do Estado de Israel, uma resolução da Organização das Nações Unidas (ONU) determinou a partilha do território da Palestina, desrespeitando completamente a proporcionalidade populacional existente: à época, lá viviam 70% de palestinos e 30% de judeus, sendo que os palestinos habitavam 92% do território e os judeus somente 8%. A divisão territorial imposta pela ONU, porém, destinou 56% da terra para Israel e cerca de 44% para os palestinos.

Com a maior chegada de israelenses para ocupar o território, o que se assistiu foram ações de extermínio contra os palestinos praticadas pelas milícias sionistas, propagando o medo e forçando o deslocamento populacional, como se deu com a família do pai de Tania, que, por primeiro, foi para um campo de refugiados na Faixa de Gaza, depois para um campo de refugiados no Líbano e, por fim, veio ao Brasil, em precárias condições.

“Meu avô, minha avó e seus 11 filhos viajaram para cá em um porão de navio, comendo rato para sobreviver”, recordou Tania, emocionada. Ao chegar ao Brasil, o avô passou a trabalhar como mascate no interior de Minas Gerais, vendendo tecido. Antes de falecer, ele entregou a chave da casa da Palestina ao pai de Tania e este a entregou também antes de morrer. 

“A chave da nossa casa na Palestina está comigo e eu pretendo voltar para lá um dia. Sou muito grata ao Brasil, que nos acolheu tão bem, mas antes de ser brasileira, sou palestina. Eu só estou aqui porque roubaram as nossas casas, nos expulsaram da Palestina. Se eu pudesse, eu estaria lá junto com meu povo”, assegurou Tania Addallah. 

A professora também explicou que o Estado de Israel foi criado como uma colônia de povoamento, “o que significa uma colônia em expansão, baseada na expulsão da população originária. Israel é um estado colonizador, supremacista, que usa o apartheid da população palestina e visa à limpeza étnica do povo palestino”.

O PAPEL DA MULHER PALESTINA

Uma das motivações para a entrevista de Tania Addallah foi a comemoração do Dia da Mulher Palestina, celebrado em 26 de outubro, que busca enaltecer o papel da mulher nesta sociedade e lembrar ao mundo ocidental que é preciso que se respeite as diferenças civilizatórias e culturais dos povos. 

Tania falou sobre a cufia, o lenço palestino usado na cabeça, símbolo de identidade e resistência: “Se eu uso véu, isso é opção minha, e o faço com um baita de um orgulho. Eu carrego aqui a bandeira do meu povo”.

A entrevistada também leu um poema de Amyra El Khalili, a respeito da mulher palestina: “A mulher palestina é a espinha dorsal da política pela liberdade e pela libertação da Palestina. A mulher palestina é sinônimo de força, resiliência e coragem”, consta no poema. Tania complementou, destacando que a mulher palestina é o ventre de onde sai a resistência de seu povo, apesar de todos os massacres, e que são as mulheres as responsáveis por manter a família quando o marido e os demais homens do núcleo familiar são presos por Israel. 

“A mulher palestina sabe que vai perder um, dois, três filhos na resistência, sabe que vai ter um filho preso. O fato de a família ser maior é para não deixar que nosso povo morra. A mulher palestina é essencial para a manutenção de toda essa força, ao mesmo tempo em que somos médicas, jornalistas, enfermeiras, escritoras, artesãs, empreendedoras”, enfatizou Tania, explicando ainda que o foco de luta da mulher palestina não é a emancipação individual, “mas sim a nossa emancipação nacional, emancipação enquanto povo”.

Simone enalteceu as mulheres palestinas como sinal de referência e de amor para o mundo, pelo que fazem pela família e pelo seu povo. 

RESISTIR NÃO É TERRORISMO, É UM DIREITO

Ao longo da entrevista, Tania Addallah também comentou sobre as ações dos palestinos em 7 de outubro de 2023, que resultaram em mortes do lado de Israel, e em uma resposta militar desproporcional do governo israelense, em uma escalada de tensões que se mantém ainda hoje, apesar do “acordo de paz” mediado pelos Estados Unidos em 11 de outubro de 2025.

Tania assegurou que se a ação palestina não tivesse acontecido em 2023, a causa palestina estaria morta. “Não se falava mais na Palestina, havia uma normalização das ações de Israel perante os estados árabes, principalmente com a Arábia Saudita. Além disso, existia muita falta de respeito, violações muito grandes estavam acontecendo. Portanto, o 7 de outubro foi o ápice de tudo que já vinha acontecendo desde antes da criação do Estado de Israel, foi uma consequência da violência do estado colonial sionista e uma ação legítima do povo palestino”. 

A professora explicou que na Palestina existem 17 organizações de luta, sendo a maior delas o Hamas. “A resistência faz parte da nossa identidade, ela só vai mudar se tivermos a nossa libertação nacional”, declarou, enfatizando mais adiante: “A resistência de um povo contra a colonização não é terrorismo. A própria ONU, em seu estatuto, deixa claro que a resistência ao colonizador é válida, inclusive a resistência armada”. 

O ‘PLANO DE PAZ’ DE DONALD TRUMP

Tania também comentou sobre o “plano de paz” proposto para Gaza por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, o qual vigora desde de outubro passado, mas, segundo a professora, é recorrentemente desrespeitado por Israel. Neste início de 2026, o presidente norte-americano convidou alguns presidentes de outras nações para fazer parte de um “Conselho de Paz” para decidir o futuro de Gaza, mas a medida tem sido vista com ressalvas. 

“O objetivo desse plano de paz foi salvar a imagem de Israel, pois dois anos após o começo do genocídio de 2023, Israel não conseguiu nenhum dos seus objetivos estratégicos dentro de Gaza, que eram libertar os reféns e acabar com o Hamas. A imagem de Israel nunca esteve tão desgastada como agora. Manifestações ocorreram mundo afora pedindo não apenas o fim do genocídio, mas a liberdade da Palestina, do rio ao mar, e a opinião pública sobre a Palestina mudou, inclusive dentro dos Estados Unidos”, explicou a especialista.

“Ao fazer este plano, Trump não pensou nos palestinos, de modo algum. Essa será a paz dos túmulos, pois a paz só se fará com justiça e justiça só se faz se você atuar na raiz do poblema, que é assegurar a existência de um estado nacional palestino com soberania aérea e terrestre, com direitos iguais. Uma paz imposta não irá resolver”, enfatizou Tânia.

A professora lembrou ainda que nos escombros de Gaza há entre 10 e 15 mil palestinos mortos pelos ataques de Israel. “Os corpos deles não importam? Para o mundo, o que importa é só resgatar os corpos dos prisioneiros israelenses? Nós também queremos enterrar os nossos mártires”.

Ela deu ainda detalhes sobre o modo cruel com o qual Israel tem matado os palestinos: “Os corpos de palestinos já entregues estavam sem identificação, com marcas visíveis de tortura, muitos deles amarrados pelas mãos e pelos pés; outros muitos já em decomposição. Alguns foram esmagados por retroescavadeiras”. Disse ainda que alguns corpos estavam sem órgãos internos, e alguns sem pele. “O maior banco de pele do mundo é do Estado de Israel, pele nossa, pele do povo palestino”. 

Tania também lembrou que Israel não tem permitido a entrada de todos os caminhões de ajuda humanitária, conforme acordado anteriormente: “Isso significa que o povo palestino continua em fome crônica”.

Diante destes fatos e de outros como a prisão administrativa – pela qual Israel se dá o direito de prender um palestino sem razão específica e sem direito a constituir defesa -, Simone Preciozo foi enfática: “Quando eu falo que os direitos humanos morreram naquele lugar, eu não estou fazendo uma figura de linguagem, nem exagerando. Lá, não há direitos humanos para quem não comunga com aquilo que Israel acredita”.

O QUE FAZER PARA O FIM DOS CONFLITOS?

Na parte final da entrevista, Tania Addallah recordou que nas últimas décadas Israel cada vez mais tem ocupado o território palestino para além dos 56% do total que fora acordado em 1947, e que em localidades como a Cisjordânia, o que se vê é um cenário muito parecido com o de um queijo suiço: os colonatos israelenses seriam como a grande massa branca deste queijo e os pequenos furos, desconexos, as comunidades dos palestinos. Estima-se que atualmente, os palestinos, em localidades desconexas, vivam de 10% a 12% do território, bem abaixo dos 44% acordado em 1947. 

“Na Palestina ocupada, temos 7,8 milhões de palestinos. E pelo mundo, há 7,3 milhões de palestinos da diáspora, e eu sou uma dessas pessoas. No terreno da Palestina, temos praticamente 50% de judeus e 50% de palestinos, isso por si só inviabiliza ter apenas um estado judeu, e essa é uma das causas que explica esse genocídio. As reservas de gás nas costas de Gaza também ajuda a explicar este genocídio”, explicou.

Diante deste cenário, ela só vê uma solução para o conflito: “Hoje, somos mais de 14 milhões de palestinos no mundo, então, como irão alocar todos nós em 10%, 12% de território? A única solução possível é um estado para dois povos. Um estado democrático, laico, no qual todos tenham direitos iguais. Agora, isso só vai acontecer com o fim do sionismo. Em 2018, Israel se autoproclamou estado judeu, o que não significa admitir outra etnia dentro do estado de Israel, e isso pressupõe uma limpeza étnica total da população originária. Portanto, a solução está na paz com justiça, está na criação de um estado palestino, que hoje só seria viabilizado com a existência de um Estado único binacional, para dois povos”.

Por fim, Simone Preciozo assegurou que hoje, na maior parte do mundo, o coracão das pessoas “é um coração palestino, que deve muito a este povo que garante a nossa humanidade”. 

Em sua mensagem final, Tânia pediu que a imprensa internacional continue a pressionar para poder entrar em Gaza a fim de reportar o que tem acontecido e o saldo dos ataques de Israel, e fez um apelo geral: “Quase o tempo todo eu estou tentando sorrir, não importa se eu estou chorando por dentro. A nossa filosofia é levantar a cabeça, dar a volta por cima e continuar em frente. A luta não terminou e não vai terminar tão cedo. Como recado final, eu peço que, por favor, continuem falando da Palestina. Vamos falar na criação de um estado palestino, na emancipação nacional palestina, porque só a partir disso é que nós teremos realmente paz na Palestina”.

ASSISTA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DE 31 DE OUTUBRO