No ‘Manas e Manhãs’, professora Patrícia Teixeira explica o conflito no Sudão

Um território rico em minerais, mas historicamente alvo de colonizadores, e que nas últimas décadas tem sofrido com intensos conflitos pouco noticiados pela grande mídia. Este é o Sudão, desde 2010 dividido em Sudão e Sudão do Sul, e que foi o assunto em destaque na edição de 21 de novembro do programa ‘Manas e Manhãs’, apresentado por Simone Preciozo.

A entrevistada da vez foi Patrícia Teixeira Santos, professora de História da África na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Inicialmente, ela recordou que o território do Sudão é uma região de alta circulação de pessoas, de histórias, de cultura, e com um grande patrimônio cultural e histórico: “Uma região belíssima, mas que vive hoje a pior guerra do mundo, com o maior número de vítimas, o maior número de pessoas deslocadas e que passa ao largo da atenção mundial”.

AS RAÍZES DO CONFLITO

A professora explicou que o Sudão está em uma região com grande riqueza de minérios, como urânio, além de ouro, e que a população sempre resistiu historicamente ao ímpeto dos países colonialistas, como ocorreu na Revolta Mahdista, nas últimas duas décadas do século XIX, quando povos de diferentes origens, como árabes, cristãos e judeus buscaram conter a ação imperialista de países como a França e a Inglaterra.

“Ainda hoje, há empresas desses países interessadas na riqueza do subsolo africano, mas descartando a população, não a incluindo, matando-a, provocando conflitos nos quais essas pessoas perdem terra, acesso a água, acesso a alimento, sem contar as vítimas de estupro, as vítimas de incontáveis violências. E essas empresas, que vêm desses grandes países do Norte global, apoiam milícias paramilitares, se valem da corrupção dos governos locais e das disputas dentro desses governos, além da instabilidade política”, detalhou Patrícia, mencionando que os conflitos mais recentes já resultaram em milhares de mortos e cerca de 13 milhões de pessoas deslocadas.

UMA HISTÓRIA DE RESISTÊNCIA

Patrícia explicou que no fim do século XIX, para reagir à ação colonialista de França e Inglaterra, os diferentes povos da região se uniram, mas que o Egito – à época um vice-reinado do Império Otomano (atual Turquia) – sempre desejava controlar o Sudão, para escravizar a população e explorar os recursos naturais, tendo para isso apoio de muitas nações europeias.

A professora explicou que formou-se no Sudão, então, um condomínio anglo-egípcio: “Foi uma cogestão da Inglaterra com o Egito para controlar uma população que sempre seguiu sendo insubmissa. É uma codominação com controle de duas nações sobre aquele imenso território que não aceitava ser dominado. O nível de violência ali empregado sempre foi muito grande, o nível de resistência da população sempre foi muito grande, e já se tem registros antigos das mulheres agricultoras, das famílias lideradas por mulheres que também participavam dessas revoltas, que não aceitavam ver seus filhos e seus maridos reduzidos à condição de trabalhos forçados em minas”.

Esse condomínio anglo-egípcio durou entre 1898 e 1956, quando houve a saída dos ingleses – os egípcios já tinham deixado o território em 1924 –, e passou-se à sucessão de governos militares, de ditaduras apenas dispostas a explorar o povo e as riquezas.

Em 2019, houve a queda do ditador Omar Hassan Ahmad al-Bashir, já desgastado por conflitos internos – como a guerra do Darfur nos anos 1990 – e as condições sociais do país, que levaram à intensificação de protestos.

“Já a partir de 2015, há um vento de democracia, um anseio, começam todos os movimentos sociais que sempre existiram a querer fazer eleições, uma grande ação das mulheres querendo ampliar o número de vagas para mulheres nas universidades”, explicou a professora. O poder militar, porém, seguiu, as eleições previstas para 2023 não foram realizadas. O que já se via desde a década passada – grupos milicianos já desestabilizavam a paz no Sudão e faziam ataques – foi se intensificando com o apoio de países como os Emirados Árabes Unidos.

PANORAMA ATUAL

Após ouvir a fala da professora, Simone Preciozo disse que se preocupa com o futuro do Brasil, já que há forte atuação da elite para que nações estrangeiras tenham uma postura colonizadora em relação ao povo e à riqueza do país. “O tempo todo a gente tem de conviver com esta história de dominação, e a motivação é sempre a mesma: busca de capital, exploração de recursos, terras tendo seus recursos esgotados, o meio ambiente padecendo”.

Patrícia afirmou que tanto o Tribunal Internacional, quanto o Tribunal Africano, além do Conselho de Segurança da ONU e as demais entidades internacionais de direitos humanos pouco falam da guerra em curso no Sudão, o que só começou a mudar um pouco em outubro de 2025, com o massacre na cidade de Al-Fashir, capital do Norte de Darfur, havendo execuções sumárias, violência sexual sistêmica e cerco prolongado, com características típicas de genocídio.

“Há tempos tem havido uma escalada de fechar as universidades, prender, torturar, matar professores universitários, mulheres e estudantes envolvidos em movimentos estudantis. Também há migração forçada por conta dessa instauração dessa violência persecutória”, disse a professora, contato que mantém contato, por meio das redes sociais e do WhatsApp, com sudaneses que tiveram de deixar o país a força.

Patrícia recordou que a guerra do Darfur, nos anos 1990, já envolveu a Força de Apoio Rápido (RSF), de Mohamed Dagalo, e que a região sempre sofreu constantes ataques de grupos paramilitares e de militares do governo central de Cartum, no Sudão. Por isso, já desde aquela época, Darfur buscava essa separação para se libertar dessa exploração, da baixa representatividade política, o que ocorreu em 2010 com a criação do Sudão do Sul.

“Nessa situação atual de Darfur, novamente atuam as forças de Dagalo, que antes estavam a serviço do governo central de Cartum, mas que agora lutam em causa própria, apoiadas pelos Emirados Árabes Unidos, que têm interesse também na região e que aposta na fragmentação do Sudão para ter mais lucro”, comentou a professora, destacando que os conflitos ajudam a fomentar o lucro de toda a cadeia da indústria bélica, incluindo novos armamentos, como o uso de drones.

Patrícia alertou que algo que afeta a vida de um povo deve preocupar a todos os demais, para que não haja uma escalada global de violações de direitos: “Quando eu salvo a guarda da humanidade do outro, estou redimindo a minha”.

O QUE FAZER PERANTE TANTOS CONFLITOS GLOBAIS?

A professora de História da África na Unifesp disse que o enfraquecimento da ONU no atual conflito na Faixa de Gaza abalou a política internacional, pois não há mais uma entidade global com voz forte para conter bombardeios em locais de civis, como hospitais, por exemplo.

“Os avanços dos crimes de Israel na Faixa de Gaza embasam e fortalecem outras formas de ataque e de violação da vida. Então, em primeiro lugar, é preciso que os tribunais internacionais, que a comunidade internacional, condene os crimes de Israel e de outras nações genocidas”, opinou, defendendo que as nações agressoras sejam responsabilizadas criminalmente em âmbito global.

A professora também julga importante que haja uma investigação internacional de altíssimo nível sobre quem são esses grupos paramilitares, quem os financia e qual é a relação deles com determinados governos.  Disse ainda ser fundamental fazer um pacto humanista de preservação da vida dos feridos em hospitais, dos jornalistas em territórios de conflito e dos voluntários que atuam nestas localidades.

Patrícia defendeu ainda a efetividade de acordos internacionais em torno da infância, juventude e da situação da mulher, com efetivos investimentos do Banco Mundial e das nações em prol dos povos mais vulneráveis.

“Deve ser resguardado todo um princípio ético que rege os conflitos e a mediação dos conflitos, porque a impressão que dá é a de que a gente está no mundo do ‘vale-tudo’. A política internacional se tornou personalista, a gente não ouve falar da ONU, nem das organizações e dos tribunais, mas sim de nomes de governantes. Ao longo do século XX, esses espaços internacionais de mediação foram fundamentais e isso precisa voltar, bem como a inibição de avanços de países genocidas, a partir da aplicação de leis internacionais contra a violação da vida, de embargos econômicos a governantes e países que violam a vida”, comentou.

Ainda segundo Patrícia, “os projetos de transformação precisam vir juntos com a denúncia dos crimes, ou seja, a gente denuncia, mas o que a gente está fazendo? Este programa de hoje, por exemplo, é um projeto de transformação. Uma aula pública é um projeto de transformação; um protesto, uma marcha, é uma forma de transformação”.

DOAÇÃO DO PRÓPRIO ACERVO

Patrícia Teixeira Santos é autora do livro “Religiões e tensões coloniais no Sudão”, fruto de anos de pesquisas sobre a realidade daquele país e que será transformado em um e-book gratuito, para que mais pessoas tenham ciência da realidade sudanesa.

A professora, que é especializada em estudos sudaneses da África Centro-Oriental, disse que irá doar seu acervo de estudos para criar a Biblioteca de Estudos Africanos da Baixada Santista, na cidade de Santos (SP), a fim de resguardar parte da memória sudanesa, pois os departamentos históricos daquele país foram fechados, a documentação destruída e as pessoas perseguidas ao longo do atual conflito.

“A gente precisa cultivar essa memória como uma forma de resistência, para que no futuro – que a gente deseja ser o mais breve possível – os departamentos de história sejam reabertos”, comentou, emocionada.

“Ao povo do Sudão, eu digo: quero ser um tijolinho na reconstrução das suas faculdades, dos departamentos de história, do convívio, do aprendizado de vocês, porque eu sou uma professora de um departamento de história, porque eu amo os meus alunos, amo prepará-los para o magistério, para a pesquisa, para a vida. Então, eu me coloco no lugar das professoras das universidades sudanesas. E digo: eu estou com vocês. Eu quero dizer que em meio a esse horror todo, eu carrego aqui uma flor, que é essa biblioteca, esse acervo. E tenho fé de que um dia vocês vão conseguir, a partir desse meu acervo – e o de vários outros professores universitários de fora do Sudão que estão fazendo o mesmo – ter um ponto de partida para recomeçar”, disse.

ASSISTA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DE 21 DE NOVEMBRO