‘Manas e Manhãs’ entrevista as irmãs e cantoras Nenê, Ilka e Mazé Cintra

“Canta o que vem/ veste o que lhe convém/ chega junto só de quem lhe quer bem/ Aguenta que ela passou dos 60/ Ficou amiga da deusa e é deusa também”.

A capela, e estando cada uma de suas casas, as irmãs Nenê Cintra e Ilka Cintra cantaram “Aguenta”, para fechar a entrevista on-line que concederam a Simone Preciozo na edição de 26 de setembro do programa Manas e Manhãs, na rádio comunitária Cantareira FM.

A canção, que fala da realidade da mulher 60+ e aborda temas como o etarismo, é parte do EP “Cura e Proteção”, lançado pelas duas artistas em setembro de 2025, com seis músicas que falam de histórias familiares, memórias e do poder da arte em curar. Ilka e Nenê são irmãs da também cantora e compositora Mazé Cintra, entrevistada por Simone Preciozo na edição de 3 de outubro do ‘Manas e Manhãs’ (leia na parte final da reportagem).

UMA FAMÍLIA MUSICAL

Ilka e Nenê recordaram que seus pais sempre estiveram ligados ao mundo da música, cantando em coros e deixando a casa permeada por canções, tanto que as sete filhas que tiveram eram conhecidas como “As sete notas musicais”.

Nenê recordou que as irmãs mais velhas formaram um grupo para tocar violão e cantar, fazendo apresentações em festas da comunidade. “E aí ficamos nós, as mais novas. Conhecemos um violonista que depois veio a ser meu professor de violão. Ele tocava e nós sete cantávamos. No começo, eu tinha 14 anos de idade. A gente cantava em casamentos, festas familiares, não profissionalmente, mas foi o nosso primeiro contato com a música vocal”.

O COMEÇO DA CARREIRA

Nos anos 1980, Nenê, Ilka e Mazé passaram a integrar o grupo Canto Livre, e foi a partir daí que começaram a carreira profissional.

Durante 23 anos, as três participaram do grupo Vesper Vocal. Em 1974, Ilka ingressou na ECA-USP e passou a participar do coral Comunicantos, da própria escola de comunicação e artes.

Nenê lembrou que com o passar dos anos, conheceram o violonista Ítalo Perón. “Ele nos chamava tríade ambulante, porque uma começava a cantar, uma já abria uma voz em cima, outra já abria uma voz embaixo, e seguia. Então, a música vocal é muito presente na nossa história”.

A ARTE COMO RESISTÊNCIA

Simone, Ilka e Nenê refletiram sobre as dificuldades em se manter profissionalmente como artista no Brasil, especialmente em épocas nas quais as políticas públicas não são favoráveis à produção artística, como se verificou ao longo do governo Bolsonaro (2019-2022).

“Foi realmente muito difícil para a arte, porque houve um silenciamento e um desprezo, um desprezo que dói na alma, porque a gente se coloca no mundo por meio da nossa arte, da nossa música, da nossa voz, dos nossos instrumentos, das nossas composições, e isso foi colocado em um patamar muito baixo, com pessoas dizendo ‘isso não presta’. Enfim, foi muito difícil passar por isso, justamente durante uma época de pandemia, que deixou a gente isolado. E muitas pessoas só sobreviveram por causa da arte. Realmente foi um período muito difícil, uma tristeza. Acho que foi talvez até pior do que os anos da ditadura. Ver todo aquele retrocesso foi uma coisa muito dolorosa”, desabafou Nenê.

Na avaliação de Ilka, depois dos ataques que a cultura sofreu no governo Bolsonaro não seria possível recobrar tudo nos quatro anos do governo Lula: “A arte cura, e no coletivo, a arte foi o que segurou a saúde mental das pessoas. Os artistas começaram a produzir sem saber mexer com a tecnologia, mas foram aprender. A gente foi buscando, foi aprendendo, foi tentando, e povoando o mundo virtual, que era o mundo que a gente poderia circular sem perigo, sem máscara, e foi alimentando a alma das pessoas. A arte foi uma salvação”.

Em meio a essa reflexão política, Simone disse que nas próximas eleições aos cargos do Legislativo buscará votar em mulheres, especialmente naquelas que se preocupem com a arte. “A gente não tem nada se não tiver a capacidade de sonhar e de fazer o belo, de mergulhar em arte. Eu acho que isso é essencial para nós. Foram quatro anos de destruição. E hoje, se você tiver financiamento da Lei Rouanet, da Lei Aldir Blanc, acaba tendo de falar baixo, porque parece que você é um bandido, pois é como se fosse um crime incentivar o artista, pagar bem a esse artista. É um absurdo essa inversão de valores que eles chamam de conservadorismo, mas que na verdade é ignorância”, enfatizou a apresentadora.

Ilka complementou, dizendo ser inacreditável que ainda hoje, com tantas informações disponíveis, ainda haja quem duvide da lisura dos processos que pautam as leis de fomento à cultura, como a Lei Rouanet: “Como é possível que haja pessoas que achem que a Lei Rouanet sai de dinheiro do governo? Não é. Na verdade, é renúncia fiscal, é o empresário que incentiva, é uma linha direta do que seria uma porcentagem de um imposto e que vai para incentivar a arte, que gera milhões de empregos, que gera dinheiro. As pessoas não leem, não se informam”.

Nenê, por sua vez, lamentou que tenha havido descontinuidade de incentivos para a área da Cultura em âmbito municipal e estadual. “E é preciso que haja estes incentivos. A arte e a cultura são a identidade de um povo. E no Brasil deste tamanho são várias culturas. Você vai para o norte, é uma coisa. Você vai para o sul, é outra. Você vai para o sudeste, é diferente. E as pessoas não conhecem. A maioria das pessoas só conhece o que toca no tema da novela, os artistas que aparecem em programas de tevê. Então, a arte precisa ser incentivada, porque isso nos move e preserva a nossa história, a nossa cultura, a memória”.

 “A manifestação artística é a crônica do tempo histórico. Ela vai contando, seja no audiovisual, seja no musical, nas artes plásticas, no teatro. É a crônica daquele tempo histórico. Não pode ser amputada da história”, enfatizou Ilka.

A TECNOLOGIA E O FAZER ARTÍSTICO

As duas entrevistadas também comentaram sobre os impactos das tecnologias para a produção musical.

“Antes, os discos para serem gravados era em LP, uma tecnologia muito cara, o que dificultava. Depois com CD, já ficou mais fácil, e agora com a coisa virtual ficou mais fácil ainda de lançar”, avaliou Nenê.

Ela lembrou que o primeiro CD que o grupo Vésper gravou na década de 1990 foi feito de modo analógico, gravado em um tipo de fita de videocassete, feito por takes para se escolher qual havia ficado melhor. Já no segundo CD foi possível usar um programa de computador para fazer a edição do material.

“A tecnologia, portanto, traz a facilidade para corrigir eventuais erros de gravação, por outro lado, qualquer um pode fazer música, mesmo que não cante muito bem. A gente usa tecnologia para o nosso canto, mas minimamente temos de cantar bem, então, há estes dois lados”, comentou Nenê.

Ilka disse que com o advento dos streamings e plataformas de música, os artistas tiveram de se reinventar. “Muitos artistas viram que não teriam mais como vender CD, então passaram a fazer mais shows ao vivo, pois no ao vivo, naqueles shows simples do artistas – não incluindo os megafestivais – não terá afinador para passar a voz, teremos de fazer só com nosso talento”.

Simone Preciozo elogiou a arte produzida pelas duas por falar de amor e de acolhimento. Ilka e Nenê (@nene_cintra) brincaram que em seus shows fazem “um dedinho de prosa musical”.

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E NA PERCUSSÃO, MAZÉ CINTRA

Em 3 de outubro, Simone Preciozo conversou com a irmã de Ilka e Nenê: Mazé Cintra (@maze_cintra), cantora, compositora, percussionista e regente de bateria de blocos de carnaval.

“Ainda hoje, a percussão é um mundo muito masculino. Em uma bateria de escola de samba, a maioria é de homens, é sempre mais difícil de conseguir abrir os espaços”, comentou.

Mazé contou que por receio de não conseguir sobreviver financeiramente apenas da arte, formou-se em educação física para dar aulas, lecionando na rede pública e em escolas privadas até se aposentar na década passada.

Em suas canções, Mazé aborda os dilemas cotidianos das mulheres, incluindo as questões do etarismo: “Ainda enfrento preconceito por ser uma mulher 60+. O etarismo existe, não tem jeito mesmo, e a gente tem de suar um pouquinho mais do que os outros para conseguir as coisas”.

Por 18 anos, Mazé Cintra participou do Bloco Afro Ilú Oba De Min. Depois, fundou o bloco ‘Qué Que deu?, que neste carnaval irá se apresentar na segunda-feira, 16 de fevereiro, das 14h às 18h, partindo de frente do Museu da Energia (Alameda Cleveland, 601, Bom Retiro).

“É um bloco apenas de mulheres. Tem um jeito especial de ser, é sensível. A gente se preocupa em tocar junto, fazer junto, sem querer competir”, detalhou.

Mazé, que já participou de apresentações em coletivos, agora realiza seus próprios shows: “Agora é Mazé por Mazé. As melodias falam de assuntos que a gente passou na pandemia, também de coisas da minha vida, da minha família”.

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