‘Manas e manhãs’ destaca a resistência de Dom Helder Câmara à ditadura militar
Nascido em Fortaleza (CE), em 1909, o frade franciscano Dom Helder Câmara viveu por 36 anos no Rio de Janeiro, tendo sido Bispo Auxiliar naquela Arquidiocese entre 1952 e 1964. Depois, foi transferido pela Igreja para a Arquidiocese de Olinda e Recife (PE), sendo titular até 1985. Por lá permaneceu como Arcebispo emérito até falecer, aos 90 anos, em 1999.
Dom Helder chegou a Recife em 11 de abril de 1964, dias após os militares tomarem o poder no Brasil. Discursou em praça pública se comprometendo a estar sempre ao lado do povo, a exemplo de Jesus. No começo de seu episcopado, teve uma postura mais observadora da nova situação política no Brasil, mas não demorou para que generais o procurassem pedindo que afastasse da Arquidiocese alguns padres que consideravam subversivos ao regime.
“Apesar do diálogo que ele tinha com os militares no Recife, em momento algum ele se sentiu com medo de falar o que ele pensava. Ele fazia isso sempre de uma maneira muito diplomática e respeitosa, e nunca se submeteu àquilo que os militares queriam. Aos poucos, a relação foi tendo pontos de atrito”, conforme explicou o professor Martinho Condini, mestre em Ciências da Religião e Doutor em Educação pela PUC-SP.
Martinho foi o entrevistado da edição de 17 de outubro do programa “Manas e Manhãs”, apresentado por Simone Preciozo na rádio comunitária Cantareira FM, na qual ele falou sobre a atuação de resistência de Dom Helder ao regime militar. Dias após a entrevista, o professor participou da 5ª Jornada da PUC-SP, promovida pelo Grupo de Pesquisa Religião e Política no Brasil Contemporâneo, com o tema “Helder, o Dom: o Concílio Vaticano II na história do Brasil”.
EM MEIO AO CONCÍLIO VATICANO II
Martinho enfatizou que Dom Helder foi um dos grandes opositores dos militares tão logo percebeu que “os rumos desse regime não eram aqueles que eles falavam antes de dar o golpe”.
Naquela mesma década, a Igreja em todo o mundo vivia as mudanças debatidas e definidas no Concílio Vaticano II (1962-1965), e Dom Helder estava na linha de frente para implementá-las no Brasil já que era o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), função que ocupou de 1952 e 1964.
Martinho recordou que Dom Helder esteve do lado de uma ala mais progressista da Igreja, preocupada com as questões sociais, em linha com o Concílio Vaticano II, que “vinha com a proposta de fazer uma Igreja dos pobres, mais voltada para as preocupações com os excluídos, com os pequeninos”.
“De 1962 a 1965, enquanto acontecia o Concílio, no Brasil temos o avanço da Direita, o Golpe Militar e, ao mesmo tempo, o crescimento de uma Igreja lutadora, em função das propostas vindas do Concílio Vaticano II, favorecendo o surgimento de núcleos fortes para uma discussão política, com a atuação das comunidades eclesiais de base [CEBs]”, detalhou Martinho.

AS CONSEQUÊNCIAS DA OPÇÃO PELOS POBRES
Dom Helder escolheu viver em uma paróquia em um bairro pobre da capital pernambucana. Em 1968, ano em que os militares decretaram o AI-5, com o endurecimento do regime, a casa paroquial foi metralhada por duas vezes.
Martinho também lembrou que as pessoas que trabalharam com Dom Hélder sofreram grande perseguição, seja no movimento de educação, seja na ação católica, além de padres que foram assassinados.
“No início dos anos 1970, Dom Helder foi indicado ao Prêmio Nobel por quatro vezes, e em todas elas, as perseguições aos seus companheiros e companheiras só aumentava, a ponto de ele pedir para não ser mais indicado ao Nobel. E ele só não ganhou por interferência diplomática do governo militar”, assegurou Martinho.

SE CALAREM A VOZ DOS PROFETAS…
O professor também lembrou que Dom Helder foi o primeiro a denunciar no exterior o que vinha ocorrendo no Brasil por causa do AI-5. A denúncia foi feita pelo bispo em um evento em Paris, na França, diante de 10 mil pessoas em um ginásio. Ele falou sobre os casos de repressão e tortura no Brasil, mencionando o espancamento do estudante Edson Medeiros, em Recife; e do Frei Tito, que foi torturado pela polícia do regime militar, e que anos depois cometeria suicídio.
No começo da década de 1970, o regime militar mandou uma “recomendação” aos veículos de imprensa impedindo que falassem de Dom Helder, seja bem, seja mal. “Foi um cala-boca a Dom Helder. De 1970 a 1977, nenhum órgão da imprensa brasileira podia entrevistá-lo”, recordou o professor.
Entretanto, os gestos de Dom Helder continuaram a ressoar na Igreja em todo o Brasil e sua fala ao povo da Arquidiocese, por meio do programa “Um olhar sobre a cidade”, na rádio Olinda, atravessaram o tempo e hoje estão no acervo permanente do Instituto Dom Helder Câmara.
Questionado por Simone Preciozo se acredita que esta Igreja profética, da qual Dom Helder foi um dos expoentes, um dia poderá voltar, Martinho Condini disse ser pouco provável, seja pela falta de apoio que grupos como as CEBs têm encontrado desde os anos 1990, além do fato de padres da Teologia da Libertação hoje serem minoria, e ainda pelo crescimento de uma ala mais conservadora na Igreja, “fomentando uma outra visão de como se fazer a Igreja, perdendo aquela dimensão da Igreja povo de Deus”.
ASSISTA A ÍNTEGRA DO ‘MANAS E MANHÃS’ DE 17 DE OUTUBRO
