No ‘Comunidade em Foco’, professor alerta que o trabalho escravo é um problema atual
Longe de ser um problema distante ou circunscrito aos livros de história, o trabalho escravo no Brasil é uma realidade latente, mas invisível.
“No Brasil, estima-se que 1 milhão de pessoas trabalham em condições análogas à escravidão. E, na minha visão, este é até um número subnotificado, pois como a escravidão é um negócio clandestino, é um crime, é difícil se chegar efetivamente às pessoas escravizadas”.
A análise é do professor Antonio Alves de Almeida, pedagogo, historiador, mestre em Ciências Sociais e Sociologia e doutor em História pela PUC-SP, com pós-doutorado sobre a educação para combater o trabalho escravo. Ele foi entrevistado na edição de 26 de novembro do programa ‘Comunidade em Foco’, na rádio comunitária Cantareira FM, apresentado por Juçara Terezinha.
O DESPERTAR PARA O TEMA

Antonio Alves é autor do livro “Trabalho escravo contemporâneo: A Modernização da Casa-Grande e da Senzala no Brasil”, publicado em 2020 pela editora Cousa (https://www.editoracousa.com.br). Ele lembrou que passou a estudar a temática durante o mestrado, quando teve maior ciência sobre a luta pela terra no estado de São Paulo e atuação de grupos como a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
“Aos poucos fui me interessando pelo tema, conversando com alguns padres e bispos, como Dom Tomás Balduíno (1922-2014), o querido Dom Pedro Casaldáliga (1928-2020) e tantos outros que me foram apontando que existia e ainda existe o trabalho escravo na cana-de-açúcar em São Paulo. Então, comecei a juntar os documentos que tive contato, apresentei um projeto de pesquisa na PUC-SP, mas inicialmente neste ambiente acadêmico, pelos idos de 2007, entenderam que não existia o trabalho escravo, mas sim o ‘trabalho sazonal’ de boias-frias. Devagarinho, porém, eu fui mostrando com o projeto que o trabalho escravo existia. Fiz um trabalho investigativo durante quatro anos, a priori aqui no estado de São Paulo, e depois fui para outras regiões do Brasil e mais adiante pesquisei um pouquinho a questão da escravidão atual na Europa”, detalhou Antonio Alves.
O pesquisador explicou que reduzir alguém à condição análoga à de escravo é considerado crime no Brasil, conforme consta no artigo 149 do Código Penal Brasileiro, e que isso ocorre especialmente em quatro situações: “Na condição de trabalho forçado, na de trabalho degradante, na jornada exaustiva e quando há restrição da locomoção do trabalhador por dívida contraída”.
Antonio Alves exemplificou que muitas pessoas migram de seus estados de origem para outros, a maioria no Sul e Sudeste do Brasil, e nos trabalhos agrícolas são submetidos a jornadas degradantes, vivendo em condições subumanas muitas vezes.
“Na minha tese de doutorado, eu até chamei essa situação de ‘a morte cansada’, porque há casos de trabalhadores que, por cortarem de 12 a 15 toneladas de cana-de-açúcar por dia, acaba que o corpo fisicamente não aguenta e eles morriam no canavial. Também em meio ao trabalho, eles levam picadas de animais peçonhentos e estão submetidos a ferimentos graves: muitos trabalhavam colocando fogo em uma área da plantação, mas o vento mudava direção e muitos morriam queimados ou tinha queimaduras com queimaduras horríveis, de terceiro grau, sendo internados”, comentou.
A ESCRAVIDÃO MODERNA

Antonio Alves detalhou que a escravidão ganhou novos contornos no Brasil no decorrer das décadas.
“Os acionistas da Casa Grande permanecem, só que hoje eles não são mais visíveis como antes, porque têm os prepostos que os indicam. Esses acionistas têm fusões de capital, tem dinheiro de vários países, assim na agroindústria açucareira a gente não sabe bem quem é o senhor da Casa Grande propriamente. O que sabemos é que há formas de exploração, de violência, como assédio moral, assédio sexual, violência física. A dignidade humana desses trabalhadores é violada o tempo inteiro”, sublinhou.
Juçara comentou que atualmente o controle da exploração dos trabalhadores do meio rural é feita de forma mais eficiente do que no passado por parte dos usineiros, o que expressa bem a “modernização da Casa Grande”, tema do livro do Antonio Alves.
Segundo o autor, há grande incidência de imigrantes e de migrantes que saem de um estado para outro trabalhando em condições análogas à escravidão: “Os donos do capital, os donos do poder, veem essas pessoas não como seres humanos, mas como mercadorias que eles a utilizam ao máximo e depois descartam quando não têm mais utilidade. É muito semelhante à lei dos sexagenários, no passado colonial: quando o escravo completava 60 anos de idade, o senhor ainda tinha direito de ficar com ele mais cinco anos antes de dar a liberdade. Hoje, depois que os senhores exploram ao máximo a pessoa escravizada, a descartam já adoentada com malária, por exemplo, como ocorre na Amazônia brasileira; ou com hérnia de disco, que é uma doença comum dos cortadores de cana. E essas pessoas, depois do trabalho sazonal do período do corte da cana-de-açúcar, são abandonadas à própria sorte, sem nenhum direito. E aí elas vão viver de favor. Outros acabam indo para a embriaguez, porque acham que não deram certo na vida. Muitos se sentem frustrados quando são demitidos e até sentem vergonha de voltar para sua terra de origem ou ficam muito endividados e não têm como regressar. É muito desafiadora a situação e desumana em todos os âmbitos”.
O professor lembrou ainda que há grande número de indígenas escravizados no Brasil, especialmente nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. “Eles são levados, muitas vezes, do Mato Grosso do Sul até essas regiões do sul do Brasil para o cultivo da maçã e da cebola. São escravizados e violentados. Em relação aos imigrantes, muitos são trazidos para cá por uma rede da escravidão, pelos coiotes que atuam nas fronteiras no tráfico de pessoas”.
Antonio Alves também lembrou que tem sido crescente os casos de trabalho escravo no meio urbano, seja de migrantes de países latino-americanos, seja de brasileiros que vivem em áreas mais carentes do Brasil: “O escravizado hoje é um migrante ou um imigrante, porque fica mais fácil para os prepostos da Casa Grande da Senzala os escravizarem”.
O DEBATE COM AS NOVAS GERAÇÕES

O professor disse que ainda hoje é difícil tratar deste tema no ambiente acadêmico, já que muitos resistem em admitir que haja trabalho escravo no estado de São Paulo, o mais rico e desenvolvido do Brasil.
“Foi muito difícil, eu conseguir convencer a universidade que era necessário um trabalho acadêmico desse tipo, uma pesquisa, porque não tinha tese de doutorado sobre isso há 20 anos, nem dissertação de mestrado. Hoje, quando você fala para os jovens sobre o trabalho escravo atual no Brasil, eles entendem um pouco melhor do que no passado, porque a informação já se popularizou. A gente busca explicar os detalhes para os jovens, trazer casos mais concretos, mostrar situações com imagens, depoimentos de trabalhadores. É dar uma concretude para que os jovens comecem a entender melhor esse processo, mas ainda há desafios para que tenha uma aceitação dessa realidade, porque muitos acreditam que com a Lei Áurea, de 1888, a escravidão acabou. Mas a gente sabe que, infelizmente, não acabou, e continua em todas as 27 unidades federativas do Brasil”.
Antonio destacou que falar mais sobre o tema em espaços da mídia, como a rádio Cantareira, é fundamental para que mais se entendam suas origens e incidência atual: “Eu acredito muito nessa questão da educação, da cultura, da denúncia. É um tema desafiador de denunciar”, disse, recordando que já foi intimidado a não prosseguir na pesquisa do tema quando estava na Amazônia.
“Chegou uma pessoa e disse, ‘olha professor, é bom você voltar de onde você veio, porque senão você vai sumir e ninguém vai saber mais da sua existência’. Quando você começa a chegar nos escravagistas ou nos prepostos, corre vários riscos, e é bem desafiador, mas a gente precisa continuar na luta, precisa continuar denunciando, porque é muito triste ver uma menina com 12, 13 anos, normalmente negra e pobre, ser levada para ‘estudar’ na cidade, e lá ela vai ficar por 40, 50, 60 anos, lavando, passando, sendo violentada, sem poder construir uma família. Depois, quando chega aos 70 anos, como eu presenciei, e é resgatada da escravidão, do trabalho doméstico, se vê sem ninguém, sem família, sem filhos, é uma vida anulada. Os escravagistas anulam uma vida inteira, e se a gente não denunciar, isso só tende a se reforçar cada vez mais”.
Juçara refletiu se também não pode ser considerada uma forma de escravidão moderna a rotina que é imposta a uma mulher periférica: “Se a gente olhar aqui na cidade de São Paulo, vai perceber algo que acontece todos os dias: uma mãe que tem de sair de casa às quatro e meia da manhã, precisa fazer três faxinas por dia para poder ter dinheiro e dar conta de comprar as coisas para a família. Ela chega em casa às oito, nove horas da noite, sofrendo todos os riscos possíveis na rua, e aí eu fico pensando: essa mulher também está em um estado de escravidão, porque não é possível você ter de trabalhar tanto. Quando a gente vai olhar essa história toda da luta hoje de reduzir a escala 6 por 1, é justamente para diminuir essa carga de trabalho, dessa pessoa que não tem um final de semana de descanso, por exemplo”.
Antonio Alves ressaltou que o trabalho análogo à escravidão é um problema global e quase sempre vem acompanhado de outros crimes como a degradação ambiental, a exploração sexual, a violação aos direitos humanos.
UMA VIDA DEDICADA A BOAS CAUSAS
Atualmente, Antonio Alves trabalha no Centro de Apoio Pastoral do Migrante (Cami) para cursos profissionalizantes em vista de um trabalho decente.
Morador da periferia da cidade de Osasco (SP), ele criou em 2025 o coletivo Educati – Educação, Trabalho e Inclusão, que busca ajudar brasileiros e imigrantes em situação de vulnerabilidade. No Natal, por exemplo, o grupo realizou campanha para a doação de brinquedos a crianças empobrecidas. Para 2026, se pretende estruturar cursos para que imigrantes aprendam o idioma e conheçam mais sobre seus direitos trabalhistas.
“Alguns até podem pensar: o que o Educati faz é tão pouco, mas como disse Madre Teresa de Calcutá: ‘O que eu faço pode ser apenas uma gota no meio do oceano, mas sem ela o oceano seria menor’”, enfatizou Antonio Alves, que desde os anos 1980 tem vínculos com as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).
Questionado sobre o atual momento político do Brasil, Antonio Alves alertou sobre a grande questão que deve ser levada em conta nas eleições deste ano: “O que está em jogo é manter o que nós sempre tivemos nestes 500 anos de história do Brasil e deixar os donos do poder continuarem mandando em tudo; ou tentarmos prosseguir neste processo que está em curso de uma mudança estrutural, que é lenta, mas que está acontecendo. A extrema direita quer voltar a ter tudo o que tinha antes, bem como manter as mazelas sociais, como é o caso do trabalho escravo”.
Por fim, destacou: “Sem trabalho, toda vida apodrece, mas sob um trabalho sem alma, a vida sufoca e morre. Nós defendemos o trabalho decente, com dignidade para todas as pessoas, independentemente da nacionalidade, cor, sexo, raça ou gênero”.
Qualquer situação de trabalho análoga à condição de escravo pode ser denunciada pelo Disque 100. A ligação é gratuita e sem necessidade de identificação do denunciante.
VEJA A ÍNTEGRA DE ENTREVISTA DE 27 DE NOVEMBRO
