Coletivo Prevenção para Todxs difunde informação sobre ISTs

Neste carnaval, quem for ao Largo da Matriz da Freguesia do Ó, no sábado, 14, e no domingo, 15, a partir das 13h, encontrará jovens distribuindo kits com preservativos e demais itens de prevenção a Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), como o HIV, vírus causador da Aids.

Desde 2021, o Coletivo Prevenção para Todxs tem se dedicado a levar informação e conscientização às pessoas da periferia da Brasilândia, em especial aos adolescentes e jovens, sobre como evitar tais infecções, mesmo após relações sexuais sem proteção ou diante de situações de violência sexual.

Na edição de 24 de janeiro do programa ‘Revista da Semana’, Beto Souza entrevistou dois integrantes deste coletivo: Thiago Araújo e Jéssica Oliveira, ambos com 26 anos de idade.

O COMEÇO DA INICIATIVA

“A gente viu a necessidade de atuar com essa temática dentro das vielas, das favelas, dos morros e, principalmente, das escolas, porque, infelizmente, o poder público não alcança a nossa população ou não se esforça para alcançar. Portanto, estamos aqui para lutar, levar a informação para os nossos”, detalhou Thiago, recordando que o começo do grupo foi motivado por uma situação na qual um dos jovens só conseguiu encontrar a profilaxia pós-exposição (PEP) em uma unidade de saúde na região central, pois na periferia não sabiam informar a respeito.

“A PEP é uma medicação de emergência para pessoas que, por exemplo, não utilizaram preservativo durante uma relação sexual. Ao tomar esse medicamento, elas não se infeccionam com o vírus do HIV, por exemplo, ainda que tenham tido uma relação sexual com alguém infectado”, explicou Thiago.

Durante a pandemia de COVID-19, este grupo de jovens se voluntariou para distribuir kits de preservativo e falar da prevenção a ISTs para as famílias carentes que recebiam cestas básicas, e, assim, percebeu o quanto faltava informação acerca do tema. Jéssica lembrou, por exemplo, que muitas das mulheres desconheciam a existência do autoteste de HIV e do preservativo interno: “Isso nos impactou demais, pois se uma mãe não sabe o que é, como é que seu filho vai saber?”.

Alguns meses depois, o grupo se inscreveu em um chamamento público aberto pela Prefeitura de São Paulo para desenvolver ações de prevenção às ISTs. Contemplados no edital deram início oficial ao Coletivo Prevenção Para Todxs.

FALANDO SOBRE SEXO E PREVENÇÃO COM OS JOVENS

Entre as ações do coletivo estão as rodas de conversa com adolescentes e jovens em escolas e outras instituições, ocasiões que Jéssica e Thiago afirmam ser de grande aprendizado e de revitalização do projeto.

“É muito gostoso sentar-se com eles para falar de um assunto que antes não era falado abertamente na escola e em casa. Ainda hoje, há um tabu muito grande. Vemos que os jovens são curiosos pelo tema depois das palestras vão se abrindo com a gente, é uma troca muito grande de vivências e surgem perguntas que às vezes pensamos sobre como responder. Algumas são ‘bem cabeludas’ e outras vêm bem mais leves, em tom de piada. Vem aquela curiosidade escondida e aí a gente fala ‘tá, não sei aonde você quer chegar’ E aí a pessoa acaba se abrindo. É uma experiência única, é muito bom”, assegurou Thiago.

“É uma experiência única, em que a gente acaba aprendendo com eles também. Quando a gente vai a uma escola ou dá a palestra em algum lugar que tenha pessoas mais jovens, trocamos experiências, pois existem situações que a gente não viveu, experiências que a gente precisa ir absorvendo. E é interessante quando eles – que são adolescentes ainda – vêm com essa sensação de acolhimento, passam pra gente a impressão de que sabem que estão falando com uma pessoa que não irá julgá-los, nem vamos recriminar ninguém”, comentou Jéssica.

“E é interessante também quando a gente fala com pessoas da nossa idade, mas que só agora descobrem coisas que já deveriam ter descoberto quando começaram a vida sexual; ou, ainda, pessoas da geração acima da gente, que não sabiam da existência de uma camisinha interna, por exemplo”, prosseguiu a integrante do coletivo.

“E acho que fica bem claro pra eles que a gente não está ali pra reprimir ninguém; que a gente está de igual pra igual, conversando, trocando experiências, porque a vida sexual vai ser iniciada em algum momento, se já não foi, e a gente tenta minimizar os riscos que eles podem encontrar neste caminho”, enfatizou Thiago.

Os entrevistados lembraram que ainda há muito estigma em relação há quem tenha uma IST, em razão dos impactos que doenças como a Aids causaram na sociedade nos anos 1980. “Buscamos explicar que o HIV não tem cura, mas com o devido tratamento você não vai ter uma vida saudável, como qualquer outra pessoa, e que este tratamento está disponível de forma gratuita no SUS. Você vai se tornar indetectável, intransmissível – deixa de transmitir o vírus HIV se toma um medicamento por um certo tempo e não desenvolve a Aids, que é a doença”, lembrou Thiago.

DIFERENTES PROFILAXIAS

Nas palestras que realiza, o Coletivo Prevenção para Todxs explica que atualmente há medicações que ajudam a evitar a disseminação dos vírus causadores de ISTs.

“A PEP é a profilaxia pós-exposição. Então, após você ter uma exposição ao vírus, você pode ir a uma UBS ou a um pronto-socorro e solicitar a PEP para a utilização durante 28 dias. Já a PrEP é a profilaxia pré-exposição, ou seja, quando uma pessoa tem a possibilidade de se expor ao vírus – por exemplo, é muito utilizado por profissionais do sexo –, ela utiliza a PrEP para ter uma segurança a mais. Algumas pessoas que têm parceiros positivos para o vírus também fazem a utilização”, detalhou Jéssica.

Thiago explicou que em São Paulo a PrEP está sendo ofertada de duas formas: de maneira contínua, quando a pessoa toma o medicamento diariamente até atestar que não há mais necessidade, ou seja “a pessoa não está mais se expondo a essa possibilidade de contato frequente com o vírus”, e, mais recentemente, passou a exstir a PrEP sob demanda. “Por exemplo, hoje é sábado, e eu sei que na terça-feira eu vou ter uma relação sexual desprotegida. Então, eu vou à unidade de saúde, pego o medicamento e vou tomar sob demanda. Neste caso, são dois comprimidos 48 horas antes da relação sexual, dois comprimidos 24 horas antes e um 24 horas depois”.

Thiago lembrou que a PEP deve ser usada não só por quem se relacionou com alguém que tenha HIV ou outra IST. “A gente sempre fala: na dúvida, PEP! A camisinha rompeu ou estourou ou nem foi utilizada? Use a PEP até 72 horas depois da relação sexual”.

O jovem disse que na rede pública de saúde de São Paulo até por meio de teleconsulta é possível que o médico receite a PEP ou a PrEP e que a medicação pode ser retirada em dispensers espalhados em diferentes locais da cidade: “Você chega com o QR Code da receita, encosta e sai o medicamento. Aqui na Brasilândia, o mais próximo fica no CCJ, que está com um armário dispensador de autoteste e de preservativo, e dá para retirar a PEP ou a PrEP. Ou você pode ir até o Serviço de Atenção Especializada (SAE) ou ao Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA) para passar com o médico presencialmente e fazer todo esse acompanhamento”.

DIFICULDADES PARA ACESSO A ESTE DIREITO

Infelizmente, porém, não são em todos os hospitais e unidades de saúde que alguém irá encontrar o devido atendimento e orientação para a prevenção a ISTs, seja pré-exposição ou pós-exposição aos vírus.

“Muitas vezes, os médicos não sabem o protocolo correto para utilizar a PEP”, lamentou Jéssica

“Em outubro do ano passado, uma pessoa que a gente conhece precisou ir ao pronto-socorro da João Paulo I, passou pela médica, e percebeu que os devidos protocolos não estavam sendo seguidos. Não ofereceram o autoteste. Essa pessoa falou em mensagem com a gente e fomos orientando sobre como falar com a médica. O protocolo para a PEP é simples: a pessoa chega na rede de urgência, fala que teve uma relação sexual desprotegida ou se foi vítima de violência sexual, e, primeiro, deve fazer um autoteste de HIV. Se o resultado der negativo, ela deve tomar o medicamento por 28 dias e passa a ser acompanhada na rede especializada. Mas, infelizmente, não tem acontecido sempre assim: as pessoas chegam ao pronto-socorro e a atendente não sabe o que é PEP, a enfermeira também não, às vezes nem o médico, daí a pessoa vai acabar infectada devido à falta de informação”, lamentou Thiago.

Diante desta ocorrência de outubro passado, o Coletivo Prevenção para Todxs cobrou explicações da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo e da Secretaria Municipal da Saúde a respeito dos protocolos de treinamentos dos profissionais para o atendimento de tais casos, mas as respostas enviadas – após insistentes solicitações – foram evasivas.

“Isso é alarmante. Se uma mulher, uma menina, menino ou um homem é abusado sexualmente e vai a esse lugar de saúde e sai de lá sem o medicamento, fica exposto ao vírus. Será mais uma pessoa que, além de já ter sido violentada, sofrerá mais essa violência com a anuência do Estado, porque a informação não chega”, comentou Thiago. “A falta de informação mata mais do que qualquer outra coisa atualmente”, ressaltou.

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