Cantareira FM abre espaço para a ação cultural ‘Viva Cordel’
Tem novidade chegando na rádio comunitária Cantareira FM: a partir de 9 de março vai ao ar o programa da ação cultural Viva Cordel, com Cleusa Santo, Edimaria e Maria Rosa. A atração será sempre às segundas-feiras, às 20h, com reprise às quintas-feiras, às 14h.
As três falaram sobre o Viva Cordel e a tradição da literatura de cordel – que desde 2018 é reconhecida como Patrimônio Cultural Brasileiro – na edição de 17 de janeiro do programa Sintonia Cultural, apresentado por Adão Alves – que também é escritor – e Anilson Brito – jornalista que realizou seu trabalho de conclusão de curso para este graduação sobre a literatura de cordel.
A apresentação das entrevistadas, como não poderia ser diferente, foi à base de cordel:
“O meu nome é Cleusa Santo, sou poeta e brasileira/ O cordel é minha arte, a minha arte primeira/ e a mulher no cordel não veio por brincadeira/ Se quer saber quem eu sou, conheça a minha poesia/ Eu sou um pouco do mundo, poesia é o meu dia a dia/ Não dou ibope para dor, tristeza ou melancolia”, disse a mulher nascida em Tarumã (SP) e criada no estado do Paraná. “O cordel é minha profissão de alma”, brincou.
“O meu nome é Edimaria, nasci no velho Nordeste”, disse a mulher nascida em Paulo Afonso (BA). “Este povo não cansa/ é fé, é esperança/ até a morte, esta sou eu, Edimaria”, prosseguiu.
E de Pernambuco veio a outra integrante do trio: “Minha vida em cordel, eu agora ou dizer/ Eu me junto ao cordão destas marias que a roseira fez nascer/ Seja em verso, seja em prosa, eis aqui Maria Rosa, a Rosinha pra vosmecê”.

AS ORIGENS DO CORDEL
Edimaria lembrou que ainda hoje há uma ideia equivocada de que todo mundo que escrevia cordel no passado era analfabeto. “Isso não é verdade. As pessoas tinham, sim, um grande poder de assimilar a oralidade e conseguiam decorar cordéis inteiros”.
Ela lembrou, ainda, tratar-se de uma poesia genuinamente brasileira: “O nosso ‘pai do cordel’ foi o Leandro Gomes de Barros [1865-1918], mas, infelizmente, há quem insista em dizer que o nosso cordel veio da península ibérica, mas não é bem isso. Claro que as pessoas podem ter vindo da Europa ao Brasil com suas poesias, mas foi o Leandro Gomes que desenvolveu essa forma da literatura de cordel. É uma forma perfeita, que parece ser fácil de fazer, mas não é, pois a pessoa precisa ter a métrica, a rima e a oração, que é a explicação daquilo que você escreveu, por isso dizemos que é nosso”.
Edimaria também lembrou que ao contrário do que convencionou pensar, os pioneiros do cordel não vendiam os poemas no cordão. Essa prática surgiu depois, para que essa literatura ganhasse ainda mais visibilidade, mas que bem no começo, os cordelistas levavam seus escritos em uma mala vendida na mala: “Onde um cordelista estivesse, ele montava a sua mesa, abria a sua mala e ia tirando de dentro dela as histórias e contando”.
Ao longo dos programas, as integrantes da ação cultural Viva Cordel explicaram que a maioria dos primeiros cordéis tem como autores homens, ainda que alguns deles tenham sido compostos por mulheres, como a pernambucana Maria das Neves Batista Pimentel, filha de cantadores e repentistas, e que é considerada a primeira cordelista do Brasil, na década de 1930
“Ela tinha o desejo de trazer a literatura para o povo analfabeto e buscou trazer isso de uma forma que todas as pessoas pudessem compreender, mas publicava com o nome do marido, já que havia uma resistência das pessoas em comprar textos de mulheres na época”, contou Edimaria, ao recordar que Maria das Neves apresentou em literatura de cordel alguns clássicos como “O Violino do Diabo”, baseada nas obras eruditas de Victor Hugo.
ENSINO E PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA
Rosa Maria detalhou que o Viva Cordel é uma ação cultural que busca trabalhar a promoção e a salvaguarda deste patrimônio cultural, bem como a difusão, pesquisa, diagnóstico e mapeamento do cordel.
Ela explicou que como a produção do cordel tem um forte componente melódico, muitos textos acabam sendo musicados e se tornam objeto de estudo. “É um conteúdo que tem, também, um grande poder de síntese: em um verso, quantas informações estão! Nós temos essa habilidade musical, essa questão melódica, rítmica”, disse.
“Nós também trabalhamos para formar escritoras cordelianas independentemente da idade que tenham. Fazemos ações intergeracionais. A poesia faz com que as tradições continuem”, enfatizou Rosa Maria, detalhando que este processo de ensino é feito já com as crianças.
Rosa Maria lembrou ainda que a literatura de cordel é muito abrangente, já havendo hoje cordelistas que se dedicam à escrita que tocam sobre as violências contra as mulheres, como é o caso do feminicídio e as desigualdades no mundo do trabalho.

INSPIRAÇÃO CRIATIVA
Ao longo do programa, as entrevistadas declamaram alguns cordéis e falaram de suas obras, bem como sobre suas inspirações criativas:
“Eu sou este canal da poesia. A poesia não é minha, ela passa por mim. Não sei como ela vem, mas você olha uma situação e faz. Esse ‘eu lírico’ é independente da Cleusa pessoa”, comentou Cleusa Santo.
Edimaria lembrou que alguns de seus cordéis falam da resistência e protagonismo das mulheres nordestinas ao longo da história, uma deles sobre as mulheres guerreiras da batalha de Tejucupapo, em Pernambuco, contra as invasões dos holandeses na década de 1640.
Rosa Maria, por sua vez, recordou que escreveu uma trova pela primeira vez aos 8 anos de idade e suas inspirações produtivas vêm de situações da história do Brasil. “A minha mente vivia cheia de coisa, mas sem ter por onde escoar, e isso era muito perturbador. E as minhas inspirações sempre foram neste povo brasileiro”.
As três, junto aos cordelistas Luciano Braga e Maria Clara, também criaram o projeto “Cine Tevê Brasil – Nossa Dramaturgia em Cordel”, que falam sobre traços da literatura de cordel na teledramaturgia brasileira, bem como de cinema, fazendo menções até ao filme “Ainda Estou Aqui”, que venceu o Oscar 2025.
O CORDEL NA ERA DAS TECNOLOGIAS
E como este patrimônio cultural, que mesma oralidade e o vínculo da escrita em papel tem sobrevivido nesta era digital? A resposta é simples: mantendo sua essência, independentemente da plataforma na qual esteja publicado.
“Tudo na vida se transforma e temos de estar atentas a esta transformação, que é de formato não de conteúdo. O hábito de ler o livro em papel nunca vai acabar. Hoje estamos nessa fase de internet, e nós cordelistas temos de entender este novo momento. Eu, por exemplo, estou em cinco redes sociais – TikTok, Kawai, YouTube, Facebook e Instagram. Todo dia eu alimento estas redes com poesia”, disse Cleusa Santo.
Edimaria disse ter convicção de que a IA jamais conseguirá produzir uma poesia nativa: “Você não vai ler um verdadeiro cordel feito com IA. Mesmo as capas de cordel, em que se pode fazer algum uso disso, precisam do toque de um profissional. Quem tem senso de observação vai perceber que não foi feito por um artista”.
Para Rosa Maria já está se vivendo a primeira geração do ‘icordel’ – em uma analogia a era dos iphones e outras tecnologias: “O cordel não é o suporte em que ele é feito, ele é a poesia, a literatura de cordel, então pode vir em todos os formatos, como em livro ou no digital”. E completou: “Há toda uma métrica, temos uma silabação melódica – que é diferente da separação silábica da língua portuguesa –, normalmente os versos do cordel trabalham com sete, e há a estrutura da rima, que segue a sequência dos versos. Então, é algo que exige clareza, coerência e consistência, e a IA não consegue isso, porque ela não tem passado”.
E pra encerrar, Rosa Maria deixou uma provocação no ar: em breve, lançara o cordel erótico, baseado na História da Sexualidade, do filósofo e historiador francês Michel Foucault. “Já tenho 13 estrofes escritas”, adiantou, dizendo que seu conteúdo contempla expressões com metáforas populares sobre sexualidade que ela ouviu desde criança.
Então, reforço no convite: programa da ação cultural Viva Cordel, com Cleusa Santo, Edimaria e Maria Rosa, a partir de 9 de março na rádio Cantareira FM: às segundas-feiras, às 20h, com reprise às quintas-feiras, às 14h. Não perca.
ASSISTA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DE 17/01 NO SINTONIA CULTURAL
