Associação Cantareira sedia roda de conversa ‘Periferias pelo Clima’

No sábado, 23 de agosto, foi realizada a primeira roda de conversa “Periferias pelo Clima – Região Noroeste”, com a participação de mais de 40 pessoas na sede da Associação Cantareira, mantenedora da rádio comunitária Cantareira FM.

A atividade foi ocasião para um amplo diálogo e troca de experiências sobre os desafios e caminhos para enfrentar a crise climática a partir das periferias, em um momento no qual o Brasil se prepara para sediar a COP30, em Belém (PA), em novembro.

Os participantes tiveram melhor ciência do que é a COP, o encontro anual dos países signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) para debater e negociar ações contra o aquecimento global e outros problemas ambientais.

Também lhes foi apresentado o mais recente Mapa da Desigualdade, com dados de 2024 compilados pela Rede Nossa São Paulo, que indicam que o Distrito da Brasilândia é o pior entre os 96 distritos da cidade na pontuação acumulada de indicadores referentes a oferta de emprego formal, gravidez na adolescência, remuneração mensal, acesso a internet, domicílios em favelas, entre outros.

FRENTE PERIFÉRICA

Participantes apresentam propostas no evento

A iniciativa da Roda de Conversa “Periferias Pelo Clima” é da Frente Periférica, iniciada em 2024, buscando amplificar o alcance das pautas da periferia para os diversos segmentos da sociedade, compiladas no Manifesto das Periferias, com 98 propostas ao todo.

Em entrevista ao site da rádio comunitária Cantareira FM, Mateus Muradás, da coordenação da Frente Periférica, explicou que o movimento percebeu que as discussões sobre a COP30 não estavam reverberando nas periferias, o que motivou a se pensar na criação das rodas de conversa em diferentes territórios.

“Mesmo com a gente sofrendo com enchentes nos nossos territórios, com queda de encostas, com calor extremo, com os lixões, vimos que a pauta ambiental não chega com toda a força na ‘quebrada’, falta este olhar de periferia, porque às vezes são discussões que parecem muito distantes. Por exemplo, quando se fala na proteção da Amazônia, como tornar essa discussão tangível pra gente que é da ‘quebrada’? Portanto, queremos discutir a partir da nossa realidade a emergência climática, o efeito da mudança climática, como isso impacta quem perde tudo em uma enchente ou em uma queda de encosta, quem não consegue ter o seu transporte até o trabalho, já que é o povo da quebrada que atravessa a cidade todos os dias, levando três, quatro horas por dia para ir e voltar. Isso também é uma pauta climática, então as pessoas precisam dela se apropriar e se colocar nesse lugar do sujeito periférico”, detalhou.

Mateus explicou que nestas rodas de conversa os fóruns de cada região estão definindo os temas prioritários a serem de debatidos pelas lideranças.

O integrante da Frente Periférica também lembrou que a iniciativa tem buscado apresentar as discussões sobre a temática ambiental em uma linguagem mais simples do que a utilizada no meio acadêmico, a fim de que as populações periféricas percebam que vivem nas áreas menos arborizadas e com precariedades de saneamento básico, por exemplo, e, assim, se enxerguem dentro do problema.

“Acesso à água é uma pauta ambiental; acesso à moradia digna é uma pauta ambiental; a questão da mobilidade é uma pauta ambiental; o trânsito tem efeito ambiental; a mesma coisa, a construção de moradias. Então, olhar sobre esse prisma ajuda a gente a entender que a pauta ambiental, na verdade, percorre por todos os outros temas da vida”, insistiu Mateus.

FÓRUM DA NOROESTE

Também em entrevista ao site da rádio comunitária Cantareira FM, o economista Carlos Cordeiro, um dos coordenadores do Fórum de Políticas Públicas da Região Noroeste e membro da Pastoral Fé e Política da Região Brasilândia, disse que uma das metas é fazer com que as pessoas nos territórios periféricos entendam que a ecologia integral envolve muitos aspectos, como a luta por moradia de qualidade perante a atual especulação imobiliária, e o fortalecimento da economia solidária, diante da falta de emprego formal nas periferias.

“Enquanto na região central, para cada dez pessoas em idade produtiva há 70 vagas de emprego, aqui na Brasilândia para cada 20 pessoas em idade de trabalhar, existe uma vaga de emprego. Portanto, o debate da economia solidária aqui é fundamental. A economia solidária envolve outro modo de produção, não visa o lucro, não é um trabalho precário. Nela, há cooperativas, bancos comunitários, hortas comunitárias”, explicou, ponderando que os indicadores de que a Brasilândia é o pior distrito da cidade para se viver podem ajudar a provocar mobilizações por mudanças.

“Essas 40 pessoas estão aqui refletindo sobre essas desigualdades e pensando nas políticas públicas que têm que ser colocadas em prática diante de situações como as de segurança pública. Por que a idade média ao morrer no Alto de Pinheiros é de pouco mais de 80 anos e daqui da Brasilândia é 60 anos? Por que a população aqui vive 20 anos menos? Qual é a política de segurança pública? Então, a gente quer chamar o poder público para entender e cobrar ações de desenvolvimento nas regiões mais carentes do país”, prosseguiu Carlos Cordeiro.

O integrante do Fórum da Noroeste destacou que o movimento está aberto ao diálogo com todos, na medida que as pessoas vivem na mesma casa comum, como dizia o falecido Papa Francisco, e que a multiplicidade dos 40 participantes do evento, em sua maioria jovens e negros, ajuda a ampliar o horizonte de diálogo de movimentos que militam em diferentes causas.

“Juntos a gente é muito mais forte. E agora todas essas pessoas aqui devem ir dialogar com as outras que sofrem os problemas no dia a dia, usando uma linguagem que elas entendam. Se 50% da nossa população é jovem, não adianta pegar a minha linguagem de alguém que já está chegando nos 60 para dialogar com eles. É o jovem que sabe falar com o outro jovem, e nós, mais velhos, sabemos como falar com os pais de família que sofrem com a falta de moradia, aqui 25% das moradias na Brasilândia estão em favelas. Portanto, a hora que a gente junta todos esses saberes, isso facilita para chegar nessas pessoas. Já se a gente se dividir, nunca vai chegar nelas”, avaliou Carlos Cordeiro.

REFLEXÕES NOS GRUPOS

Como parte da dinâmica do encontro, os participantes se dividiram em quatro grupos temáticos (GT), com tópicos definidos pelo Fórum da Noroeste, para refletir sobre as realidades locais e, depois, apresentar uma síntese na plenária.

Os participantes do GT Moradia, Enchentes e Saneamento apontaram para a falta desses serviços na região. Também destacaram ser preciso realizar uma discussão integrada sobre educação, saúde e meio ambiente. Lembraram, ainda, como a especulação imobiliária impacta no clima, e falaram da importância de que haja coleta seletiva e incentivo à construção de moradia popular. Defenderam, também, que se protejam as áreas verdes, benéficas ao meio ambiente e para evitar catástrofes.

No GT Clima e Racismo Ambiental, um dos alertas feitos é que nem sempre o tema do racismo aparece conectado às problemáticas feminina e da juventude. Os participantes lembraram, ainda, da falta de equipamentos de lazer, de áreas verdes e de saúde na região, e consideraram haver uma lógica segundo a qual o orçamento público perpetua o racismo ambiental, pois os recursos acabam sempre sendo destinados para as áreas onde já existem estruturas na cidade. Comentaram, também, que muitas vezes as vítimas são colocadas como culpadas, com frases do tipo “porque foi escolher morrer no morro”. Outro ponto foi a defesa do fim da escala de trabalho 6×1 e o fortalecimento da participação popular nos conselhos, os quais deveriam ser todos deliberativos. Defenderam, ainda, que haja orçamento direcionado para as áreas periféricas e fomentos para ações culturais e climáticas na periferia.

Outro GT foi o de Políticas Públicas Locais e Áreas Verdes, no qual os participantes defenderam o fortalecimento dos fóruns regionais; maior diálogo entre secretarias; mapeamento das áreas verdes; formação ambiental para a população; e que o acesso das pessoas às áreas verdes continue sendo gratuito. Falou-se, ainda, em responsabilizar as empresas que lucram com o adoecimento da população em razão das degradação ambiental. Houve também a defesa da construção coletiva de políticas para o território, sendo estudadas por pessoas do próprio local, bem como políticas públicas concretas sobre educação ambiental, que não sejam só feitas com ações isoladas. Outros pontos considerados fundamentais foram o de fiscalizar as políticas públicas que já existem no território; e se criar um plano de mitigação de desastres ambientais na periferia.

Por fim, no GT Economia Solidária, Sustentável e Juventudes, os participantes reforçaram que esta economia deve ser inclusiva também às pessoas com deficiência, migrantes e pessoas trans; que é preciso levar em conta que a juventude não quer mais trabalhar nos mesmos moldes que as gerações passadas, em modelos exploratórios e que afetaram a saúde dos trabalhadores. Comentou-se, ainda, sobre a necessidade de se valorizar os conhecimentos ancentrais, pois os povos indígenas têm muitas respostas sobre como viver com qualidade. Lembraram, também, que a economia solidária é de autogestão, de cuidado de um com os outros, o que a difere da lógica capitalista. Sublinharam ainda que a economia solidária pensa um novo modo de vida e não só no uso do corpo para o trabalho.

PRÓXIMOS PASSOS 

O resultado dessa construção coletiva realizada no dia 23 na sede da Associação Cantareira e de outras rodas periféricas será compor o Manifesto das Periferias pelo Clima, a ser apresentado na COP30.

“Nesse momento, a frente periférica está em um processo de escuta para chegar em um processo de síntese. Portanto, é muito importante escutar, muito mais do que ter uma perspectiva pronta. Queremos escutar as pessoas para chegarmos a um consenso entre os sujeitos periféricos, organizações, movimentos sociais populares, para ter qual é a nossa perspectiva, obviamente trazendo também o assunto global, as grandes discussões”, comentou Mateus Muradás.

O membro da coordenação da Frente Periférica destacou que em setembro e outubro será feita a síntese do que foi sendo construído nas rodas de conversa: “Aí é que a gente vai saber o que vai sair desse documento. É um documento para dialogar aqui entre nós ou para levar para a COP30 e incidir em uma mesa de debate? Ou os dois? Esse momento de síntese vai nos trazer esta resposta”, concluiu.

(Reportagem: Daniel Gomes, jornalista e comunicador na rádio Cantareira FM)

PRÓXIMOS ENCONTROS
 
Roda de Conversa – Jaraguá – Território Indígena
28/08 – 15h, na Aldeia Tekoa Pyau – Opy – Casa de Reza – R. Comendador J. de Matos, 458 – Vila Clarice / Jaraguá, São Paulo SP
 
Roda de Conversa – Perus
4/9 – 19h30, na Igreja Santa Rosa de Lima – Rua Dr. Oscar Cunha Correia, 141 – Perus, São Paulo SP
 
Seminário Periferias pelo Clima – Noroeste
13/9 – 9h às 12h, no CEU Freguesia do Ó – Esperança Garcia – R. Crespo de Carvalho, 71 – Freguesia do Ó, São Paulo – SP
 
Roda de Conversa – Virada Sustentável
29/9 – 14h30 na Fábrica de Cultura da Brasilândia – Av. General Penha Brasil, 2508 – Brasilândia, São Paulo – SP