Adriano Massuda: ‘Estamos recuperando o sistema de saúde brasileiro’

A rádio comunitária Cantareira FM entrevistou, com exclusividade, na manhã de 20 de março, Adriano Massuda, secretário-executivo do Ministério da Saúde.

Massuda tem um extenso currículo em favor da saúde pública no Brasil: ele é médico sanitarista, formado pela UFPR, com residências em Medicina Preventiva e Social e em Administração em Saúde; além de doutor em Saúde Coletiva na área de Política, Planejamento e Gestão em Saúde pela Unicamp; professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas e coordenador do Centro de Estudos de Planejamento e Gestão em Saúde da FGV-EAESP.

Na ocasião da entrevista, conduzida pelo comunicador Beto Souza, Massuda cumpria agenda na cidade de São Paulo, onde no dia anterior participou da caravana federativa com o presidente Lula, na qual houve a entrega de mais de R$ 3,8 bilhões em investimentos para ações de diversas, como a construção de unidades de saúde, policlínicas e centros de atenção psicossocial.

Também como parte destes investimentos, aconteceu a entrega, em municípios paulistas, de 43 ambulâncias do SAMU e de cinco unidades odontológicas móveis, “que levam atendimento de saúde bucal para mais perto da população, beneficiando também cidades que têm população rural. Sabemos o quanto isso é importante, por exemplo, para o interior de São Paulo, pois são unidades que levam as equipes para fazer atendimento mais próximo das casas”, detalhou o secretário-executivo.

Massuda destacou que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, tem percorrido o Brasil em busca de viabilizar parcerias para a adoção das melhores tecnologias de atendimento à população em saúde: “Estamos dispostos a fazer todo um trabalho de mudança de padrão tecnológico em saúde, alinhado ao que o mundo está vivendo com a transformação digital, com unidades de saúde inteligentes e hospitais inteligentes, por exemplo”.

Marcelo Camargo/Agência Brasil

NÃO É GASTO EM SAÚDE, É INVESTIMENTO

Diante de tantas ações para aprimorar os serviços de saúde no Brasil, Adriano Massuda disse que, muitas vezes, o Governo Federal é criticado pelo volume de recursos destinados para a área. O secretário-executivo sublinhou que o que se vive agora na saúde do País é bem diferente do que no governo anterior.

‘Estamos recuperando o sistema de saúde brasileiro, os programas, as políticas, retomando uma visão muito clara de prioridade política, definida pelo presidente Lula, e em substituição a uma visão que via a saúde como um gasto. E houve um período de desconstrução de políticas, em que os investimentos na saúde foram cortados. Isso teve um impacto direto na piora dos indicadores de saúde”.

Um destes indicadores afetados durante o governo passado foi a piora nos indicadores de cobertura vacinal, indo na contramão da tradição brasileira em vacinar sua população para a precaução de doenças.

“Quando piora o indicador vacinal, piora tudo junto, todo o resto. É sinal de que houve uma piora no desempenho do sistema de saúde. Nós retomamos uma política de investimento em saúde, uma prioridade do presidente Lula, e não podemos voltar atrás em relação a isso. Em países ricos, o investimento em saúde é predominantemente público, porque quando a população tem de gastar dinheiro do próprio bolso para ter acesso a uma consulta, a um exame, a uma cirurgia, isso gera um empobrecimento, isso é ruim para toda a economia. Então, o investimento público em saúde é fundamental”, detalhou o secretário-executivo.

“Hoje, nós podemos comemorar, pois recuperamos as coberturas vacinais. Agora temos mais vacinas sendo incorporadas, como a vacina da dengue e muitas vacinas contra outras doenças que podem ser prevenidas, tratadas. Também expandimos fortemente a quantidade de cirurgias: nós passamos de 10 milhões por ano para 14,5 milhões de cirurgias, um aumento de 4,5 milhões de procedimentos no intervalo de 3 anos, e vamos continuar aumentando por conta de todo esse esforço”, enfatizou.

MUTIRÃO DE SAÚDE DA MULHER

Massuda conversou com a rádio Cantareira FM especialmente para falar sobre a realização inédita, no estado de São Paulo, do mutirão do programa ‘Agora Tem Especialistas’, com atendimento exclusivo para mulheres entre os dias 21 e 22 de março. Em São Paulo, a projeção era a de se realizar 23 mil procedimentos para pacientes previamente agendados, conforme dados do site do Ministério da Saúde.

Esse mutirão ocorreu em todo o Brasil durante os dois dias com consultas, exames, cirurgias, em uma ação conjunta envolvendo 100 instituições de saúde, entre públicas, filantrópicas e privadas.

“Nesse mutirão, há procedimentos especializados para as mulheres. Cabe aos governos municipais, aos estados, organizarem as filas, ver quem precisa passar por uma cirurgia ou por uma consulta ou exame. Nós vamos, portanto, acelerar a oferta para que se possa reduzir a fila de espera. Teremos consultas, exames de imagens, exames diagnósticos, realização de inúmeros procedimentos, de cirurgias simples a cirurgias complexas, envolvendo toda a rede pública e privada do Brasil”, prosseguiu o secretário-executivo.

“Da vacina às cirurgias de alta complexidade, passando pela implantação do Implanon, que é um anticoncepcional de longa duração, para que as mulheres também possam ter a opção de fazer o planejamento familiar, tudo isso é ofertado no mutirão”, detalhou o secretário-executivo, destacando que no caso do  Implanon, basta a mulher, ainda nesta semana, procurar a unidade básica de saúde para que possa acessar o procedimento contraceptivo.

MUTIRÃO AGORA TEM ESPECIALISTAS

Massuda explicou que a atenção à saúde da mulher é a mais recente das ações incorporadas ao mutirão ‘Agora Tem Especialistas’, criado para reduzir o tempo de espera para se diagnosticar um problema de saúde e iniciar o tratamento.

“Nós elencamos cinco primeiras especialidades, incluindo atenção ao câncer, pois ainda se perde uma grande oportunidade terapêutica no Brasil para o tratamento de câncer de mama, tratamento de câncer de colo de útero, que se for diagnosticado precocemente se consegue tratar e resolver o problema”.

O mutirão também contempla as especialidades de oftalmologia – especialmente em razão dos muitos casos de catarata – cardiologia, ortopedia e otorrinolaringologia.

Massuda explicou que o ‘Agora Tem Especialistas’ engloba um conjunto de medidas que incluem a mobilização da rede privada, que pode trocar dívidas de tributos federais por atendimentos no SUS, em vez de um ressarcimento financeiro direto ao Sistema Único de Saúde.

Ainda de acordo com o secretário-executivo do Ministério da Saúde, carretas do SUS têm sido levadas a diferentes partes do país. “Hoje, já há mais de 50 carretas ofertando atendimento à saúde da mulher para diagnóstico de câncer de mama, câncer de colo uterino, e exames de imagem como tomografia e exames e procedimentos na área de oftalmologia”, detalhou.

Massuda assegurou que toda a mobilização é feita em diálogo com as secretarias municipais e estaduais de saúde para identificar quais são as regiões onde há maior fila e maior carência de serviços: “o Governo Federal entra apoiando com a oferta do serviço. A mesma coisa a gente fez com o Programa Mais Médicos, identificando onde há essa carência e alocando médicos para esses locais. Hoje, nós temos 27 mil médicos do programa trabalhando em todo o Brasil”.

Ele também lembrou que o Governo Federal tem aumentado o repasse de recursos da área de saúde para os estados e municípios, o que permitiu, por exemplo, ampliar a quantidade de cirurgias. “Mas vimos que só repassar o recurso não era o suficiente. Assim, por meio do programa ‘Agora Tem Especialistas’, nós criamos essas modalidades para mobilizar a estrutura privada e levar mais serviços públicos para as regiões de maior necessidade”.

O secretário-executivo comentou, ainda, que o Governo Federal tem investido no Programa Mais Médicos também no estado de São Paulo, viabilizando mais 400 médicos para atendimento à população, além de equipamentos para ampliar a capacidade de diagnóstico e tratamento.

A ATENÇÃO DO SUS DIANTE DA VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

Na conclusão da entrevista, Adriano Massuda ressaltou que o SUS tem cada vez mais se qualificado para as questões relativas ao combate da violência à mulher.

“O enfrentamento do feminicídio é um problema não só de saúde, mas de toda a sociedade, e o sistema de saúde precisa estar preparado. Por isso, tomamos uma série de iniciativas para preparar o SUS para notificar situações de violência contra a mulher. Também estamos sugerindo à Organização Mundial de Saúde que classifique isso como uma doença, pois assim poderemos tratar a violência contra a mulher como algo para dirigir ações estruturadas. Além disso, credenciamos procedimentos no âmbito do sistema de saúde para a reabilitação de mulheres que foram vítimas de violência, e lidam com traumas que infelizmente acontecem na sua saúde bucal, e que precisam de reconstruções com órteses e próteses”.

Massuda lembrou que o tema da violência contra a mulher não pode ser esquecido. “Temos de dedicar toda a atenção para o enfrentamento do feminicídio como problema de saúde pública, um problema de toda a sociedade. O presidente Lula tem colocado isso com muita ênfase, e, também, a primeira dama Janja”.

ASSISTA A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA DE 20 DE MARÇO